Eu sempre defendi a ideia de que autocuidado é o ponto de partida quando o assunto é saúde mental. Embora essa ideia tenha ganhado mais e mais espaço nos últimos anos, na prática nem todos estão atentos a reservar tempo para si mesmos, estabelecer limites, descansar, cuidar do sono e fazer exercícios. Essa lista básica pode – e deve – ser complementada com outras ações que, dependendo da rotina de cada um, podem ser encaixadas no dia a dia.
Entretanto, quero chamar a atenção para algo que talvez tenhamos deixado escapar e que faz parte dessa equação de maneira tão importante quanto a valorização do cuidado pessoal: cuidar dos outros também pode nos fazer bem.
Essa ideia pode parecer contraintuitiva num primeiro momento, porque, quando estamos exaustos ou estressados, é natural que sintamos necessidade de nos voltarmos para nós mesmos. Geralmente cancelamos um compromisso ou recusamos um convite. Às vezes, é justamente disso que precisamos, mas várias pesquisas têm mostrado que dedicar um tempo para cuidar de outros pode nos fazer muito bem.
Não se trata apenas de fazer um trabalho importantíssimo de voluntariado, cujas provas de contribuição para o bem-estar social, mental e físico já são bem consistentes. O que os estudos têm revelado é que os benefícios tendem a aparecer especialmente quando ajudamos por escolha, quando percebemos o impacto do gesto e quando há alguma conexão com quem recebe.
Cuidar de alguém pode fortalecer vínculo de qualidade e produzir a sensação de que fazemos diferença na vida de outra pessoa, dimensões do bem-estar que uma tarde de descanso, por melhor que ela seja, não necessariamente oferece.
Isso não significa substituir autocuidado por sacrifício. Há uma grande diferença entre escolher ajudar alguém e viver sobrecarregado pela obrigação de cuidar. Já há inclusive um termo para representar uma geração que vive exausta entre os cuidados com os filhos e os próprios pais: geração sanduíche. Essas pessoas precisam de descanso e, principalmente, ser cuidadas também.
O que eu proponho é acrescentar essa peça que tem ficado esquecida nessa cultura que valoriza tanto o eu: meu tempo, minhas necessidades, minha saúde. Eu continuo defendendo que temos, sim, de prestar atenção aos nossos limites. Ultrapassá-los é uma das grandes causas de adoecimento mental. O que eu estou querendo dizer é que todo cuidado não começa e nem termina em nós. Mandar uma mensagem para um amigo que não anda bem, acompanhar o parceiro ou a parceira ao médico ou simplesmente estar atento ao que uma outra pessoa quer nos contar também retorna para nós em benefícios à nossa saúde mental.
O autocuidado e o cuidado com o outro não competem entre si. Eles funcionam em mão dupla. Quem se cuida tem mais condições de estar presente para alguém. Quem se dispõe a oferecer um pouco de tempo e de acolhimento encontra sentido, vínculo e pertencimento, ingredientes que nenhuma rotina de bem-estar individual entrega sozinha. Vale reaprender a olhar ao redor.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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