Você pode ter percebido que o estresse tende a escapar da mente e se manifestar também no corpo. Fisiologicamente, isso pode se traduzir em ombros tensos, batimentos cardíacos acelerados ou uma sensação inquieta e nervosa que persiste, não importa o que você faça. Mesmo quando o fator de estresse original desaparece, seu sistema nervoso pode permanecer em alerta, mantendo o corpo preparado para agir muito além do necessário.
Pesquisadores da Cidade do Cabo, na África do Sul, quiseram entender como o estresse fisiológico (como ameaças físicas) e o estresse psicossocial (como pressão social ou tensão emocional) afetam o corpo e o cérebro. Em 2023, os autores analisaram uma ampla gama de estudos científicos sobre estresse, abrangendo pesquisas com humanos e animais. Eis o que encontraram:
O estresse de curto prazo pode ser adaptativo, ajudando o corpo a responder a desafios
O estresse crônico ou repetido, no entanto, pode prejudicar a função cognitiva, enfraquecer o sistema imunológico e aumentar a vulnerabilidade a problemas de saúde física e mental.
Níveis de cortisol e a atividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), que ajuda o corpo a responder a ameaças, desempenham um papel central nesses efeitos, com elevações prolongadas ligadas a dificuldades de memória, distúrbios emocionais e maior risco de doenças.
É importante notar que o impacto do estresse varia muito entre indivíduos e é influenciado por fatores como genética, idade, experiências passadas, personalidade e estratégias de enfrentamento.
Isso significa que o estresse é profundamente pessoal, e lidar com ele também deve ser.
Frequentemente, quando pensamos em estratégias para lidar com o estresse, as primeiras coisas que vêm à mente são exercícios de respiração, meditação ou qualquer técnica que ajude a “acalmar a mente”. São estratégias válidas, já que a mente é geralmente onde o caos começa.
Embora essas técnicas possam ser úteis para algumas pessoas, elas nem sempre funcionam para todos. Quando o sistema nervoso já está em alerta, simplesmente dizer a si mesmo para relaxar ou focar na respiração pode ser frustrante e, paradoxalmente, até aumentar a tensão.
A meditação é frequentemente recomendada como recurso para aliviar o estresse, mas uma revisão sistemática de 2020 publicada na Acta Psychiatrica Scandinavica sugere que ela pode não funcionar para todos. Em alguns casos, pode até causar efeitos adversos.
Os pesquisadores analisaram 83 estudos envolvendo mais de 6.700 adultos que praticavam meditação (excluindo práticas físicas como ioga).
Os efeitos negativos relatados foram diversos, incluindo:
- Ansiedade
- Depressão
- Distúrbios cognitivos
- Estresse
- Anomalias perceptivas
A maioria ocorreu durante ou imediatamente após a meditação. Mais preocupante ainda, muitos participantes que tiveram efeitos severos não apresentavam histórico de problemas de saúde mental, sugerindo que reações adversas podem ocorrer com qualquer pessoa.
Os pesquisadores apontam que diversos fatores parecem influenciar a probabilidade de experiências negativas durante a meditação, como intensidade da prática, competência dos instrutores, vulnerabilidades individuais e o contexto em que ocorre.
Isso não significa que você deva descartar meditação ou exercícios de respiração como ferramentas para alívio do estresse. Significa apenas que é importante identificar quais estratégias funcionam de forma consistente para você, considerando suas circunstâncias e estado emocional atuais.
Uma nova ferramenta para lidar com o estresse
Em momentos em que estratégias como “diminuir o ritmo” não funcionam, o esforço deve ser para acalmar e restaurar a homeostase, o “ponto de equilíbrio” fisiológico do corpo, com batimentos cardíacos, pressão arterial e níveis hormonais equilibrados. Essencialmente, a homeostase é o modo do corpo de manter estabilidade interna, mesmo em condições externas desafiadoras.
Um estudo de 2021 apontou duas maneiras confiáveis de atingir isso. Primeiro, os participantes foram expostos a situações sociais estressantes e divididos em três grupos: o primeiro usou toque autoacalmatório, o segundo recebeu um abraço de outra pessoa e o grupo de controle não recebeu toque.
Os resultados mostraram que tanto o toque autoacalmatório quanto os abraços estavam associados a uma queda consistente nos níveis de cortisol em comparação ao grupo de controle. O toque autoacalmatório promoveu uma recuperação mais rápida dos níveis de cortisol, provando ser especialmente eficaz para ajudar o corpo a se recuperar do estresse. Além disso, os benefícios fisiológicos do toque podem ocorrer mesmo quando não sentimos conscientemente calma.
Outro achado importante é que a eficácia do toque não depende da identidade social. Ou seja, não importa se o participante compartilha alguma conexão com a pessoa que dá o abraço.
Em termos simples, isso significa que o toque pode ser benéfico mesmo vindo de um estranho. No entanto, tende a ser mais eficaz quando realizado por alguém próximo ou familiar, pois fornece sensação de apoio e conexão em momentos de estresse.
Os autores do estudo explicam os mecanismos desse efeito:
A estimulação tátil ativa receptores nervosos que estimulam o sistema nervoso parassimpático, ajudando a reduzir a frequência cardíaca e regular as respostas ao estresse.
O toque também libera oxitocina, associada ao vínculo e à sensação de segurança, proporcionando conforto emocional.
Um abraço pode ser uma forma simples e reconfortante de trazer sensação de segurança para corpo e mente quando estamos estressados. E, se não for possível receber um abraço, o toque autoacalmatório pode ser igualmente eficaz para se reconectar e se equilibrar.
*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.