Fazer novas amizades na infância ou na adolescência é muito mais fácil e natural do que na vida adulta, principalmente após os 30 anos. Isso porque as prioridades mudam e o tempo se torna cada vez mais escasso.
A Teoria da Seletividade Emocional, desenvolvida pela psicóloga Laura Carstensen, da Universidade de Stanford, confirma essa mudança. A teoria diz que, à medida que envelhecemos, a percepção de tempo muda e passamos a focar na qualidade e na profundidade emocional das relações, em detrimento da quantidade.
Da mesma forma, um dos fatores que contribui para esse afastamento emocional é a própria tecnologia. Ao mesmo tempo que é uma ferramenta para aproximar pessoas de qualquer parte do mundo, também contribui para o isolamento social. Segundo dados da OMS, a solidão já afeta uma em cada seis pessoas no mundo, sendo mais comum entre adolescentes, jovens e idosos.
“Nós já não dedicamos tanto tempo aos amigos. A tecnologia e a digitalização afastaram e comprometeram as nossas relações interpessoais, de forma que já não frequentamos a casa dos nossos amigos como antigamente”, explica Vitor Muramatsu, psicólogo e pesquisador na Universidade de São Paulo. “Convivemos com menos pessoas e as selecionamos rigorosamente, embora a estrutura geral da vida adulta não tenha mudado tanto”.
É justamente nesse momento da vida, quando as pessoas estão se sentindo sozinhas e buscando interação humana, que os aplicativos para fazer amigos ganham espaço. Funciona como um Tinder ou outros apps de relacionamento para namoro, mas o foco é ajudar no contato inicial entre pessoas que buscam fazer amizades.
Abaixo, reunimos alguns dos aplicativos disponíveis para fazer amigos.
Bumble For Friends (Bumble BFF)
O Bumble é conhecido por ser aquele aplicativo de namoro onde apenas mulheres podem ver perfis dos homens e dar like neles. Existe também a versão para fazer amigos, que funciona na mesma lógica, com match mútuo. Vale ressaltar, no entanto, que o app prioriza conexões locais.
Hoop
O Hoop conecta os usuários por meio de likes e matches. O diferencial é que não existe um chat dentro do aplicativo, fazendo com que o usuário seja redirecionado para o Snapchat para iniciar uma conversa. Um fato curioso é que este sistema funciona por “Diamantes”, que podem ser conquistados ao navegar pelos perfis; cada conexão custa certa quantidade de diamantes.
Para o primeiro contato com novas pessoas, esses dois aplicativos podem ser úteis ao aumentarem as possibilidades e favorecerem a conexão, algo que poderia não acontecer naturalmente. Mas só isso não é suficiente.
“É indispensável haver revelação mútua e vulnerabilidade, compartilhando vivências pessoais. Encontros originados em aplicativos tendem a mimetizar encontros sociais formais: as pessoas expõem apenas suas melhores versões e conquistas, permanecendo na camada superficial do networking. Dificilmente ocorre o salto para a vulnerabilidade genuína com alguém conhecido assim”, explica Muramatsu.
Meetup
O Meetup vai por um caminho diferente: o foco está em comunidades e grupos focados em hobbies, profissões ou atividades, o que possibilita conhecer quem tem interesses em comum. O objetivo é organizar eventos presenciais e de forma regular.
Essa pode ser uma alternativa muito útil (e até efetiva) para criar amigos depois de adulto. Estudos mostram que, para se desenvolver uma amizade verdadeira, é necessário investir tempo presencial. E é fato que, na amizade, a teoria dos “opostos que se atraem” raramente funciona, já que conexão é melhor com pessoas que compartilham os mesmos valores, que estejam no mesmo estágio da vida, que frequentem lugares similares e que tenham perspectivas de mundo semelhantes.
“O caminho mais promissor para fazer amigos é se engajar em atividades recorrentes por interesses comuns, como grupos de corrida, clubes de leitura ou jogos de tabuleiro. A prática continuada remove o fardo logístico do agendamento individual e recria a previsibilidade espontânea típica do ambiente escolar”, acrescenta Muramatsu.
Yubo
O Yubo aposta nas lives e chamadas ao vivo para promover as conexões entre usuários. Para isso, é necessário cadastrar seus interesses e então entrar em lives com até 10 participantes que compartilhem dos seus gostos.
