No xadrez, jogar primeiro tem um valor real. Em grandes bancos de dados de partidas registradas, as brancas vencem um pouco mais frequentemente do que as pretas, simplesmente porque podem agir antes de precisar responder. Os jogadores têm um termo para descrever o que isso proporciona. O lado que determina aquilo com que o adversário terá de lidar é considerado como tendo “a iniciativa”.
A maioria das pessoas começa o dia jogando com as pretas. A primeira decisão de verdade não é delas e, geralmente, pertence a quem enviou a mensagem que elas leram antes mesmo de sair da cama.
Isso não parece um problema, porque a mensagem é curta e respondê-la leva apenas um minuto. Mas ela estabelece a ordem de tudo o que vem depois, e a postura de responder tende a permanecer durante horas.
A manhã é o único período do dia em que nada foi exigido de você ainda. Poucos minutos depois de acordar, isso geralmente já não é mais verdade.
O movimento que muda isso empresta seu nome ao mesmo jogo. O primeiro movimento significa escolher uma coisa específica para fazer e realizá-la antes que as demandas de outras pessoas tenham a chance de interferir. As duas partes são importantes, e nenhuma delas leva muito tempo.
Parte 1: Por que o primeiro “movimento da manhã” precisa ser seu
Psicólogos que estudam motivação consideram a autonomia, a sensação de que suas ações partem de você, e não são impostas por outras pessoas, uma das condições básicas para o bem-estar. Uma meta-análise de 2022, publicada na Psychological Bulletin, constatou que a relação entre autonomia e bem-estar se manteve consistente em culturas muito diferentes.
Passar a manhã respondendo aos outros custa uma pequena parcela desse bem-estar. E essa sensação tende a cair ao longo do dia, considerando o quanto do restante dele estará genuinamente fora do seu controle.
Parte 2: Por que seu “movimento da manhã” precisa ser específico
A segunda metade do primeiro movimento é a especificidade, e ela faz mais diferença do que se imagina. Decidir ter um dia produtivo não é um movimento. Tampouco é se comprometer a finalmente resolver aquilo que você vem evitando. São intenções sem instruções e, em geral, elas não resistem a um dia comum.
O que funciona melhor é um plano que combine o gatilho e a ação. Psicólogos chamam isso de intenções de implementação ou planos do tipo “se-então”. Uma meta-análise de 2025, publicada na European Review of Social Psychology, que reuniu 642 testes diferentes, constatou que esses planos superam de forma consistente as boas intenções isoladas. A vantagem é maior quando o plano realmente identifica um gatilho, em vez de apenas estabelecer um objetivo. O efeito é consistente, embora não dramático, o que faz sentido para algo que leva 10 segundos.
A fórmula é simples e, normalmente, as pessoas a formulam em primeira pessoa. Depois de levar as crianças à escola, abro primeiro o documento do manuscrito. Assim que o café estiver pronto, faço a ligação que venho adiando.
A razão pela qual isso funciona não é motivacional. A decisão já foi tomada em um momento em que era fácil tomá-la, portanto, não precisa ser tomada novamente mais tarde, quando você estiver cansado e o dia já estiver cheio. O plano parte do gatilho, e não de como você estiver se sentindo naquele momento.
Há evidências diretas disso. A mesma pesquisa sobre resíduo de atenção constatou que, quando as pessoas reservavam um momento para planejar como retomariam uma tarefa interrompida, o resíduo era substancialmente reduzido. Um plano breve e específico era suficiente para permitir que a mente deixasse aquela tarefa de lado.
Precisa ser apenas uma coisa. O primeiro movimento não é uma agenda, e tentar planejar o dia inteiro dessa maneira anula o propósito, que é passar o mínimo de tempo possível decidindo durante a manhã.
O que o primeiro “movimento da manhã” não pode fazer
Isso não significa que você precise acordar às 5h. O horário não importa tanto. O que importa é a ordem e se a primeira coisa a receber sua atenção foi escolhida por você.
A ideia também pressupõe um nível de controle sobre a manhã que muitas pessoas não têm. Quem cuida de crianças pequenas ou trabalha em turnos imprevisíveis não escolhe como o dia começa. Para essas pessoas, o primeiro movimento pode precisar ser menor ou acontecer mais tarde, depois que a parte inevitável tiver sido resolvida. Ele não precisa acontecer no primeiro minuto. Precisa acontecer antes que as demandas do dia assumam completamente o controle.
Um plano também não vai resistir a uma sobrecarga real. Se a carga de trabalho for impossível, decidir o que fazer primeiro não vai resolver o problema. Tratar isso como solução transforma um problema estrutural em uma falha pessoal.
O que o primeiro movimento oferece é algo menor e, justamente por isso, mais confiável. Grande parte do dia é composta por coisas que você não escolheu e não pode recusar. Começar com uma coisa que você escolheu não muda isso. Mas significa abrir o dia com uma ação sua, em vez de começar respondendo à ação de outra pessoa.
Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com