A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de medicamentos e alimentos dos Estados Unidos, aprovou o Tavapadon para o tratamento da doença de Parkinson em adultos. Comercializado como Juvmo pela farmacêutica AbbVie, o medicamento é administrado uma vez ao dia, sozinho ou em combinação com a Levodopa, principal tratamento utilizado contra a doença.
A aprovação chama atenção pelo mecanismo de ação do remédio. O Tavapadon é um agonista seletivo dos receptores de dopamina D1 e D5, uma abordagem diferente da adotada por outros medicamentos que atuam sobre os receptores D2 e D3. No principal estudo de fase 3, realizado com 507 pessoas, o tratamento aumentou em 1,1 hora, em relação ao placebo, o período diário de boa mobilidade sem discinesias incômodas.
O Juvmo deve chegar às farmácias americanas em outubro. No Brasil, ainda não há previsão de registro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Especialistas consideram a aprovação relevante, mas destacam que o ganho de mobilidade observado está na mesma ordem de grandeza de tratamentos já disponíveis. Uma das expectativas em torno do Tavapadon é que sua atuação seletiva possa resultar em melhor tolerabilidade, algo que ainda precisa ser confirmado com o uso mais prolongado.
O que acontece no cérebro com o Parkinson
A doença de Parkinson ocorre quando neurônios responsáveis pela produção de dopamina começam a morrer progressivamente. A substância participa dos circuitos cerebrais que controlam os movimentos.
Com a redução da dopamina, podem surgir lentidão e rigidez corporal, tremores, alterações na postura e perda de expressão facial. A doença também pode estar associada a sintomas como prisão de ventre, perda do olfato, alterações do sono, depressão e dores.
O tratamento busca compensar a redução da dopamina. A Levodopa é transformada em dopamina pelo cérebro, enquanto outros medicamentos procuram reproduzir os efeitos da substância. Em determinados casos, eletrodos implantados no cérebro também podem ser utilizados para regular os circuitos relacionados ao movimento.
Com a evolução da doença, entretanto, a duração do efeito de cada dose pode diminuir. O paciente passa a alternar períodos de melhor mobilidade, conhecidos como “on”, com momentos em que os sintomas retornam ou se intensificam, chamados de “off”. O aumento das doses pode ajudar a controlar esses períodos, mas também pode provocar discinesias, movimentos involuntários que podem se tornar bastante incômodos.
Uma nova forma de estimular os receptores de dopamina
A dopamina exerce seus efeitos ao se ligar a receptores presentes no cérebro. Existem cinco tipos principais, com funções diferentes.
Medicamentos que imitam a ação da dopamina, como Pramipexol e Rotigotina, utilizados no Brasil, atuam principalmente sobre os receptores D2 e D3. Além de influenciarem os movimentos, esses receptores estão relacionados a mecanismos de recompensa e sono. Por isso, esses medicamentos podem estar associados a efeitos como sonolência, alucinações e comportamentos compulsivos, incluindo jogos e compras sem controle.
O Tavapadon segue outra rota ao atuar seletivamente nos receptores D1 e D5, relacionados ao controle e ao início dos movimentos. A estratégia busca melhorar a mobilidade com menor exposição a efeitos ligados à ativação dos receptores D2 e D3.
Estudo mostrou ganho de mais de uma hora
O principal estudo de fase 3 avaliou 507 pessoas com Parkinson que já utilizavam Levodopa e apresentavam flutuações motoras. Os participantes passavam, em média, 5,5 horas por dia no estado “off”.
Após 26 semanas, os pacientes que receberam Tavapadon tiveram um aumento de 1,7 hora no tempo diário de boa mobilidade sem discinesias incômodas, enquanto o grupo placebo apresentou ganho de 0,6 hora. A diferença entre os grupos foi de 1,1 hora. O tempo diário em estado “off” também diminuiu mais entre os pacientes tratados com Tavapadon.
O resultado pode representar mais tempo para realizar atividades cotidianas, como se vestir sozinho, caminhar, sair de casa ou trabalhar.
Ainda assim, os resultados não demonstram que o Tavapadon proporcione mais horas de mobilidade do que os medicamentos já utilizados em conjunto com a Levodopa. A possível vantagem está na forma como o medicamento atua e na expectativa de uma tolerabilidade diferente.
Efeitos colaterais e queda da pressão
O Tavapadon também apresentou efeitos adversos nos estudos. No principal ensaio, 71,7% dos participantes que receberam o medicamento relataram algum evento adverso, ante 55,1% no grupo placebo. Náusea, discinesia e tontura estiveram entre os efeitos mais frequentes.
A hipotensão ortostática, queda da pressão ao se levantar, também merece atenção. No estudo, ela ocorreu em 6% dos pacientes tratados com tavapadon, contra 1,2% daqueles que receberam placebo.
Outro ponto observado foi a ocorrência de transtornos relacionados ao controle de impulsos. Eles apareceram em 2,4% dos pacientes tratados e em 1,2% do grupo placebo, diferença que os autores não consideraram relevante. O acompanhamento de longo prazo será importante para determinar se o risco permanece menor do que o associado a outros medicamentos.
O que os estudos ainda não respondem
Os estudos disponíveis não compararam diretamente o Tavapadon com medicamentos já utilizados no tratamento do Parkinson. Por isso, os resultados não permitem afirmar que o novo medicamento seja mais seguro ou eficaz do que as opções existentes.
Em outro estudo, envolvendo pacientes em estágio inicial da doença, 94% dos participantes que permaneceram até a 85ª semana não haviam iniciado tratamento com levodopa. Como o estudo não contou com um grupo de comparação, porém, não é possível determinar se esse resultado ocorreu por causa do tavapadon.
Também não há evidência de que adiar o início da levodopa impeça o aparecimento de discinesias anos depois.
Controle dos sintomas, mas não da progressão
Assim como os demais tratamentos atualmente disponíveis, o Tavapadon atua sobre os sintomas do Parkinson, mas não interrompe a degeneração dos neurônios. Seu efeito depende da continuidade do tratamento.
A busca por terapias capazes de modificar o curso da doença permanece como um dos principais objetivos da pesquisa em Parkinson. Nesse cenário, o tavapadon representa uma nova estratégia para o controle dos sintomas, mas seu impacto de longo prazo ainda dependerá dos resultados obtidos com o uso em maior escala e do acompanhamento dos pacientes ao longo dos anos.