“A simplicidade é a complexidade resolvida”. A frase do escultor romeno Brancusi (1876-1957) virou um manifesto estético, abrindo caminho para uma nova linguagem que culminaria no minimalismo, que daria seus primeiros passos no Pós Segunda Grande Guerra, com nomes na área da escultura, como o inglês Anthony Caro, o americano Donald Judd e o carioca Sérgio Camargo com seu construtivismo minimalista em mármore. A busca pela simplicidade envolve retirar os elementos desnecessários para deixar a obra despojada de excessos, almejando a essência do trabalho. Esta é a busca de Artur Lescher em suas esculturas, seus pêndulos e toda sua produção movida por seu construtivismo singular, perfeccionismo ao extremo e seu olhar para o belo.
Recentemente, Lescher recebeu importante prêmio na Suíça, concedido desde 2007 pelo Museu Haus Konstruktiv de Zurich à obra de um artista contemporâneo de destaque, como ganharam antes dele o mexicano Damián Ortega e a lisboeta Leonor Antunes. O museu, com nome complicado para nós, que significa Museu de Arte Construtiva e Concreta, tem, logicamente, especial interesse nessas duas correntes. O construtivismo aterrissou no Brasil em 1951, na 1ª Bienal de São Paulo, pelas mãos do artista de Zurich, Max Bill (1908-1994), que venceu o primeiro prêmio daquela edição – a Bienal premiou até a 14ª edição, em 1977. A obra contemplada foi sua escultura “Unidade Tripartida” (1948/1949), atualmente no acervo do MAC-USP.
O vanguardismo e a beleza da peça em aço inoxidável contorcido, uma espécie de fita de Möbius de um metro de altura, mais os argumentos de Bill influenciaram os jovens Willys de Castro, Hércules Barsotti e outros artistas da mesma geração já cansados da predominância do modernismo figurativo da poderosa trinca Portinari, Di Cavalcanti e Segall. Inovar era a palavra de ordem. Que bom para a arte brasileira! Eles mergulharam de cabeça na narrativa do suíço carismático e criaram nossa versão tropicalizada da Arte Concreta, hoje respeitadíssima no circuito internacional.
A diretora e curadora-chefe do Haus Konstruktiv, Sabine Schaschl, assina a curadoria da individual de Lescher, “Entangled Fields / Campos entrelaçados”, em cartaz até início de janeiro no museu, com um conjunto expressivo de obras dos últimos dez anos. No mesmo período, o museu suíço exibe “Concrete Art / Neoconcretismo”, assim mesmo com título em inglês e português, com obras do concreto Max Bill e de Lygia Clark, nossa maior neoconcretista.

Com a palavra, Artur Lescher:
Conceito
“O meu trabalho segue uma tradição concretista/neoconcreta. Isso se percebe no uso dos materiais, como se apresentam em sua materialidade e em seus processos de construção. Basicamente me interessa pensar o lugar que ocupamos no espaço e como interagimos. Esta mostra explora esse tipo de relação de forma mais consciente, com mais intenção”.
Museu Haus Konstruktiv
“O Haus Konstruktiv é um museu único de grande prestígio internacional, e ainda guarda um laço muito importante com a nossa tradição concreta e neoconcreta, na relação direta com Max Bill e a escola de Ulm, com isso o prêmio me coloca nesta perspectiva histórica e valida um sentido da minha produção”.
Entangled Fields / Campos entrelaçados
“O título foi sugestão do Luiz Pérez Oramas, tem relação com uma pesquisa dele sobre física e poesia, e com a exposição ‘Orbital Tango’ (2022), que fiz em Nova York. Gosto de jogos de palavras, gosto de buscar semelhanças sonoras e semânticas entre elas. Relacionei-as de modo heterodoxo, entanglement (entrelaçamento) com tango. Também gosto de discutir em meus trabalhos a imagem da dança e a interação entre os corpos. Tem também relação com conceitos da física quântica e como se dão as conexões entre as partículas, e como um corpo afeta outro, mesmo a grandes distâncias”.

O pêndulo I
“Os pêndulos são peças suspensas que ocupam um lugar intermediário no espaço. Percebi que este lugar me interessava desde meus primeiros trabalhos. Gosto da ideia de estarem entre dois mundos, o céu e a terra, atuando como elemento de ligação, de trânsito, de metáforas”.
O pêndulo II
“Os pêndulos também são afirmações de peso e gravidade, indicam uma verticalidade, mas em grupo podem criar um campo horizontal, afetando tudo que está presente no ambiente. Algumas figuras mitológicas representam esta mesma condição, como Hermes na mitologia grega e Zu na Mesopotâmia, eram entidades que faziam a comunicação entre os mundos, curiosamente não lhes era permitido tocar o chão”.
Entrelinhas (trabalho com linhas vermelhas)
“Em minha primeira visita ao Haus Konstruktiv, percebi que poderia propor duas ocupações complementares: uma sala com alta densidade (sala dos pêndulos) e uma segunda sala, quase imaterial. Entrelinhas foi pensado especificamente para a segunda sala. Vários aspectos desta instalação estão relacionados ao Haus Konstruktiv e a relação Brasil-Suíça na História da Arte. Entrelinhas define as bordas do espaço arquitetônico com um feixe de linhas vermelhas tencionadas”.

Os materiais são os atores
“A escolha dos materiais é parte fundamental. Por outro lado, aprendi que eles carregam características e narrativas intrínsecas a cada um, como se cada material tivesse uma fala própria, com isso, passei a tratá-los como personagens e depois como atores”.
O cobre e o ferro
“É possível relacionar materiais e tirar deles discursos inusitados e reconectá-los com narrativas mitológicas, isso é muito concreto apesar do aparente caráter ficcional. Um exemplo é a conexão do cobre com o ferro, que vem a ser como refazer o casamento entre Efesto e Afrodite. Desta união constata-se a potencialização das propriedades das duas matérias, a beleza do cobre pode ser evocada pelo simples toque do ferro, e a preservação do ferro é possível ao se depositar partículas de cobre sobre a superfície do ferro impedindo a oxidação. Interessante notar que Efesto era o artista do Olimpo!”
2026
“Tenho uma exposição no museu MACA, no Uruguai, e na Galeria OMR, na Cidade do México, e quero seguir com minha pesquisa. Também quero muito me dedicar a plantar mais árvores”.
PS: as fotos são do grande fotógrafo gaúcho Andrés Otero, nosso amigo, que vive na Suíça, em Lausanne.

SERVIÇO
Artur Lescher: Entangled Fields / Campos entrelaçados
Até 11 de janeiro de 2026
Curadoria de Sabine Schaschl
Museu Haus Konstruktiv, Zurich, Suíça
Com colaboração de Cynthia Garcia, historiadora de arte, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) [email protected]
Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando filial no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.
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