Nas profundezas, o metrô corre; na superfície, vozes de pedestres e motores de carros rasgam a paisagem sonora e, mesmo assim, dá para ouvir um galo cantar. É na Avenida Tiradentes, região central de São Paulo, em meio ao fervedouro urbano articulado ao Parque da Luz, que está fincada a Pina Contemporânea. O edifício faz parte do complexo expositivo da Pinacoteca de São Paulo e tem como uma de suas características mais expressivas a presença de uma grande praça pública. Foi nessa praça, e também em caráter público, que teve início a produção da exposição “Juliana dos Santos: Temporã”, cuja abertura está marcada para o dia 23 de agosto, na Galeria Praça, como parte de uma nova residência artística que surge a partir da parceria do museu de arte mais antigo do Estado com a Chanel.
Através de seu Culture Fund, que tem como propósito apoiar inovadores na difusão de novas ideias, com maior representação na cultura e na sociedade, a maison francesa se une à Pinacoteca para a iniciativa inédita, selecionando uma artista mulher ao ano para uma residência artística, resultando em uma exposição individual.
Embora não pareça, a mostra que inaugura o projeto já está acontecendo, como nos conta Juliana. Entre os dias 31 de julho e 02 de agosto, a artista paulistana dedicou suas tardes a um ateliê aberto no qual o público foi convidado a participar do processo de criação de obras que integrarão a mostra, em uma experimentação coletiva com margem proposital para o acaso. “O acaso no processo criativo é fundamental. O artista se faz muito mais pela atenção aos acasos do que, de fato, pelo gesto consciente” diz, em entrevista à ForbesLife Fashion – foi, afinal, após derramar chá sobre a flor Clitoria Ternatea (também conhecida como “cunhã”) que a investigação sobre a pigmentação azul da planta infiltrou sua produção criativa com ainda mais profundidade.
Se, por um lado, a beleza do acaso está relacionada à indeterminação, à mutabilidade e ao jogo de sortes do destino, a pesquisa de Juliana sobre a planta é duradoura, acumulando anos. E o tempo – seja o do processo que permeia uma residência artística por definição, seja o regido pelas leis da natureza – também se entrelaça com a mostra. “Quando chegamos ao nome Temporã, pensamos na fruta que nasce e madura antes da hora, na criança que surge em uma família muito mais nova do que os outros integrantes; algo fora do tempo esperado. A flor, por exemplo, oxida e, com o tempo, seu pigmento se transforma em uma outra coisa, vai mudando de cor. É algo que não se pode apreender na tentativa de controle”, explica a curadora Lorraine Mendes. “Então, temos o tempo de pesquisa de Juliana, o tempo de lidar com a pintura como uma técnica que é tradicional há centenas de anos e de inverter os limites que querem impor do que pode uma artista”, completa.
Mais: todos os detalhes da parceria entre a Chanel e a Pinacoteca de São Paulo estarão acompanhados de uma entrevista exclusiva com a artista Juliana dos Santos na próxima edição da ForbesLife Fashion, em breve nas bancas.