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Adriane Galisteu Fala sobre Carreira, Menopausa e Reinvenção: “Nunca Desisti de Construir Minha Própria História”

Apresentadora revisita sua trajetória e reflete sobre envelhecimento, maturidade, novos projetos e o documentário Meu Ayrton

13 min

Em mais de quatro décadas de carreira, Adriane Galisteu precisou se reinventar mais vezes do que poderia se lembrar. E segue precisando. “Essa não é uma questão exclusivamente minha”, diz a apresentadora, modelo, influencer e escritora, para citar apenas suas principais funções.

A verdade é que Galisteu já fez de tudo um pouco. Ou muito. Começou aos nove anos, como modelo e garota-propaganda, e está muito longe de parar. “Nunca desisti de construir a minha própria história.”

Aos 53, se mantém ativa nas redes sociais (apenas no Instagram, soma mais de 6 milhões de seguidores), se encaminha para sua 6ª temporada à frente do reality A Fazenda, da Record, terá um podcast focado em mulheres e ainda pensa em empreender com uma nova linha de maquiagem para peles maduras e apresentar um programa de TV aos domingos. “Sou movida a desafios.”

Seu último ano também foi movimentado. Lançou o documentário Meu Ayrton, da HBO Max, revisitando, nos seus termos, a história com o piloto mais amado do país – projeto que nasceu por incentivo do marido, Alexandre Iódice. “Achava que não valeria mexer naquilo, era muito dolorido. Mas foi a melhor coisa que eu fiz, fiquei até mais leve.”

Publicou também o livro “Menopausa Sem Mistérios”, escrito em parceria com o ginecologista Dr. André Vinícius, com a missão de compartilhar as informações que gostaria de ter recebido antes de atravessar essa fase. “Pensava que não ia acontecer comigo. A menopausa me tirou dos trilhos”, confessa.

Se costumava dizer que “odeia envelhecer”, não (só) pela perda do colágeno, mas principalmente pela sensação de finitude da vida, também enxerga o lado positivo da maturidade: “Eu encaro o espelho de um jeito mais amável, me sinto bem com meu corpo e minha relação comigo mesma é muito mais gostosa hoje do que aos 20 anos.”

Abaixo, Adriane Galisteu relembra os desafios que enfrentou ao longo de uma carreira múltipla e longeva e reflete sobre as dores e as delícias do envelhecimento e da maturidade. Confira os destaques da entrevista em painel no São Paulo Innovation Week, festival de tecnologia e inovação que teve sua primeira edição em São Paulo, em maio.

Você começou muito cedo, aos nove anos. Como foi o caminho para chegar até aqui?

Adriane Galisteu: Eu estava falando de quantas vezes tive que me reinventar nesse tempo todo de carreira. Mas essa não é uma questão exclusivamente minha, é de todos nós que estamos há muito tempo fazendo a mesma coisa.

Lembro daquela menina que brincava com uma escova de cabelo azul e usava como microfone para as bonecas. Isso já estava em mim de alguma maneira. Enquanto as minhas amigas brincavam de escolinha, eu brincava de programa de televisão.

Como foi esse início da carreira?

Eu tinha uma amiguinha na escola que já trabalhava como modelo, fazia comerciais de televisão, e eu achava aquilo tão maravilhoso. Dei meu jeito, fiz minha mãe me levar nos testes. Eu queria aparecer na televisão. Essa era a minha intenção. Só fui aprender como era trabalhar na televisão quando fui para a MTV muitos anos depois. Eu cantei, tenho dois discos de platina. Cantava a trilha de uma novela mexicana. Tudo isso para chegar onde estou hoje. Mas tem uma geração nova que acha que eu sou youtuber.

Quando olho para trás, acho que trilhei o caminho mais certo possível. Não teria como fazer diferente. E olha que minha mãe me obrigou a fazer magistério, ela não acreditava naquilo. Mas eu sabia que ia colher frutos de alguma forma.

Em que momento você percebeu que isso ia virar de fato a sua carreira?

Quando eu tive o meu programa na MTV, que foi a minha escola. Aquele lugar dava asas para a imaginação e acreditava no profissional. Ali eu entendi o que era trabalhar na televisão, e era exatamente o que eu queria fazer. Fiquei por lá uns 4 anos, fui uma das primeiras a fazer um programa ao vivo, a primeira a fazer merchandising. Por isso eu falo em se reinventar. A minha vida foi feita assim. Eu fui me reinventando e permaneço assim porque não tem como ser diferente.

Como você lida com as suas redes sociais hoje?

Cada dia tem uma coisa nova que você tem que aprender a mexer. É ferramenta de trabalho para todo mundo. Tem que ter humor e cabeça boa para ter rede social. Principalmente no meu caso, que não estou ali só profissionalmente falando, mas também estou mostrando a minha vida pessoal, meu filho, minha família, meu dia a dia.

