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Tecnologia para o Sono Está em Alta. O Que Saber Antes de Comprar

Tecnologias para o sono podem ser uma área em expansão no mercado de bem-estar, mas é recomendável ter cautela e consultar um profissional de saúde

7 min

A tecnologia para o sono é uma área de interesse crescente, e muitas pessoas estão entusiasmadas com as possibilidades. Esses dispositivos, aplicativos e sistemas de casa inteligente foram desenvolvidos para monitorar, acompanhar e melhorar a qualidade do descanso, e muitos prometem benefícios que podem aparecer no humor, na energia e até na pele. Antes de escolher um deles, é importante entender como funciona, o que as evidências mostram e o que ainda não foi comprovado, além dos possíveis pontos negativos, incluindo o fato de que alguns produtos não atenderam aos padrões de eficácia da FDA. Especialistas explicam o que pode valer a pena experimentar e como utilizar essas tecnologias.

Como o sono se conecta ao sistema nervoso

Muitos dispositivos para o sono funcionam estimulando o nervo vago. Segundo a médica Eleonora Fedonenko, especialista em clínica médica, ele começa no tronco cerebral e percorre o pescoço até o tórax e o intestino, passando por grande parte dos principais órgãos do corpo. A maioria de suas fibras leva sinais até o cérebro, e não no sentido contrário.

Saema Tahir, médica especializada em medicina do sono, descreve o nervo como um cabo de mão dupla, e não como um fio de uma única direção. O nervo vago é a principal via do sistema nervoso parassimpático e, quando estimulado, atua sobre uma estrutura que se comunica simultaneamente com o nó sinoatrial do coração, reduzindo a frequência cardíaca, com circuitos envolvidos nos ciclos de sono e vigília e com regiões do sistema límbico relacionadas ao humor. Em outras palavras, é menos parecido com apertar um único interruptor e mais com ajustar um termostato compartilhado por vários ambientes.

Esse fluxo em direção ao cérebro explica por que a estimulação de um único nervo pode alterar diferentes sistemas ao mesmo tempo. Médicos costumam tratar frequência cardíaca, humor e sono como problemas separados, mas os três recebem sinais diretos do nervo vago, de modo que uma mudança em um deles pode afetar os demais, explica Tahir.

Dispositivos vestíveis estimulam diretamente o nervo com um pulso elétrico fixo. Exercícios respiratórios atuam sobre o mesmo sistema, mas o efeito depende da profundidade e da duração da respiração. A via estimulada pode fazer uma grande diferença na resposta de cada pessoa.

Dispositivos para o sono que podem fazer diferença

Devjoy Dev, PhD, especialista em sono com doutorado em engenharia biomédica pela Medtronic, destaca o Nurosym, uma tecnologia neurovestível. Segundo ele, o dispositivo passou por diversos estudos clínicos independentes, incluindo comparações com aparelhos semelhantes, e outras pesquisas ainda estão em andamento. Os resultados obtidos até agora apontam para benefícios mensuráveis em pacientes, como redução significativa de estados de humor depressivo e aumento da variabilidade da frequência cardíaca. Ele ressalta, porém, que os estudos foram realizados com populações específicas, portanto as respostas individuais podem variar.

O Nurosym é um dispositivo médico vestível preso à parte externa da orelha e conectado por um fio a um aparelho portátil, que envia impulsos elétricos suaves ao cérebro por meio do nervo vago.

Nurosym usa impulsos elétricos suaves para estimular o nervo vago

O objetivo é acalmar o sistema nervoso para favorecer um sono mais profundo e preparar melhor o organismo para o momento de dormir. Para uma transição adequada da vigília para o sono, o sistema nervoso autônomo precisa passar de uma predominância simpática para uma predominância parassimpática. Essa mudança é um processo fisiológico ativo e uma condição necessária para um bom sono, e não uma consequência dele, explica Elisabetta Burchi, chefe de pesquisa da Parasym.

Segundo Burchi, a tecnologia do Nurosym estimula o ramo auricular do nervo vago na região do trago da orelha. O sinal percorre fibras aferentes até o tronco cerebral, principal centro de transmissão dos sinais vagais, e, a partir dali, influencia o equilíbrio do sistema nervoso autônomo.

