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Entenda a Polêmica entre Anthropic, Amazon e Donald Trump

Após alegações de falhas de segurança nos modelos Claude Mythos e Fable, o governo americano decidiu proibir o acesso às ferramentas por estrangeiros

7 min

Nasce um novo capítulo na batalha entre Anthropic e o governo americano, envolvendo o uso de inteligência artificial e questões éticas ligadas a segurança. Na última sexta-feira (12), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, barrou o acesso de estrangeiros aos modelos mais avançados da Anthropic, Mythos 5 e Fable 5, após um relatório da Amazon que aponta falhas de segurança graves.

O relatório, compartilhado com especialistas em segurança cibernética, relata que a ferramenta foi capaz de detectar falhas em pelo menos quatro softwares, quando submetida a um conjunto específico de consultas. A alegação é que o modelo Fable 5 teria auxiliado pesquisadores da Amazon a obter informações sensíveis que poderiam facilitar ataques cibernéticos.

Autoridades pediram à Anthropic que as vulnerabilidades fossem corrigidas imediatamente, ou que retirassem o modelo do ar. Em seguida, o governo americano decidiu impedir que governos, empresas e indivíduos estrangeiros tenham acesso à ferramenta, medida aprovada posteriormente por Trump.

A decisão foi tomada após conversas entre Andy Jassy, CEO da Amazon, e as autoridades americanas. A Casa Branca convocou uma reunião para discutir o caso, enquanto especialistas em segurança começaram a testar o modelo para averiguar as alegações da Amazon.

Em resposta, a Anthropic afirma que as vulnerabilidades apontadas pela empresa de Jeff Bezos são relativamente básicas e que outros modelos públicos poderiam fazer a mesma coisa. A empresa alega manter salvaguardas adequadas e garante que trabalha com uma unidade federal de testes de IA antes de lançar novos modelos.

Mesmo assim, a big tech decidiu interromper o acesso aos modelos Mythos e Fable para todos os usuários, atuando em conformidade com a sanção americana. A empresa afirma que a regra vai afetar parte de seus pesquisadores estrangeiros que trabalham nos modelos mais recentes, atrasando inovação. A decisão de desativação gera maior pressão sobre a Casa Branca e a própria Anthropic para que cheguem a um acordo.

A restrição também pode afetar os planos da Anthropic de preparar uma oferta pública inicial de ações (IPO), caso clientes migrem para modelos concorrentes — a empresa foi recentemente avaliada em US$ 965 bilhões. Por outro lado, a situação pode beneficiar concorrentes como a OpenAI, cujo modelo de IA está sendo oferecido aos clientes e em discussão com o governo Trump.

Um paradoxo de segurança

O propósito da Anthropic é desenvolver sistemas de inteligência artificial potentes de forma confiável e segura. O próprio surgimento da empresa se deu quando Dario Amodei, CEO, e outros ex-funcionários da OpenAI sentiram que a bigtech não estava dando a devida importância à segurança.

Neste ano de 2026, entretanto, a Anthropic vem divulgando alguns dos modelos mais poderosos e potencialmente perigosos do mundo. O Claude Mythos é um deles, ferramenta capaz de superar humanos em algumas tarefas de hacking e segurança cibernética. O modelo se provou tão eficaz em tarefas sensíveis — como encontrar e explorar falhas de software, inclusive bugs inativos escondidos em códigos antigos — que a empresa preferiu não disponibilizá-lo publicamente.

O modelo foi disponibilizado, a princípio, em uma versão de pré-visualização para cerca de 50 empresas e organizações que mantêm infraestrutura crítica, incluindo a Amazon. “O Mythos Preview já encontrou milhares de vulnerabilidades de alta gravidade, incluindo algumas em todos os principais sistemas operacionais e navegadores web”, afirmou a Anthropic em comunicado, o que acendeu alertas entre alguns ministros e executivos do setor financeiro, temendo o comprometimento dos modelos de segurança.

A versão para o público geral só foi liberada neste mês de junho, sob o nome Fable 5, equipado com mecanismos de segurança para impedir que usuários utilizem o modelo para explorar vulnerabilidades de segurança cibernética. O sistema seria capaz de identificar tentativas de quebra de bloqueio para acessar informações prejudiciais — justamente o que a Amazon alega não estar funcionando.

Apesar de reafirmar a validade dos testes de segurança, a própria empresa alerta para os riscos atrelados ao poder de suas ferramentas. Em uma postagem recente, a Anthropic sugeriu uma pausa global no desenvolvimento caso os sistemas de IA com capacidade de auto aperfeiçoamento se popularizem.

Relação Donald Trump vs. Anthropic

Esta não é a primeira vez que surge um atrito entre a Anthropic e a administração de Donald Trump, exatamente no que tange à segurança dos modelos e a gestão de riscos.

Em abril deste ano, os confrontos entre a empresa e o Pentágono se tornaram públicos após a Anthropic se recusar a ceder suas ferramentas para uso pelas Forças Armadas americanas na criação de armas autônomas e vigilância em massa, segundo alegado em comunicado. Em resposta, o Pentágono classificou a empresa como um risco para a cadeia de suprimentos, decisão que foi contestada na justiça e está tramitando em dois processos judiciais distintos.

Até o momento, as negociações entre as partes não chegaram a um acordo. Uma reunião nesta segunda-feira contou com a presença de Nicholas Carlini, pesquisador de segurança da Anthropic; Logan Graham, que avalia modelos de risco; e Dave Orr, chefe de salvaguardas da empresa. Alguns funcionários do governo disseram que uma resolução deveria incluir o reconhecimento de que o lançamento do Fable poderia ter sido aprimorado por parte da Anthropic. Em contrapartida, a empresa da Amodei alega que a ferramenta foi aprimorada extensivamente com o governo desde antes do lançamento.

Alguns dos funcionários do governo afirmaram que a empresa indicou não estar disposta a trabalhar com especialistas em segurança do governo para resolver o problema.

Relação Amazon vs. Anthropic

A Amazon é uma grande investidora da Anthropic, fornecendo chips e infraestrutura de data centers à empresa. Por outro lado, utiliza os modelos da big tech para identificar falhas em software.

Um porta-voz da Amazon disse, em entrevista ao Wall Street Journal, que a empresa costuma ser consultada por governos sobre riscos potenciais de segurança, justamente devido à sua posição de provedora de cloud e serviços de computação. Executivos do setor de tecnologia têm mantido contato regular com o governo sobre o poder das ferramentas de IA de ponta.

A alegada falha de segurança encontrada se deu poucos dias após o lançamento do Fable 5, preocupando o governo e o setor privado devido ao seu potencial. Muitas outras ferramentas já conseguem revelar essas informações, mas o software da Anthropic é conhecido por ser capaz de converter essas informações de bugs em código de exploit funcional.

Esse código poderia ser usado para invadir redes, mas não há evidências de que os pesquisadores da Amazon tenham conseguido acessar essa capacidade, explicou Andrew Morris, fundador da empresa de cibersegurança GreyNoise Intelligence.

Jassy disse a autoridades do governo, incluindo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que a questão é séria e merece ser avaliada, segundo pessoas familiarizadas com as discussões.

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