A minha primeira rede social foi o Twitter e até hoje é muito importante para mim, pra Fazenda principalmente. Abro todos os espaços que eu posso. Estou sempre criando uma novidade. Agora inventei um quadro “rapidinhas”, de receitas. Eu mesma faço as minhas redes. Aproveito que o orgânico está funcionando. Acho que as pessoas foram percebendo que é mais honesto, mais próximo de todo mundo e estão gostando mais.

O que te move hoje para buscar seus projetos?

Antes, a televisão era a minha vida profissional inteira. Hoje, ela é só um pedaço. Eu tenho tantas outras coisas que acontecem em volta de mim: o livro, projetos pessoais, produtos licenciados, campanhas, eventos. O telefone na nossa mão é um guarda-chuva enorme para trabalhar. Mas a TV aberta ainda é um grande motor da minha vida, porque é lá que eu tenho muito prazer de pegar o microfone, fazer um programa ao vivo. Já fiz teatro, novela, cinema, rádio, fiz dois documentários, um ligado à minha vida pessoal, Barras Invisíveis, que saiu no streaming e o Meu Ayrton. E estou fazendo um novo podcast, agora focado nas mulheres.

Por que não deixa a TV para focar nos outros projetos?

No A Fazenda, eu saio da minha casa às 16h e chego às 3h da manhã todos os dias, é uma função enorme que eu amo e sou apaixonada. Quando me perguntam se penso em desistir, eu falo: “Não, porque eu não sei nem fazer outra coisa.” Tem gente que torce o nariz, mas o reality nada mais é do que a novela da vida real. É a minha sexta edição à frente do A Fazenda. E eu gosto de defender o formato para as pessoas.

O que te levou a fazer o documentário Meu Ayrton?

Quando aconteceu o documentário do Senna, as pessoas entraram em paranoia. O que aconteceu com a minha rede social naquele dia foi inacreditável, fui invadida por gente falando: “você não pode deixar isso passar, você tem que falar”.

Você assistiu?

Eu não assisti inteiro de uma vez porque não consigo, é sempre muito difícil voltar para essa história que faz parte da vida de todos os brasileiros. Ele era o filho que todo mundo queria ter, o amor de todo mundo, lavava a nossa alma. Eu vi pedaços e achei que foi extremamente bem feito. O Ayrton já foi retratado como o piloto gênio, mas faltava o lado humano, homem.

Eu já tinha deixado essa caixinha bem fechada, achava que estava bem contada no meu livro [Caminho das Borboletas]. Até que o Alê, meu marido, me falou: “Muita gente quer saber a sua história”. Esse documentário existe por causa dele. Os streamings começaram a me procurar. Achava que não valeria mexer naquilo, era muito dolorido. Mas foi a melhor coisa que eu fiz, fiquei até mais leve para falar desse assunto. Eu fui reler meu livro, voltei para os lugares, chorei para caramba, foi uma catarse. Foi importante deixar a história contada de verdade.

E o seu outro projeto, Barras Invisíveis. Por que decidiu fazer esse reality da sua vida?

Achavam que minha vida era muito televisiva, a foto sempre caprichada, e faltava mostrar o meu dia a dia como mulher, mãe e os bastidores. Falar dos meus defeitos – tenho mais defeitos do que qualidades – e lidar com as inseguranças de ver o tempo passando, de envelhecer. Eu sempre era a mais nova da turma, agora sou a mais velha do rolê. Tive que lidar com isso e reapresentar minha história para quem acha que eu comecei com canal no YouTube. Foi para chegar mais perto das pessoas de forma verdadeira.

Adriane Galisteu em painel no SPIW
Adriane Galisteu falou sobre carreira, reinvenção e menopausa em painel no SPIW

Você costuma dizer que “odeia envelhecer”. Hoje, como você tem lidado?

Eu gosto muito da vida, gosto de viver. Então, mais do que envelhecer fisicamente e “derreter”, tem a coisa de lidar com a finitude que é muito difícil para mim. O tempo vai passando mais rápido, principalmente quando se tem filho. Dá uma ansiedade, parece que estou perdendo tempo.

A questão não é só o cabelo branco ou a falta de colágeno, porque hoje você resolve isso. A questão que mais pega é a finitude, é contar o tempo. Sou apaixonada pelo verão, se eu for contar quantos verões eu ainda tenho com saúde, correndo na praia, são bem poucos.

E você também precisou lidar com a finitude e a morte muito cedo.

Sim, meu pai morreu com 54 anos, eu tinha 15, meu irmão aos 28, o Ayrton aos 34. Eu fui vendo que a vida te puxa o tapete e você tem que estar pronta. Lidar com o tempo passando para mim é uma angústia enorme.

Por isso a menopausa te assustou tanto?

Eu achava que a menopausa era coisa da minha avó. Pensava que não ia acontecer comigo. Estava com a agenda lotada, cheia de trabalho e comecei a perceber umas coisas esquisitas: estava mais cansada, sonolenta, achei que era falta de vitamina. O cabelo começou a aparecer branco, liguei pra uma amiga apavorada. Até que perdi a cintura da noite pro dia, comecei a engordar rapidamente. Eu fugia do espelho. Fiquei mal-humorada demais.

