A história da startup que promete salvar o mundo de seu maior surto dos últimos tempos

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A Moderna tem chamado a atenção do mundo por oferecer esperança contra o maior mal da atualidade e pelo comportamento de suas ações

Imagine um ambiente de pesquisa científica na área da saúde, no qual startups com verba particular modesta, e algum recurso extra vindo de investidor anjo, brigam com outras pequenas empresas pela dianteira na cura de doenças que afligem a humanidade, tendo o uso da manipulação genética como principal ferramenta. 

Esta realidade completamente diferente da nossa ocorre nos Estados Unidos, em cidades-polos formadoras de gênios. Em Cambridge, Massachussets, há 10 anos, surgia a startup com uma proposta inicial de encontrar a cura para o câncer, mas que, em 2020, apresenta a mais promissora pesquisa de criação da vacina contra o coronavírus, causador da novíssima doença que recebeu o nome de COVID-19, responsável pela infecção de mais de 80 mil pessoas e a morte de cerca de 3 mil em todo o mundo.  

Listada na bolsa tecnológica norte-americana Nasdaq desde dezembro de 2018 após um bem-sucedido IPO que levantou capital de US$ 600 milhões, acima do esperado, a Moderna tem chamado a atenção do mundo neste ano não só por oferecer a esperança contra o maior mal da atualidade, mas também pelo comportamento de suas ações. Nesta semana, com o mercado acionário global ruindo em um clima de aversão ao risco pelos efeitos do coronavírus na economia, as ações sob o código MRNA dispararam 30% nos dias 25 e 26 de fevereiro. 

Os ganhos na bolsa coincidem com as notícias de que a Moderna está na dianteira da corrida pela vacina contra o coronavírus e que já enviou o primeiro lote para testes ao NIAID, sigla em inglês para o Instituto Nacional de Doenças Alérgicas e Infecciosas, um dos principais órgãos responsáveis pelos testes de novos medicamentos e vacinas nos Estados Unidos. A fase 1 dos testes está andamento e, havendo sucesso nas próximas etapas, a vacina poderá ser disponibilizada ao público no prazo de até um ano e meio. 

Ontem (27), as ações oscilaram e chegaram a cair perto de 12%, mas tiveram recuperação e fecharam com alta de 10,02%, a US$ 26,24.

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“Trata-se de swing trade”, explica Francinaldo Gomes, neurocirurgião e educador financeiro especialista em bolsa de valores. Segundo ele, a explicação para o movimento brusco de alta e de baixa na mesma semana das ações da Moderna é uma realização de lucros com a venda de ações após rápido movimento de especulação. “São investidores imediatistas que compram hoje para vender amanhã e aproveitam o movimento. Não querem ser sócios da empresa, nem estão preocupados se ela vai conseguir a vacina. Só querem aproveitar a maré boa para surfar a onda, lucrar e, logo depois, sair da operação.”

Ousadia ou oportunismo?

A Moderna reportou um balanço extremamente fraco em 2019. A receita líquida caiu US$ 14,1 milhões, bem abaixo das expectativas de vendas dos analistas, e o prejuízo foi de US$ 124,2 milhões. No entanto, a promessa da vacina contra o coronavírus promoveu uma virada de jogo. 

No início do mês, a companhia lançou mais ações no mercado por meio de uma oferta secundária que levantou US$ 550 milhões com subscrições de exercícios de opções para a aquisição de ações adicionais. Este capital, somado ao US$ 1,3 bilhão de caixa reportado no balanço do ano passado, faz da Moderna uma empresa de biotecnologia com US$ 2 bilhões em capital. 

O CEO da Moderna, Stephan Bancel, egresso da tradicional indústria farmacêutica, incluindo o laboratório Eli Lilly, antes de fundar a Moderna, e Stephen Hoge, presidente da empresa, já são figuras bem conhecidas do público, principalmente pelas frequentes entrevistas aos veículos especializados em finanças nos Estados Unidos. Mas revelam apenas parte das operações da companhia na corrida pela vacina, o suficiente para animar, por ora, os investidores. 

“Como uma entidade, construímos toda nossa plataforma com base na tecnologia do RNA mensageiro, o que é uma ciência farmacêutica relativamente nova, mas antiga na parte da biologia e que tem a ver com o DNA com o qual as pessoas estão mais familiarizadas”, explicou Hoge para um canal de televisão norte-americano.

Ainda não há informações públicas sobre grandes investidores ou fundações filantrópicas que estejam dando suporte financeiro à Moderna e, segundo especialistas, o investimento nas ações da companhia, embora estejam recebendo recomendação de compra, é algo destinado apenas a quem tem apetite pelo risco diante de dois possíveis cenários: a frustração das expectativas ou o sucesso no desenvolvimento da vacina contra o coronavírus.

“Se a Moderna for bem-sucedida, vai nadar no que chamamos de ‘oceano azul’, sozinha, na vanguarda deste mercado por algum tempo, e vai ter bastante lucro e muitos clientes interessados na compra da vacina – incluindo os governos da China, dos países da Europa, dos Estados Unidos e do Brasil. No cenário pessimista, caso a empresa não consiga a vacina, pelo menos nesta primeira tentativa, pode haver uma frustração dos acionistas e a venda de ações, com queda no preço do ativo. Mas esta corrida, às vezes, tem obstáculos e o aprendizado com as primeiras tentativas serve para as próximas. Foi assim com várias doenças com as quais lidamos hoje”, explica Francinaldo Gomes.

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