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Entre a Fé e o Requinte: por Que o Vinho Kosher Conquista Novos Consumidores

Com processos rígidos, rótulos produzidos em Mendoza competem em pé de igualdade com vinhos convencionais

6 min

O vinho ocupa um lugar central tanto no início quanto no final do Pésaj, a Páscoa judaica. Se a primeira noite abre com a memória da saída do Egito, o encerramento, nas últimas horas do último dia, propõe um gesto simétrico: erguer a taça novamente, mas desta vez não pela liberdade conquistada, e sim pela esperança futura. Nesse banquete final, também são consumidas quatro taças. Não se trata de repetição: é continuidade.

Esse gesto, íntimo e familiar, hoje convive com uma transformação mais ampla. O vinho kosher deixou de ser exclusivamente um produto de ritual para se transformar em uma categoria com peso próprio dentro da vitivinicultura. A questão não é apenas cumprir uma liturgia, mas interpretar uma demanda que cresce e ganha sofisticação. Nas prateleiras, o vinho kosher começa a jogar nas grandes ligas.

A Argentina encontrou nesse segmento uma oportunidade clara. A combinação entre o respeito às leis dietéticas judaicas e a qualidade enológica que o país construiu nas últimas décadas resultou em uma oferta competitiva, tanto no mercado interno quanto na exportação. Estados Unidos e Israel, dois mercados exigentes, respondem com interesse constante.

Por trás de cada garrafa certificada existe um processo rigoroso. A supervisão rabínica atravessa todas as etapas: desde a colheita até o engarrafamento. O objetivo não é apenas evitar ingredientes de origem animal, mas garantir uma rastreabilidade absoluta e uma limpeza técnica que eleva o padrão.

Ficam para trás os tempos em que o vinho kosher era sinônimo de estilos doces e pouco definidos. Hoje surgem Malbecs de altitude, blends complexos e rótulos que, em degustações às cegas, competem de igual para igual com vinhos convencionais.

Vinho kosher: Mevushal e No Mevushal

Drazen Zigic/Getty ImagesTaça de vinho em celebração judaica

Dentro desse universo, existe uma distinção técnica fundamental que define tanto o uso quanto a comercialização: os vinhos Mevushal e No Mevushal. O termo significa “cozido” e se refere a um processo de aquecimento rápido — semelhante a uma pasteurização breve — seguido de um resfriamento imediato. Esse tratamento permite que o vinho conserve sua condição kosher mesmo se for manipulado ou servido por pessoas alheias à prática religiosa.

Em contrapartida, os vinhos No Mevushal exigem um cuidado extremo: apenas podem ser abertos e servidos por judeus praticantes. Do contrário, perdem automaticamente seu status Kosher e passam a ser considerados “Stam Yeinam”, ou seja, um vinho inapto segundo a lei religiosa.

Essa diferença é relevante. Em termos comerciais, o vinho Mevushal oferece uma vantagem decisiva: sua imunidade diante da manipulação o torna apto para restaurantes, eventos e circuitos gastronômicos amplios. O No Mevushal, por sua vez, fica reservado para âmbitos mais controlados, onde a prática religiosa se mantém de forma rígida e contínua.

Além da técnica, o vinho carrega um peso simbólico que atravessa religiões e culturas. No judaísmo é celebração, memória e promessa. No cristianismo, é o sangue de Cristo na liturgia. Em outras tradições, o vínculo com a terra e com o sagrado.

Não é uma bebida qualquer: é uma linguagem. E como todo dialeto antigo, segue dizendo coisas novas. O fechamento do Pésaj deixa, então, um balanço nítido: o vinho kosher já não é apenas um nicho, é uma categoria que marca presença e abre portas.

Três vinhos Kosher para descobrir

Dreidel Malbec Kosher / Mevushal de Huentala Wines

Divulgação

A Huentala Wines, instalada em Gualtallary, no Vale do Uco, consolidou sua presença no segmento premium com sua linha kosher Dreidel. O projeto é liderado por Paola Camsen, Brand Manager da vinícola, que impulsionou esta proposta produzida integralmente com uvas da fazenda La Isabel, a 1.400 metros acima do nível do mar, com elaboração dos enólogos Pepe Morales e Federico Leguizamón. Com certificações para Argentina, Estados Unidos e Israel, a marca presta homenagem à tradição judaica — seu nome remete ao pião de Hanucá — e alcança um equilíbrio entre precisão enológica e respeito pelas normas da Kashrut.

O Dreidel Malbec Mevushal é um 100% Malbec produzido sob o método Mevushal mediante tecnologia Termoflash, que permite uma pasteurização instantânea sem alterar sua expressão. Registrou uma breve maturação: quatro meses em contato com carvalho e três de estágio em garrafa, o suficiente para organizar o conjunto sem perder o frescor nem a identidade de origem.

Preço sugerido: ARS 13.200 (R$ 76,56)

Alavida Malbec Orgânico Kosher Mevushal de Domaine Bousquet

Divulgação

A Domaine Bousquet, referência em vitivinicultura sustentável, avançou um passo a mais com o Alavida, a primeira linha na Argentina a combinar certificação orgânica e kosher. Elaborada no Vale do Uco a 1.200 metros de altitude, esta proposta atende a padrões exigentes: a normativa da USDA proíbe o uso de sulfitos adicionados, o que obriga o trabalho com uvas de sanidade impecável e acidez natural precisa.

O projeto, liderado pelo enólogo Rodrigo Serrano Alou junto ao Rabino Uriel Lapidus, conta com certificação da Orthodox Union (OU), ampliando seu alcance para além do público estritamente religioso.

O Alavida Malbec 2024 é um 100% Malbec que passa pelo método Mevushal mediante sistema Thermoflash, com um aquecimento breve e controlado. Fermentado em tanques de aço inoxidável, indica uma expressão direta do terroir, com uma estrutura ágil, perfil fresco e uma graduação alcoólica de 13,5% que acompanha sem se impor.

Preço sugerido: ARS 18.900 (R$ 109,62)

Sforno Reserva Cabernet Sauvignon de Bodega Riglos

Divulgação

A Bodega Riglos nasceu em 2002 em Mendoza pelas mãos de Darío Werthein e Fabián Suffern e, desde 2016, após sua fusão com a Huarpe Wines, consolidou-se como um dos principais produtores de vinhos kosher do país. Com forte presença na exportação — especialmente para os Estados Unidos e Israel –, encontrou na linha Sforno o eixo de seu desenvolvimento dentro desta categoria, com uma proposta alinhada aos padrões da Kashrut e pensada para mercados exigentes.

O Sforno Reserva Cabernet Sauvignon se localiza dentro da categoria No Mevushal, o que implica um cuidado extremo em sua manipulação e o posiciona como um vinho de perfil mais exclusivo. Proveniente de vinhedos do Vale do Uco, é um tinto com estrutura e caráter, com 12 meses de maturação em barrica que trazem complexidade sem apagar sua identidade varietal.

Preço sugerido: ARS 23.190 (R$ 134,50)

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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