Com o uso regular, a tecnologia também parece ajudar o organismo a se preparar para essa transição quando necessário, e não apenas durante a estimulação. Esse efeito é relevante para uma melhora consistente da qualidade do sono.

A eficácia também depende de cada pessoa. O dispositivo pode agir de maneira diferente em alguém que enfrenta meses de estresse crônico e em quem teve apenas uma noite ruim ocasionalmente. A tecnologia funciona como um modulador, portanto seus efeitos dependem da fisiologia sobre a qual atua, acrescenta Burchi.

Por isso, a regularidade do uso é importante. O uso ocasional pode ajudar diante de uma alteração temporária, enquanto, em situações de estresse crônico, o objetivo é trabalhar a capacidade de recuperação do organismo. O estado fisiológico de cada pessoa influencia o protocolo mais adequado, e uma abordagem personalizada é fundamental para a eficácia.

Moonbird orienta a respiração para reduzir o estresse e melhorar a qualidade do sono

O Moonbird segue uma abordagem mais simples. Trata-se de um pequeno dispositivo portátil que se expande e se contrai na mão enquanto o usuário acompanha seu ritmo respiratório. Como a mão sente o ritmo, não é necessário contar as respirações. Assim, é possível manter uma respiração lenta durante cinco ou dez minutos, de olhos fechados, sem perder o ritmo.

Em um estudo, terapeutas utilizaram o dispositivo junto à terapia cognitivo-comportamental (TCC) durante um mês. Os participantes relataram melhora no relaxamento, na regulação emocional e no sono.

Stefanie Broes, cofundadora e CEO da Moonbird, destaca que se tratou de um estudo qualitativo com seis pessoas, mas que o trabalho mostra como a ferramenta pode ser utilizada como complemento ao tratamento, e não como substituta dele.

O Moonbird é um dispositivo portátil que orienta a respiração por meio de expansão e contração físicas, ajudando a reduzir a frequência cardíaca e o estresse e a favorecer a transição para um sono mais profundo e de melhor qualidade.

Cuidados ao usar tecnologias para o sono

Antes de avançar, é importante esclarecer a questão regulatória. O Nurosym possui uma classificação de Risco Não Significativo da FDA. Trata-se de uma classificação relacionada à supervisão de pesquisas, e não de uma autorização ou aprovação da FDA. A classificação também não comprova que o dispositivo funciona.

Para Tahir, o principal problema dessas tecnologias é a possibilidade de mascararem uma condição mais grave. Coração acelerado, insônia ou picos de ansiedade podem ser manifestações de problemas que exigem diagnóstico próprio, como transtornos de ansiedade, apneia do sono, alterações da tireoide ou arritmias. Um dispositivo que alivia o sintoma sem investigar sua causa pode atrasar o atendimento adequado.

Fedonenko também defende cautela antes da recomendação ampla de novas tecnologias voltadas ao sistema nervoso. Segundo ela, os dispositivos podem ajudar, mas funcionam melhor quando utilizados em conjunto com uma avaliação médica adequada, já que um profissional pode identificar uma condição por trás dos sintomas que o aparelho, sozinho, não consegue diagnosticar ou tratar. Ela ressalta ainda a importância de diferenciar o alívio dos sintomas do tratamento da causa real do problema relacionado ao sono ou à ansiedade.

Anéis inteligentes, como o Oura, são outro tipo de dispositivo vestível que monitora o sono, mas não estimula diretamente nenhum sistema do organismo.

Anéis inteligentes, como o Oura, monitoram o sono, mas não interferem nos sistemas do organismo

Tecnologias e rastreadores de sono podem ser úteis e mostram a velocidade com que a ciência do descanso está avançando. Ainda assim, como ocorre com qualquer nova ferramenta de bem-estar, é importante ter cautela e atenção ao que está sendo utilizado.

Para quem enfrenta dificuldades para dormir ou apresenta sintomas como coração acelerado ou ansiedade persistente, a recomendação é conversar com um médico antes de depender de um dispositivo.

Por Pooja Mistry, jornalista experiente que cobre moda, beleza e bem-estar

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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