Queria começar o artigo com uma frase que ouvi em um podcast da Dra. Stacy Sims, cientista, pesquisadora e professora da Universidade de Stanford, focada na saúde da mulher, mas esqueci. O motivo disso tem nome e data para acabar: menopausa.
Quando presenciei, no mês passado, a Angelina Jolie dizendo em alto e bom som, para um amigo, que estava exausta e sem conseguir dormir, entendi que eu precisava falar sobre isso.
Faz alguns anos que a menopausa chegou para mim, mas leva um tempo para a gente assumir. Afinal de contas, ninguém quer perder a memória e o sono, ter menos energia e mais irritabilidade e ondas de calor incompatíveis com a biologia humana. Nunca estive lá, mas imagino que as pessoas no deserto do Saara se sintam como eu.
Caso esteja pensando em parar por aqui e desistir de ler o que vou te contar, não faça isso.
Mesmo que você não esteja entre as 850 milhões de mulheres no mundo enfrentando esse infortúnio, com certeza convive ou conhece uma de nós.
Faça as contas: uma em cada quatro mulheres no mundo está vivendo nessa fase de transição chamada climatério, que começa com a perimenopausa e termina na pós-menopausa.
O primeiro capítulo da menopausa começa no cérebro (cadê o meu estrogênio?) e, por isso, tudo parece tão desorganizado. O jeito mais simples que encontrei de explicar o fenômeno da menopausa para o meu marido foi assim: uma puberdade reversa. Enquanto as nossas duas filhas adolescentes estão com os hormônios bombando, os meus sumiram. Evaporaram. Me deixaram na mão.
Somos a primeira geração de mulheres (sinto muito, mãe) a falar abertamente sobre a menopausa, e isso é muito importante para as gerações atuais e futuras de mulheres e homens que, afinal de contas, são filhos ou maridos dessas mulheres.
A menopausa é um evento familiar.
Pesquisas mostram que quase 1/3 das mulheres considera deixar o trabalho por causa dos sintomas da menopausa, e cerca de 1 em cada 10 acaba saindo de fato. (Fonte: Fawcett Society + Channel 4)
Imagine viver com os sintomas que mencionei acima, justamente na fase da vida em que estamos no auge da carreira, educando nossos filhos e, muitas vezes, cuidando de pais idosos, e ninguém à sua volta ter a menor noção do que está acontecendo.
A menopausa pode durar uma década inteira de turbulência neurológica, hormonal e metabólica. E, portanto, seria de bom tom que você estivesse preparado para reconhecer, acolher e nos apoiar nessa fase.
A cena mais comum aqui em casa é eu começar uma frase e esquecer completamente o que ia dizer. Ou perguntar a mesma coisa umas cinco vezes. Tem também os óculos dentro do armário da cozinha, tomar o remédio que ia dar para minha filha, ou ir buscar uma coisa no quarto e, ao chegar, não saber o que fui fazer lá.
Nesses dias, a Isadora, minha filha de 13 anos, lançou na mesa do café da manhã: “Estou preocupada com você, mamãe.”
Imediatamente, aproveitei a oportunidade para devolver: “Eu também, Isa. A mamãe está na menopausa e tem sido difícil, ainda mais para uma virginiana crítica e perfeccionista como eu. Me ajuda?”
No Japão, a menopausa é chamada Konenki, que significa “anos de renovação”, e não de declínio. As mulheres são celebradas por entrarem em uma fase de sabedoria. Os sintomas são vistos como transições, não como doenças. Isso porque, além dos sintomas infelizes, desagradáveis, desesperadores e indesejáveis, também passamos por mudanças muito positivas.
Muitas mulheres no pós-menopausa relatam sentir-se mais confiantes, eficientes e confortáveis na própria pele. Do ponto de vista neurológico, a amígdala, centro das emoções no cérebro, torna-se menos reativa a situações negativas, promovendo maior estabilidade emocional e, consequentemente, mais satisfação com a vida.
A menopausa impacta corpo, sono, energia e foco, mas não reduz competência, visão estratégica, intuição ou capacidade de decisão. Como mulher, posso dizer: o corpo muda, o colágeno e outras coisinhas mais somem, mas a maturidade chega na mesma intensidade. Que bênção!
“Perdoe-se por não ter sabido antes o que apenas a experiência e o tempo poderiam lhe ensinar.”
Maya Angelou
Agora que (todos nós) já sabemos que a menopausa não é lenda, muito menos invenção, fique atento e faça a diferença na vida de uma mulher que está passando por isso. Contrate, promova e valorize mulheres com baixo nível de progesterona e estradiol e alto nível de inteligência emocional e vivência.
Realmente, coisas incríveis podem acontecer quando temos acesso à informação e ao tratamento. A reposição hormonal ajuda muito nos sintomas. No meu caso, não pude fazê-la por conta do câncer de mama que tive em 2023, mas, além da suplementação e da musculação milagrosa, a família está mais consciente, paciente e não me deixa esquecer: “Calma, Lu. É só uma fase.”
O tempo tem uma forma própria de revelar verdades que nenhum livro ou conselho poderiam nos ensinar.
Se me dissessem que, aos 50 anos, no auge da menopausa, eu receberia uma proposta para ser sócia de uma prestigiosa Venture Capital, com atuação na América Latina e na Europa, eu duvidaria.
Pois bem. Foi exatamente isso que aconteceu poucos dias atrás. Eu aceitei a proposta? Não importa.
O que importa é que senti a serotonina invadir o meu corpo com tanta intensidade que não me vi voltando a ser quem eu era, mas, finalmente, me tornando uma nova versão de mim mesma.
Quem diria que a menopausa também pode trazer superpoderes? Credo, que delícia.
*Lu Rodrigues é conselheira do board da Junior Achievement, membro do conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade e do comitê estratégico de presidentes da Amcham. Também é aluna de pós-graduação em neurociências e comportamento.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.