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Valpolicella por Subtração: Andrea Burato e a Arte de Fazer um Grande Vinho Escolhendo Pouco

O produtor aposta na precisão e na redução de rendimento para produzir rótulos que expressam a longevidade e a profundidade dos grandes crus italianos

4 min

No universo do vinho, a grandeza nem sempre é medida por números. Existem projetos que constroem valor não pela expansão, mas pela subtração: a capacidade de escolher, limitar e aperfeiçoar.

Andrea Burato pertence a essa rara categoria de produtores que transformam a escassez em marca registrada e a precisão em assinatura estilística.

O projeto de Andrea Burato

Ao lado dos enólogos italianos Flavio e Damiano Peroni, artesãos da técnica e conhecedores profundos do território, Burato construiu um percurso de pesquisa e perfeição formal.

A abordagem revela uma coerência quase obsessiva. Não há busca por quantidade nem compromissos comerciais: apenas a vontade de extrair do território de Marcellise sua mensagem mais pura.

Marcellise é um distrito de San Martino Buon Albergo, na província de Verona, região do Vêneto, norte da Itália. A área é conhecida por seus vinhedos produtores de vinho Valpolicella

As parcelas são selecionadas individualmente por exposição, composição do solo e comportamento vegetativo.

Cada intervenção na vinha (desde as três podas de limpeza até a colheita manual em pequenas caixas) foca em reduzir a produtividade e maximizar a concentração natural do fruto.

O Valpolicella Superiore 2019

O Valpolicella Superiore 2019, proveniente de um cru de 1,5 hectare sobre solo calcário, cultivado no sistema Guyot com manejo orgânico e densidade de 5.000 plantas por hectare, representa a síntese máxima dessa filosofia.

Vinificado em tanques de carvalho com maceração a frio de dez dias e longos períodos de maturação (36 meses em barris de Slavônia e carvalho francês com tostagem leve, seguidos de um ano em garrafa), o processo gera apenas 3.100 garrafas de um vinho detalhado, profundo e coerente.

No copo, o Valpolicella Superiore 2019 mostra uma identidade nítida e inconfundível. A cor, um rubi luminoso e transparente, permite antecipar a filosofia da bebida: mais tensão do que extração, mais precisão do que volume.

No olfato, surge uma complexidade calibrada, composta por frutas negras frescas (amora, groselha, ameixa) e nuances de ervas medicinais e cânfora, fundidas a leves notas defumadas e balsâmicas.

Não é um aroma exagerado, mas esculpido: cada detalhe encontra seu lugar e cada perfume se move com equilíbrio, estabelecendo um quadro aromático de rigor e profundidade.

Ao paladar, a arquitetura é tridimensional. A matéria se estende com autoridade, compacta, porém nunca pesada. A acidez, elevada e vibrante, atua como um eixo central, sustentando o corpo com energia e definindo um ritmo vertical e progressivo.

Os taninos, finos e com textura sedosa, macia e aveludada, oferecem uma aderência delicada que acompanha o gole sem atritos, devolvendo uma sensação táctil de precisão milimétrica. O álcool está perfeitamente integrado e o final, salino e limpo, amplia a tensão em vez da suavidade, deixando o paladar limpo, longo e reativo.

Artesanato e disciplina

Este é um Valpolicella que se move em coordenadas incomuns para a denominação: está mais próximo, por construção e profundidade, dos grandes tintos de cru (aqueles que nascem de uma vinha específica e não da soma de diversos vinhedos) do que da tradição clássica da zona.

Aqui, a potência nunca é o objetivo final, mas a consequência natural de uma matéria pura e disciplinada. É um vinho que fala uma linguagem internacional sem perder as raízes, sendo capaz de evocar a tensão de um Nebbiolo, a transparência de um Pinot Noir e a salinidade de certos Sangiovese de linhagem.

Nessa síntese entre rigor técnico e graça natural reside a assinatura de Burato: a capacidade de transformar o Valpolicella em um vinho de pensamento, onde cada elemento (acidez, tanino, matéria, ritmo) torna-se parte de um desenho harmônico e reconhecível.

O sucesso de Andrea Burato reside justamente nisso: na capacidade de conjugar o artesanato com a disciplina e a sensibilidade territorial com a ambição internacional.

Cada garrafa torna-se a representação tangível de um pensamento, segundo o qual o luxo, no vinho como na vida, não é o que abunda, mas o que permanece. Burato não produz apenas Valpolicella: ele estabelece uma nova ideia de valor.

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