“Para um adulto de 30 anos ou mais – que já possui núcleo familiar, trabalho e amizades remanescentes da infância e da faculdade que mal consegue cultivar – gerenciar o volume de tempo livre necessário para se conectar com um desconhecido é praticamente inviável”, explica Muramatsu. É nesse ponto que o Yubo entra como uma solução simples para conhecer pessoas: não precisa se deslocar, nem investir tanto tempo do dia na interação.
Trip BFF
Esta é a versão para quem viaja sozinho e quer fazer amigos no destino. Basta criar um perfil com destinos de interesse e participar de grupos separados por cidade ou região, facilitando o encontro com pessoas que estão geograficamente próximas.

Mas esses aplicativos realmente funcionam?
O psicólogo Vitor Muramatsu explica que, para o contato inicial, os aplicativos de amizade podem ser muito úteis, mas raramente oferecem condições para que as relações sejam duradouras, como proximidade física contínua, interações repetidas e não planejadas e um ambiente que encoraje a vulnerabilidade.
“Encontros por aplicativo exigem elevado esforço logístico e agendamento prévio. O encontro se transforma em um evento formal ou em uma entrevista de emprego social, sem a leveza de um esbarrão casual na faculdade ou no treino”, afirma Muramatsu.
Outro fator destacado pelo psicólogo é a forma como as pessoas lidam com esses aplicativos, o que também dificulta a espontaneidade das relações: “A ilusão de opções infinitas nos torna intolerantes a pequenos atritos. Em vez de aprofundarmos o vínculo com alguém com quem nos conectamos, buscamos rapidamente uma alternativa teórica perfeita”.
Segundo o pesquisador Jeffrey Hall, da Universidade do Kansas, são necessárias cerca de 50 horas de convivência para que alguém se torne um amigo casual. Para se considerar amigo de alguém, são necessárias 90 horas. Já um amigo íntimo só chega a esse patamar após 200 horas de convivência, ou seja, quase 4 horas de dedicação por semana por mais de um ano.
Esse é o motivo de ser mais fácil fazer amigos durante a infância e a adolescência. A escola, a faculdade e a vizinhança, por exemplo, colaboram para essas horas de convivência diária, algumas vezes de forma até obrigatória.
Além disso, a maioria das pessoas até os 18 anos consegue mais tempo disponível para gastar com a vida social e pessoal. Esse cenário muda quando as 24 horas do dia precisam dar conta de trabalho, filhos e outras responsabilidades da vida adulta.
“O aplicativo resolve a etapa inicial da conexão, mas não gera tempo extra. Nós enfrentamos uma escassez estrutural de tempo. Sob a perspectiva da ciência política e da psicologia, a crítica central está no modo como a rotina produtiva absorve o tempo da vida existencial e pessoal, concorrendo diretamente com o bem-estar e o convívio interpessoal”, afirma Muramatsu.
Qual o segredo das amizades após os 30?
A resposta é curta, mas não é fácil: é necessário dedicar tempo de qualidade. E isso é sinônimo de interações presenciais e trocas reais.
“A amizade é o vínculo interpessoal mais vulnerável porque não depende de laços biológicos ou de compromissos contratuais rígidos, dependendo exclusivamente da vontade e da disponibilidade mútuas”, explica Muramatsu. “A maioria das amizades não termina por conflitos declarados, mas pelo esvaziamento silencioso do tempo dedicado à relação devido às sobrecargas de compromissos da vida adulta”.
Isso não significa que você não possa encontrar bons amigos pela internet, mas sim que se torna muito mais difícil criar uma amizade verdadeira quando o único contato é intermediado por uma tela. Vale instalar algum aplicativo para conhecer alguém fora do círculo social, mas continua sendo necessário no mínimo 50 horas de interação presencial para que o cérebro entenda que uma amizade verdadeira foi construída.
“Aplicativos funcionam quando utilizados como funis de entrada para atividades rotineiras compartilhadas”, diz Muramatsu. O psicólogo ainda aconselha a “tomar a iniciativa de cultivar os amigos já existentes e buscar ativamente novos ambientes de convivência para integrar novas pessoas à sua trajetória”, como uma das formas mais eficazes de evitar a solidão e construir laços depois de adulto.