Por que o coronavírus pode estimular a inovação

A história revela que grandes crises de saúde geraram revoluções mundiais.

Kumar Mehta
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GettyImages/ DDurrich
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A pandemia do coronavírus poderá ser responsável por uma nova maneira de enxergar as relações de trabalho

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Além do imensurável sofrimento e perda de vidas, o coronavírus já está impactando a economia mundial, prejudicando ações, interrompendo viagens e reuniões, impactando a rotina diária de ida ao trabalho e colocando milhões de pessoas em quarentena. Empresas de todo o mundo estão sentindo o efeito dessas mudanças de comportamento, e economistas preveem que o vírus resultará em uma perda econômica na ordem de centenas de bilhões de dólares. Mas, embora o número grave e trágico de vidas perdidas ainda não possa ser mensurado, há um lado positivo nesse cenário. Se a história das pandemias é um guia, esse contágio, como todos os outros, pode desencadear uma onda de inovação, proporcional à forma como altera a sociedade.

Praticamente todas as principais sequelas de grandes epidemias afetaram da mesma forma a humanidade e os negócios, e não há razão para acreditar que com coronavírus o impacto será diferente. A primeira pandemia conhecida na história foi a Praga de Atenas em 429 a.C., que causou quase 100 mil mortes e mudou a maneira como as pessoas pensavam sobre vida e doença. Desde então, houve centenas de epidemias, e cada uma delas custou à sociedade de milhares a dezenas de milhões de vidas perdidas.

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Embora cada pandemia seja única e o mundo tenha evoluído consideravelmente nos últimos 2.500 anos, elas compartilham algumas semelhanças na maneira como a sociedade lida, se comporta, pensa e inova. Por mais extremas e cruéis que essas doenças tenham sido, cada uma delas alterou a maneira como vivemos e funcionamos, promovendo inovações que facilitam as mudanças necessárias ao tempo e momento em nossas vidas.

Veja alguns exemplos de inovação em cenários de risco epidemiológico:

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A Grande Praga e o nascimento da sociedade moderna

Poucos desastres afetaram a sociedade de maneira tão significativa e causaram maiores danos à humanidade do que a Grande Praga ou a Peste Bubônica (1331 a 1353 na Europa). Ninguém sabe quantas pessoas morreram, mas todas as estimativas variam de dezenas de milhões a centenas de milhões. Estima-se que a doença tenha dizimado de 30% a 60% da população europeia e é considerada a maior calamidade da história.

Quase tudo mudou como resultado dessa praga. Com milhões de pessoas mortas, a mão de obra humana se tornou escassa. As pessoas precisavam trabalhar cada vez mais para suprir as demandas, o que deu origem ao modelo de trabalho atual. Os salários aumentaram e os pobres ficaram mais ricos, igualando a sociedade. As terras eram abundantes, pois havia menos pessoas com quem compartilhar e, à medida que a renda aumentava, a alfabetização também, dando origem a novas ideias e liberdade de pensamento. Com acesso educacional, a sociedade hierárquica em que as pessoas viviam antes da praga começou a dar lugar a uma estrutura ainda mais fundamentada na paridade.

Com pessoas trabalhando mais e salários mais altos, uma das primeiras coisas que surgiram foram os relógios e ampulhetas para acompanhar a jornada. A praga também fez com que os cidadãos percebessem que o sistema médico em que haviam confiado anteriormente, enraizado na religião, não funcionava para mantê-los vivos, e isso gerou o nascimento da medicina moderna, fundamentada na ciência e na experimentação. E, à medida que o trabalho se tornou mais precioso, a automação e as ferramentas que facilitavam as atividades foram surgindo. Os primeiros óculos apareceram para ajudar as pessoas a se tornarem mais produtivas, assim como hospitais, armas, casas modernas e uma série de outras inovações.

Um dos maiores desastres que a raça humana já enfrentou deu origem a um novo mundo e a uma nova ordem de pensamento que moldou nossas vidas por séculos e influencia a maneira como vivemos e pensamos hoje.

A epidemia de varíola de Boston e a livre imprensa

Em 1721, a pior epidemia de varíola atingiu Boston, nos EUA. Metade da população da cidade de 11 mil pessoas foi infectada. O número de 850 mortos foi significativo, mas não foi tanto como em outras epidemias. Com tantos infectados, foi necessária uma resposta extrema para reduzir a disseminação, principalmente porque as pessoas sabiam que a varíola era mortal. A única solução que parecia ter funcionado foi a variolação (algo experimentado na Ásia), que envolvia retirar o pus de uma lesão de um paciente infectado e inoculá-lo em uma pessoa saudável. A técnica causava uma infecção leve, mas impedia o paciente de obter a versão completa da doença.

