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O Dia Em Que Precisei Desaprender (Quase) Tudo Sobre o Qatar

Vi de perto foi um país cuja transformação está sendo liderada, de forma clara e contundente, por duas mulheres

6 min

Eu costumava julgar um livro pela capa. Acontece que, quando escolhemos olhar além dela, geralmente nos surpreendemos.

Escrevo aqui para compartilhar o que vivi. Não escrevo para julgar tradições, costumes ou religiões. Portanto, peço que suspenda suas certezas por alguns minutos. O estereótipo, no sentido mais literal da palavra, é nocivo.

O que vi de perto foi um Qatar cuja transformação está sendo liderada, de forma clara e contundente, por duas mulheres: Sua Alteza Sheikha Moza bint Nasser Al-Missned, mãe do Emir, e Sua Excelência Sheikha Al Mayassa bint Hamad Al Thani, irmã do Emir. São elas que conduzem, com visão de longo prazo, a revolução da educação, da cultura, da saúde, do desenvolvimento social e da inclusão, especialmente de mulheres, crianças e jovens.

Talvez você estranhe a minha afirmação. Afinal, o poder no Qatar é formalmente centralizado no Emir, Tamim bin Hamad Al Thani, chefe de Estado e comandante-em-chefe das Forças Armadas. Mas o que encontrei foi algo mais sofisticado: uma família organizada em torno de um projeto de nação.

Estar entre os países com um dos maiores PIBs per capita do mundo, impulsionado por reservas de gás natural, não é um fim. É um instrumento para construir influência e legado. E é impossível não ficar absolutamente impactado ao perceber quem está por trás dessa arquitetura.

O Qatar entrou na minha vida através de um convite para o Web Summit Doha, um dos maiores eventos globais de tecnologia e inovação, que reuniu em 2026 mais de 30 mil pessoas de 170 países. O que seria apenas uma viagem profissional acabou se transformando em uma experiência quase catártica, entre painéis, jantares e encontros improváveis.

Minha trajetória como executiva C-Level e especialista em comunicação me ensinou algo fundamental: fazer a pergunta certa pode mudar completamente o rumo de uma conversa. Essa habilidade foi decisiva para tudo o que se revelou ali.

A primeira entrevista que conduzi no palco “Novas Energias” foi com o brilhante Sidney Levy, presidente da Invest Rio. Ele apresentou dados e fatos concretos para posicionar o Rio de Janeiro entre as 15 principais cidades de inteligência artificial do mundo. O Carnaval, perto disso, ficou pequeno.

Sidney Levy e Luciana Rodrigues no palco do Web Summit Doha

Ao final do painel, quem nos aguardava era o Cônsul-Geral do Qatar em São Paulo, Almuhannad Ali Hassan Al-Hammadi, parabenizando a apresentação e reforçando a intenção de seguir investindo no Brasil. Até o momento, o Qatar já investiu cerca de US$ 5 bilhões no país.

Ficou evidente que nada no Web Summit Doha era aleatório. Os “speakers” haviam sido escolhidos com precisão cirúrgica. Na abertura do evento, Sheikha Moza falou sobre o poder do propósito de uma nação.

No dia seguinte, tive a honra de entrevistar, no palco “Marketing”, Luciano Manzo, presidente da Fundação Make-A-Wish, que falou com paixão e conhecimento exatamente sobre propósito. O “porquê” de uma organização existir para além do lucro.

Manzo contou a história de um jovem inglês de 15 anos com uma cardiopatia congênita cujo desejo era ser primeiro-ministro por um dia. Para surpresa geral, Justin Trudeau (na época primeiro-ministro do Canadá) aceitou participar. O vídeo está no YouTube e vale cada segundo. Um dado surpreendente é que 80% das crianças atendidas pela fundação sobrevivem e levam uma vida saudável. Propósito e transformação, quando reais, salvam vidas.

No mesmo período, Doha sediava a Art Basel, a mais importante feira de arte contemporânea do mundo. No exclusivo jantar de abertura, encontrei logo na entrada David Beckham, Esther Perel, Naomi Campbell, Hans Ulrich Obrist, o próprio Emir, entre outras personalidades. Mas nada me impactou tanto (acredite!) quanto o local do evento: a futura Escola Preparatória de Design, instalada na antiga escola onde Sheikha Al Mayassa estudou na infância. Entenda que o mais importante evento do ano para o país foi realizado numa escola.

Luciana Rodrigues e David Beckham

Para Sheikha Al Mayassa, o Qatar que vemos hoje nasceu de um sonho que muitos chamaram de ingenuidade. O que parecia devaneio virou política de Estado. Ao colocar educação, cultura e arte no centro do desenvolvimento, o país deixa um recado claro: criatividade é estratégia.

A Qatar Foundation investiu dezenas de bilhões de dólares em educação e cultura nas últimas décadas. Apenas em educação, os aportes ultrapassam US$ 20 bilhões, entre universidades, centros de pesquisa, museus e grandes projetos culturais.

Em apenas três dias (que pareceram trinta), ficou evidente para mim: o país é governado por mulheres inteligentes, cultas e absurdamente preparadas, movidas por um propósito genuíno de transformar não apenas uma nação, mas o mundo, por meio da cultura.

“Trata-se de nos reconectarmos à sabedoria ancestral, da qual a modernidade, em certos momentos, se afastou demais.”
Sheikha Al Mayassa

Voltei diferente.

Minha expectativa inicial era entrevistar a Sheikha Al Mayassa. Não aconteceu (ainda). Mas trocamos sorrisos e saí com a certeza de que voltarei muitas vezes ao Qatar.

No caminho de volta para o aeroporto, perguntei ao Sr. Hussain, motorista, o que estava por trás das rezas que ouvimos nos alto-falantes da cidade, 5 vezes ao dia. Ele me disse que é o adhan (chamado islâmico para a oração). É um marcador espiritual que reforça a ideia de comunidade, ou, como ele definiu bem, é a cidade lembrando, em voz alta, que existe algo maior do que trabalho, trânsito, reuniões ou poder.

Assalamaleikum. Que a paz esteja com você.

P.S.: Tive o privilégio de circular por Doha com o francês mais brasileiro que existe, Alex Allard, que aproveitou o trânsito caótico da cidade para fazer algumas ligações. O seu telefone estava no viva-voz quando li na tela (pasmem) “Angelina Jolie”. Eu sabia que ela estava lá para a abertura oficial da Art Basel Doha, mas não poderia imaginar que seria ouvinte de um diálogo com a diva. Ele perguntou se ela estava bem, e ela, em alto e bom som, respondeu: “Estou exausta. Não tenho conseguido dormir direito.” Aos 50 anos, descobri que eu e Angelina dividimos a mesma fase da vida: a menopausa. Sheikhas, celebridades, executivas, mães, mulheres. No fim, o que nos une é a nossa humanidade.

*Luciana Rodrigues é conselheira do board da Junior Achievement, membro do conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade e do comitê estratégico de presidentes da Amcham. Também é aluna de pós-graduação em neurociências e comportamento.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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