Quando a Noruega entrar em campo nesta sexta-feira (26), às 16h, contra a França, os holofotes estarão voltados para Erling Haaland, o quarto jogador mais bem pago da Copa do Mundo. Mas, por trás da fortuna de US$ 80 milhões (R$ 400 milhões) e das jogadas do craque, quem dita as regras do jogo fora dos gramados é uma brasileira: Rafaela Pimenta.
Baseada em Mônaco, a empresária está à frente da agência Tatica, responsável por negociar a venda do norueguês do Borussia Dortmund para o Manchester City em 2022 por 60 milhões de euros (cerca de R$ 324 milhões na época). Rafaela ganhou o prêmio Globe Soccer Awards de Melhor Transferência do Ano em 2022 pela histórica negociação.
Além do craque, ela também gerencia astros como Gilberto Mora, Matthijs de Ligt, Santiago Gimenez, Obed Vargas and Noussair Mazraoui. “Não é responsabilidade do atleta guiar a própria carreira; a missão dele é jogar futebol”, afirma a empresária, que foi um dos destaques na lista global da Forbes 50 Over 50. “A minha é tornar o sonho viável na prática, seja por meio de transferências, contratos, patrocínios ou do próximo passo da jornada.”

Do direito ao futebol
Rafaela cresceu em uma família ligada ao basquete, mas também com apego ao futebol. “Quando o Santos jogava, pendurávamos a bandeira do clube na janela. Eu até tinha um cachorrinho que conseguia ‘cantar’ o hino do Santos”, lembra.
Seu namorado à época, hoje marido, sonhava em trabalhar com futebol, e ela embarcou junto. “Tínhamos acabado de nos formar na universidade quando ele conseguiu um cliente importante e me disse: ‘Vamos fazer isso juntos.’”
Rafaela dava aulas de direito internacional e passou a levar exemplos do universo do futebol para atrair os alunos. Deu tão certo que captou não só os estudantes, mas profissionais do meio. “Certo dia, o pai de um jogador muito importante veio me procurar com uma dúvida. Comecei a conversar com ele, depois com outras pessoas, e nesse processo conheci Mino Raiola.”
Ao lado do agente italiano, que morreu em 2022 e era considerado um dos mais influentes do mundo, Rafaela estruturou a companhia. “Juntos, transformamos uma operação em uma empresa de verdade, e passamos quase 30 anos construindo esse negócio.”
O céu é o limite no futebol
Hoje, a principal responsabilidade da brasileira é antecipar cenários para os jogadores que agencia. Em um mercado que vai muito além dos gramados, o trabalho exige visão de futuro sobre acordos com marcas, empreendedorismo e comunicação. “Existem tantas oportunidades no futebol atualmente, dentro e fora de campo, que precisamos estar sempre atualizados, acompanhando as mudanças e entendendo para onde o mercado está caminhando antes mesmo que elas aconteçam.”
Resumindo, seu trabalho é dar conta de todos os sonhos e vontades dos jogadores, para que possam se preocupar apenas com o desempenho em campo. “Se um atleta quer lançar um canal no YouTube ou expandir sua presença em um mercado como a China, precisamos entender como isso pode ser feito e reunir as pessoas certas para transformar essa ideia em realidade.”
Pressão é parte do negócio
Cuidar de talentos globais envolve o gerenciamento da pressão sobre os jogadores, muitos deles ainda adolescentes no início da carreira. “Se pensarmos em alguém como o mexicano Gilberto Mora, aos 17 anos, jogando acima da sua categoria, disputando uma Copa do Mundo e lidando com toda a expectativa ao seu redor, isso representa uma pressão enorme”, diz. “O mesmo vale para jovens atletas que precisam tomar decisões importantes sobre a própria carreira muito cedo.”
Há mais de 30 anos nesse business, a empresária está acostumada. “Para nós, a pressão faz parte do trabalho. Ela é praticamente nosso sobrenome. Se você não aprende a lidar com ela, não consegue exercer essa profissão.”
Segundo ela, a chave do seu trabalho é conhecer bem cada jogador e entender, na sua individualidade, o que ele precisa naquele momento.
Muito além dos negócios
No fim do dia, a relação vai além de contratos e transferências. Ao longo dos anos, Rafaela acompanhou o início, os altos e baixos, casamentos, divórcios e lutos nas famílias de seus clientes. “Você acaba se tornando parte da vida das pessoas”.
A relação com cada atleta é diferente. “Tenho um jogador que, ao fim de cada temporada, gosta de reservar um dia para passarmos juntos. Fazemos algo extravagante, como um grande dia de compras em Paris. Relaxamos, conversamos sobre a temporada que terminou e respiramos antes de começar a próxima.”
Em sua quinta Copa do Mundo, Rafaela vive e vibra ao lado dos atletas como se fosse a primeira. “Muitas das experiências pelas quais eles passam acontecem apenas uma vez. Para Erling, existe apenas uma primeira Copa do Mundo.”
O segredo do sucesso e da longevidade na carreira, segundo ela, é manter a paixão acesa em um esporte que depende disso. “Se você ainda sente entusiasmo em atravessar o mundo para assistir a uma partida e, em seguida, embarcar em outro avião para ver a próxima, então esse trabalho continua fazendo sentido.”
Por mais lideranças femininas no futebol
Em um mercado majoritariamente masculino, Rafaela conquistou seu espaço e não se deixa abalar. “Existem pessoas que usam o fato de você ser mulher para tentar te fazer acreditar que não entende de futebol. Vi isso acontecer ao longo de toda a minha carreira.”
Ainda hoje, como uma grande empresária do esporte, sente a diferença no tratamento. “Tenho certeza de que algumas dessas conversas ainda acontecem pelas minhas costas. E, sinceramente, isso não faz a menor diferença para mim.”
Membro do conselho da organização Women in Football, ela atua para criar mais oportunidades femininas no esporte. Inspirada por figuras como Marina Granovskaia, ex-diretora do Chelsea, a brasileira defende que o problema não é a capacidade ou a falta dela, mas a percepção sobre mulheres no esporte.
“Acredito que existam muitas mulheres tão qualificadas quanto os homens para ocupar posições de liderança”, afirma. “Quando as mulheres tiverem as mesmas oportunidades e forem avaliadas pelos mesmos critérios, a melhor pessoa — seja homem ou mulher — conquistará naturalmente a posição.”
Na posição de destaque que ocupa, Rafaela espera servir de ponte para as próximas gerações. “Se for lembrada como uma mulher que trabalhou em um ambiente extremamente competitivo e nunca acreditou que devesse haver portas fechadas para as mulheres, isso já me deixaria muito feliz.”