O mês de novembro foi particularmente intenso para Paula Bezerra de Mello. Começou com 24 horas em Belém para o Global Citizen Festival e, na sequência, desembarcou no Rio na véspera da chegada do Príncipe William para o Earthshot Prize, considerado o Oscar da Sustentabilidade. Na noite anterior à cerimônia, Paula organizou um evento exclusivo para o prêmio no rooftop do Fasano Rio de Janeiro, reunindo finalistas e patrocinadores em uma noite que terminou com um espetáculo de drones iluminando a orla de Ipanema. Poucas horas depois, caminhou dois quarteirões pela Vieira Souto até a cobertura de sua amiga Andrea de Botton Dreesman, onde foi uma das anfitriãs de um coquetel oferecido pela Re:Wild, ONG fundada por Leonardo DiCaprio, em parceria com a Royal Foundation.
Semana passada, com Dua Lipa já praticamente carioca, bem instalada e aproveitando a cidade como uma local, Paula sentiu segurança para embarcar para Doha, onde cumpriu agenda no Fashion Trust Arabia e no disputado Franca Fund Dinner, jantar exclusivo organizado por Anna Wintour, Sua Excelência Sheikha Al Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani e Francesco Carrozzini. Foram 48 horas intensas no Catar antes de voltar ao Rio, onde ontem, depois de buscar sua filha Eduarda no futebol, encontrou-se para uma reunião estratégica com o empresário radicado em Chicago Tony Olson, cliente de sua agência, Ello Agency.
Uma das relações públicas mais influentes do Brasil hoje, ela nunca buscou o posto que ocupa. Na verdade, Paula conta que sempre tentou escapar dos ramos artístico e hoteleiro, com os quais conviveu durante a infância, e acabou em um trabalho que une as duas coisas. Seu avô materno, o dramaturgo e compositor Paulo de Magalhães, deu a Fernanda Montenegro seu primeiro papel, e sua avó, a atriz Heloísa Helena, inspirou Pixinguinha a compor a letra de Carinhoso. Seu bisavô, Othon Bezerra de Mello, fundou o grupo hoteleiro que leva seu nome, e seu avô, Arthur Bezerra de Mello, morava no casarão na esquina da Vieira Souto com a Joaquim Nabuco, onde fica hoje o Hotel Fasano Rio de Janeiro. Seu pai, Frederico, idealizou o local como um hotel boutique de luxo, onde a família, até hoje, mantém sociedade.
A vida profissional de Paula começou na área do cinema. Ela estudou história na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, onde passou parte de sua infância quando sua mãe era assessora do rei Pelé, na época em que ele jogava no New York Cosmos.
Paula estagiou em grandes produtoras, como a Miramax e Paramount, como leitora de roteiros; trabalhou com a codiretora de Cidade de Deus, Katia Lund; e foi assistente pessoal do ator Matt Dillon, com o qual aprendeu algo fundamental para a carreira que leva hoje: “Com ele, entendi o valor da privacidade. Foram meses nos quais queria proteger o Matt a qualquer custo e hoje uso isso tanto na hotelaria quanto em projetos que desenvolvo para minha agência, a Ello”, diz.
A curva na trajetória profissional teve início quando ela foi chamada para organizar o primeiro Festival de Cinema Brasileiro da Universidade de Brown. Ali começou a tomar contato com algo que seria seu principal valor: a capacidade de construir pontes. Logo na estreia, conseguiu que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que ministrava aulas por lá, abrisse o evento. Nos eventos de cinema seguintes, chegou a organizar um painel que contava com o ex-presidente da Disney e fundador da Creative Artists Agency, Michael Ovitz, e o lendário diretor Martin Scorsese. Era o início da vocação para costurar relações e encontros significativos e a formação de uma agenda valiosa.
Enquanto seguia a carreira no cinema, começou um trabalho que seria uma de suas relações mais longevas, uma consultoria de PR para a Osklen, que iniciava internacionalização, e com quem trabalhou por 13 anos. “Paula é uma carioca cosmopolita que sabe muito bem navegar entre o simples e o sofisticado. Seu sucesso como relações públicas a nível internacional, a meu ver, vem desta essência de sua personalidade”, diz Oskar Metsavaht, criador da marca.
Em 2007, durante passagem pelo Rio, foi convidada por Gero Fasano para liderar os planos para a abertura do Hotel Fasano em Ipanema. O trabalho foi muito além da inauguração – dura 18 anos e a inseriu não apenas na elite da hospitalidade de luxo como consolidou sua habilidade estratégica para posicionar marcas brasileiras de diversas áreas no cenário global.
Bons encontros
Paula aprendeu rápido que é dos bons encontros que surgem as melhores oportunidades. Um momento definidor em sua carreira ocorreu durante um jantar com Edward Norton. O ator de Hollywood admirou uma jaqueta Osklen que seu marido estava usando e Paula garantiu que ele recebesse uma peça idêntica fora do Brasil. Meses depois, Norton pediu outra peça para um filme independente em que estava trabalhando. O filme era nada menos do que Birdman, ganhador do Oscar. Foi o próprio Edward que sugeriu o relançamento da jaqueta e a doação de 100% dos lucros para a caridade, aproveitando a cobertura global da mídia. Apenas uma das inúmeras histórias que ela relata com brilho nos olhos ao relembrar a carreira com momentos que vão de festas privadas para Madonna no Rio a cartas de agradecimento da Casa Branca durante o governo Obama, amizade com David Beckham, férias na fazenda do Lenny Kravitz etc.
Além dos negócios como PR e empresária, Paula, que hoje mora no Rio de Janeiro, está envolvida com ações de impacto, fazendo a ponte entre o Brasil e agentes de mudança globais. Como membro do conselho da BrazilFoundation por mais de uma década, ela tem usado sua influência para promover causas sociais. Durante as Olimpíadas, criou e liderou o movimento #TeamRio, iniciativa para redirecionar a atenção global dos Jogos Olímpicos aos projetos sociais do Rio de Janeiro. Em menos de seis meses, uma camiseta com um logo criado por Francisco Costa circulou entre os maiores astros e atletas do mundo, chamando a atenção do The New York Times.
Em 2022, quando Lewis Hamilton recebeu a cidadania honorária brasileira, Paula organizou um jantar intimista e exclusivo, apresentando-o aos líderes culturais e sociais como Seu Jorge, Edu Lyra, Djamila Ribeiro e Iza. “Paula cria pontes que geram valor. Ela fez conexões globais para a Gerando Falcões que nos ajudaram muito na superação da pobreza de muitas famílias. Ela enxerga o que ninguém vê”, diz Edu Lyra, fundador da Gerando Falcões.
Paula demorou para assumir a alcunha de relações públicas porque entende que o termo não é percebido da maneira correta por quem não é da área. Seu trabalho está longe de ser o de uma promotora de eventos. “Sempre achei estranho ser remunerada para conectar pessoas porque isso é algo natural e me dá um prazer enorme. Uma festa é apenas uma pequena parte do que faço. Hoje me vejo muito mais como uma estrategista e uma empresária. Uma pessoa que pensa os objetivos de uma marca e qual a melhor forma de alcançá-los. E, se der para fazer com que conexões virem criações ao longo desse caminho, melhor ainda.”
O poder da Agência Ello
Hoje Paula é CEO da Ello, agência especializada em relações públicas e campanhas digitais. Ela se tornou expert em divulgar projetos com propósito, que rapidamente se espalham pela rede. Um deles, Kiss the Kremlin, o beijaço gay em protesto contra a repressão LGBTQ+ na Rússia, criado pela DM9 e disseminado por Paula, levou cinco Leões no Festival de Cannes.