Até que meu filho de 15 anos falou: “Mãe, você tá muito esquisita, tá todo mundo comentando”. Aí fui procurar meu ginecologista e ele falou: “Você tá no climatério”. Eu estava querendo convencer o Alexandre a ter mais um filho! Aí começaram os calores, eu dormia mal, acordava 3h20 da manhã. Falava que o ar condicionado não estava funcionando.

A menopausa me tirou dos trilhos, entrei em pânico e fiquei com vergonha de lidar com aquilo e de contar nas redes sociais. O ginecologista falou que era “uma fase”, mas eu não queria passar por aquela fase. Fazendo programa ao vivo, meu cabelo grudava na cabeça de tanto suor. Contei pro Alê, e é bom ter uma rede de apoio. Procurei na internet e conheci o Dr. André Vinícius, liguei para ele chorando e ele me deu uma aula de 2 horas. Descobri que a informação é o mais importante para o tratamento. Fiz reposição hormonal e suplementação, mas você também tem que se ajudar, fazer dieta e continuar treinando.

Foi aí que decidiu escrever o livro para compartilhar essas informações?

Sim, escrevi o livro com o Dr. André. São 103 sintomas mapeados na menopausa. A gente vive num país que sempre olhou para o homem, a mulher nunca pôde falar sobre. Eu fiquei insegura, achava o fim do mundo. A gente nem imagina como as mulheres passam pela menopausa, perdem emprego, marido, autoestima, a própria referência. Quando ela vem e te encontra de frente, ou você se esconde ou encara de frente de alguma maneira.

Tem uma nova geração que vai entrar na menopausa falando disso como falam de menstruação. A reposição hormonal foi super demonizada durante muito tempo, muito mal explicada. A mulher na época da minha mãe ficava em casa e nada mudava; hoje a mulher aos 50 está mudando de emprego, recomeçando. É fundamental que a gente tenha uma rede de apoio nesse momento. Por isso hoje sou embaixadora da Eu Tô No Clima, um espaço para mulheres se informarem, com médicos, onde elas não precisam ter vergonha, para elas se sentirem à vontade.

Sem romantização, mas o que a maturidade te trouxe de força?

O poder do “não”. É libertador. Eu tentava não desagradar as pessoas. Hoje eu valorizo muito o que eu tenho, cada segundo com a minha família e meu filho. Eu encaro o espelho de um jeito mais amável, pinto meu cabelo branco, mas me sinto bem com meu corpo e minha relação comigo mesma é muito mais gostosa hoje do que aos 20 anos.

Nesse momento da sua vida e carreira, tem algo que você ainda não fez e gostaria de fazer?

Sou movida a desafios. Meu sonho é lançar um produto de beleza para pele 40+. Aqui no Brasil, os produtos não têm alta cobertura para mim que trabalho com TV. Queria lançar uma base de alta cobertura com pelo menos 15 tons para a mulher brasileira. E, na TV, quero muito fazer um programa de domingo, sem largar a Fazenda. A TV aberta é o grande motor do nosso país. E ver que os domingos agora estão cheios de mulheres me deixa muito feliz, porque não era um lugar nosso.

Você sempre teve voz ao longo da sua carreira ou foi sendo levada?

Sempre tive voz, mas muitas vezes não queriam me ouvir. Fui contra a maré muitas vezes. Em 1994 e 1995, depois do acidente do Ayrton, foi muito complicado, eu vivia de dar entrevistas só para ter um espaço onde não me editassem. Faltava tudo, não tinha dinheiro para nada, vivia de favor. As pessoas me conheciam por tudo, menos pelo meu trabalho. Mas eu nunca desisti de construir a minha própria história, eu queria viver do meu trabalho e não só do meu passado.

Como foi construir sua independência financeira e conquistar uma vida muito diferente da que teve na infância?

Isso é um ponto fraco para mim, não sei lidar tão bem. Quem nunca teve dinheiro e de repente ganha, se atrapalha. Eu me atrapalhei, gastei o que não devia, levei amigos junto comigo para realizar sonhos.

A grande lição foi quando meu irmão estava morrendo. Foi a primeira vez que eu tinha dinheiro na mão. Eu perguntei para o médico: “Quanto eu tenho que pagar?”, e ele, com dó, me disse: “Filha, reza”. Fiquei com tanta vergonha, eu passei a vida toda achando que o dinheiro resolvia todos os problemas, via meus pais brigarem por falta de grana e jurava que o dinheiro salvaria meu irmão. Dali para frente, mudei. Hoje meu marido, Alexandre, me ajuda a organizar isso, ele sabe lidar com dinheiro, eu ainda me atrapalho um pouco.

Que mensagem você gostaria de deixar sobre reinvenção e sucesso?

Você vai ser bem-sucedido se amar o que faz. Às vezes, o seu sonho é a música, mas você precisa trabalhar num restaurante para se sustentar. Não desista. Acredite em você, principalmente nós mulheres, que fomos desacreditadas por tanto tempo, temos que tomar as rédeas da nossa história, das nossas escolhas e daquilo que nos faz felizes.

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