O próprio pensamento de retirar material infectante de uma doença mortal e inseri-lo em um ser humano saudável causou discórdia social. Enquanto alguns apoiavam a inoculação, a maioria da população rejeitava por motivos religiosos e morais. Embora os benefícios fossem aparentes (as pessoas inoculadas tinham uma taxa de mortalidade de 2%, em comparação com 14% para os não inoculados), essa solução foi considerada repulsiva e os dois lados debateram incessantemente.

Enquanto o debate prosseguia, James Franklin (irmão de Benjamin Franklin) decidiu compartilhar sua opinião contra a inoculação em um jornal. O artigo se tornou um fórum de debate e logo começou a veicular histórias sobre política, eventos locais e até humor e sátira, o que resultou na criação do primeiro jornal independente nos EUA. A epidemia de varíola catalisou o desenvolvimento da imprensa, o que deu origem a um meio que, durante séculos, moldou a forma como pensamos.

E, é claro, a variolação eventualmente surtiu efeitos. Por mais repulsiva que a prática possa ter parecido inicialmente, ela salvou inúmeras vidas nas décadas subsequentes, até que Edward Jenner introduziu a primeira vacina contra varíola em 1797.

Coronavírus e o crescimento do e-commerce

Em novembro de 2002, a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) apareceu pela primeira vez na China e rapidamente se espalhou para Hong Kong e outras regiões, colocando o mundo em alerta máximo (como hoje). As viagens para a Ásia pararam, custando bilhões à indústria de viagens global. O turismo em todo o mundo parou, e as empresas e a economia global sofreram. Segundo algumas estimativas, a Sars custou à economia mundial cerca de US$ 40 bilhões. Este número é apenas o começo, pois o impacto real não foi no que as pessoas fizeram quando estavam cientes de seus riscos, mas no que não fizeram. Elas não foram trabalhar; não visitaram shoppings; as crianças não iam às escolas, então ,os pais tinham de ficar em casa, eles não iam a restaurantes. No geral, um cenário sombrio, bem como o que estamos enfrentando hoje.

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Mas, como em muitas outras epidemias anteriores, à medida que o pior passava, havia algo de positivo naquilo tudo. A aceitação da internet pelos consumidores na China, que historicamente era baixa, começou a aumentar, o comércio eletrônico praticamente inexistente se popularizou. Quando as pessoas precisavam ficar em casa, ainda queriam ficar conectadas, fazer compras e obter informações para suas casas. A internet iria crescer de qualquer maneira, mas a Sars acelerou sua penetração na China e forneceu uma plataforma de lançamento para empresas como Alibaba e JD.com para aproveitar a mudança de hábitos do consumidor e criar duas das maiores e mais influentes empresas da China e do mundo.

Covid-19 e a economia do isolamento

As pandemias catalisam a inovação e aceleram as mudanças, fornecendo um ambiente para o lançamento e o teste de novas ideias. O coronavírus de hoje já está mudando as normas culturais e empresariais, atingindo o cerne de assuntos jamais discutidos por décadas e séculos. O simples ato de um aperto de mão está se tornando cada vez mais algo do passado, mesmo quando lavamos nossas mãos cirurgicamente uma dúzia de vezes por dia.

O trabalho remoto já estava em ascensão, mas “trabalhar de casa” agora é o novo normal. O WFH (Work from Home, que em inglês significa literalmente trabalhar em casa) levará a inúmeras mudanças no local de trabalho, afetando o trabalho em equipe, produtividade, colaboração e comunicação. Desde o surto de coronavírus, as ações da Zoom (a ferramenta de WFH mais popular do mundo) superaram significativamente os mercados em valor, um sinal precoce de um mercado que já está prevendo mudanças. Podemos esperar que essas transformações continuem impactando o modo como pensamos sobre o setor imobiliário e as interações e colaboração comercial, levando a um conjunto de inovações para facilitar essas tendências em evolução e torná-las permanentes.

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Além disso, as pessoas estão tentando permanecer longe uma das outras, as visitas a restaurantes caíram, estamos evitando academias e locais públicos. Com a popularidade da Netflix, entrega de comida, Amazon Prime, banda larga ultra-rápida e Pelotons, parece que passamos a última década nos preparando para este momento. Mas nossas mudanças de estilo de vida, que já estavam em andamento, serão exacerbadas por essa doença mortal. Já empresas como Postmates e Instacart estão oferecendo opções de entrega “sem contato”. Ofertas semelhantes evoluirão e, em breve, uma onda de inovação, projetada para nossa nova maneira de viver e trabalhar, surgirá, e os historiadores provavelmente marcarão o coronavírus de hoje como a centelha da mudança social a longo prazo.

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