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Cientistas Espanhóis Eliminam Câncer de Pâncreas em Testes com Animais

O estudo, financiado pela CRIS Cancer Foundation e publicado na revista PNAS, demonstra que a combinação de três medicamentos pode eliminar tumores sem gerar resistência

4 min

A pesquisa sobre o câncer de pâncreas, um dos tumores mais agressivos e com o pior prognóstico, acaba de dar um salto histórico. A equipe liderada por Mariano Barbacid, chefe do Grupo de Oncologia Experimental do CNIO (Centro Nacional de Pesquisa Oncológica da Espanha), conseguiu eliminar completa e permanentemente tumores pancreáticos em camundongos, sem gerar resistência, utilizando uma terapia combinada de três medicamentos. “Pela primeira vez, conseguimos uma resposta completa, duradoura e de baixa toxicidade contra o câncer pancreático em modelos experimentais”, afirma Barbacid.

Os resultados, publicados na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), representam um avanço de impacto internacional e abrem um novo caminho para o desenvolvimento de terapias combinadas mais eficazes. Na Espanha, são diagnosticados mais de 10.300 novos casos de câncer de pâncreas por ano, com uma taxa de sobrevida em cinco anos inferior a 10%.

O estudo, assinado por Vasiliki Liaki e Sara Barrambana como primeiras autoras, foi liderado por Barbacid e teve Carmen Guerra como coautora principal. A pesquisa foi financiada pela CRIS Cancer Foundation, juntamente com fundos espanhóis e europeus. É um exemplo de como o investimento contínuo em ciência pode mudar o curso de doenças que antes eram praticamente intratáveis.

Reprodução/Forbes EspañaMariano Barbacid, chefe do Grupo de Oncologia Experimental do CNIO; Lola Manterola, cofundadora e presidente da CRIS Cancer Foundation; e Irene Sánchez, diretora de Projetos Científicos da fundação, na Forbes House, na Espanha

O principal obstáculo: a resistência aos tratamentos

Durante décadas, o tratamento do câncer de pâncreas praticamente não avançou além da quimioterapia convencional. Somente em 2021 foram aprovados os primeiros medicamentos direcionados ao KRAS, um oncogene mutado em 90% dos pacientes. No entanto, seu impacto clínico tem sido limitado: em poucos meses, o tumor desenvolve resistência.

Esse é precisamente o problema abordado pelo novo estudo do CNIO, maior centro de pesquisa do câncer na Espanha e um dos mais importantes da Europa. A estratégia da equipe de Barbacid tem sido bloquear a via molecular KRAS em três pontos diferentes, em vez de atacar uma única ligação. O raciocínio é simples: é muito mais difícil para o sistema escapar quando neutralizado em várias frentes simultaneamente.

Após a eliminação genética de três componentes-chave da via de sinalização KRAS em modelos animais, os tumores desapareceram completa e permanentemente.

Três medicamentos, uma resposta duradoura contra o câncer de pâncreas

Para traduzir essa lógica para o campo farmacológico, a equipe desenvolveu uma terapia tripla que combina um inibidor experimental de KRAS (daraxonrasib); afatinib, um medicamento já aprovado para certos tipos de câncer de pulmão; e um degradador de proteínas direcionado ao STAT3 (SD36).
O tratamento foi testado em três modelos diferentes de adenocarcinoma ductal pancreático, o tipo mais comum e letal desse tumor. Em todos os casos, observou-se regressão significativa e duradoura, sem toxicidades relevantes e — o mais importante — sem o desenvolvimento de resistência.

O caminho até os ensaios clínicos

Apesar da magnitude da descoberta, o próprio Barbacid insiste na necessidade de extrema cautela. “Ainda não estamos em condições de realizar ensaios clínicos com a terapia tripla”, alerta. Otimizar essa combinação para uso em pacientes será um processo complexo, demorado e exigente, tanto do ponto de vista regulatório quanto clínico, requerendo ajustes de dose, avaliação de potenciais interações e garantia de perfis de segurança adequados em humanos.

Além disso, é necessário compreender melhor a heterogeneidade do câncer pancreático, identificar quais subgrupos de pacientes poderiam realmente se beneficiar dessa estratégia e antecipar possíveis mecanismos de resistência que ainda não surgiram em modelos animais. Somente após superar esses desafios será possível planejar ensaios clínicos com segurança.

Ainda assim, a mensagem é clara: o paradigma está começando a mudar após décadas de progresso mínimo nesse tipo de câncer. Pela primeira vez, uma estratégia racional de terapias combinadas demonstra que é possível conter de forma sustentável a resistência tumoral, marcando um ponto de virada que poderá redefinir a futura abordagem terapêutica do câncer de pâncreas.

*Matéria publicada originalmente na Forbes España.

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