Em entrevistas para trabalhar em algumas das melhores universidades do mundo, a brasileira Livia Eberlin, um dos destaques da lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil de 2026, ouviu que sua ideia de criar uma caneta para detectar câncer nunca daria certo. “Pesquisadores da América Latina, ainda mais mulheres, são subestimados”, afirma a professora do departamento de cirurgia e vice-diretora de pesquisa no Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos.
Nada que a tenha desanimado. Sua tecnologia, batizada de MasSpec Pen, hoje passa por seis testes clínicos em hospitais nos EUA, incluindo o maior centro oncológico do mundo, e também é testada no Brasil pelo Hospital Israelita Albert Einstein e pela Unicamp, onde a cientista se formou em química.
O dispositivo identifica se um tecido é saudável ou cancerígeno em cerca de 10 segundos, durante a própria cirurgia, sem biópsia ou envio de amostra ao laboratório, com precisão de 96,5%. “Em contato com o tecido humano, a caneta libera uma gota-d’água que absorve moléculas e as transfere para análise no espectrômetro de massas”, diz. Com inteligência artificial, o sistema indica se há células tumorais. “Essa informação não existia na sala de cirurgia. É mais rápida, precisa e segura.”
Filha de profissionais da área, Livia seguiu a paixão pelas ciências exatas e biológicas. Aos 19, ganhou uma bolsa de estágio na Universidade Purdue, nos EUA. Da graduação na Unicamp foi direto para o doutorado em química analítica, quando iniciou as pesquisas em câncer, em 2008. “Entendi que amo a química que beneficia as pessoas.”
No pós-doutorado em Stanford, seu trabalho com ferramentas de diagnóstico de câncer foi reconhecido. Em 2014, recebeu um prêmio da L’Oréal para cientistas mulheres; no ano seguinte, entrou na lista Forbes Under 30 dos EUA; e, em 2018, ganhou a bolsa para “gênios” da Fundação MacArthur. O modo como era tratada mudou. “A mulher brasileira não é associada à inteligência. Senti muito preconceito”, diz. “Também tive três filhos em uma época intensa da carreira. As pessoas me achavam louca.”
Em 2019, amamentava o filho enquanto falava com produtores e atores do seriado Grey’s Anatomy, que incluíram a caneta em alguns episódios. No mundo real, também viu uma “explosão de interesse” após a publicação do paper, em 2017. Dois anos depois, Livia fundou uma startup para vender o sistema. Tem gostado tanto de empreender que não descarta a ideia de deixar o laboratório. “Pesquisadores, principalmente mulheres, precisam liderar a venda das próprias ideias.”
Aos 40 anos, a cientista já levantou mais de US$ 25 milhões para financiar sua pesquisa. Após dois anos de pausa na pandemia, os estudos clínicos avançaram. A caneta já é vendida como equipamento de pesquisa e está na reta final da validação para câncer de pulmão e de mama, perto de ser submetida à análise do FDA, o órgão de vigilância sanitária dos EUA. No Brasil, é validada para cirurgias de pulmão, tireoide e boca. Segundo Livia, pode ainda detectar tumores benignos e endometriose.
Livia planeja a expansão, inclusive com novas versões, como uma caneta para câncer de boca. “É um equipamento acessível, pode beneficiar pacientes e cirurgiões no mundo todo.”
*Reportagem publicada na edição 138 da revista Forbes, em fevereiro de 2026.