Apenas 7% dos profissionais brasileiros se dizem felizes e realizados no trabalho, segundo um novo estudo da Vidalink, empresa de benefícios focada em bem-estar corporativo. Na outra ponta, a ansiedade é sintoma frequente para 40% dos entrevistados.
Para o psiquiatra Arthur Guerra, professor das faculdades de Medicina da USP e do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental, o cenário está ligado à perda de autonomia e propósito. “A realização no trabalho não é uma alegria estupenda, mas a sensação de que o que estou fazendo faz sentido, de que tenho controle sobre a minha vida e não estou sozinho”, explica.
Segundo Guerra, o ambiente corporativo afeta esses pilares, com metas que mudam constantemente e uma hiperconectividade que leva o trabalho para além do fim do expediente. Para Luis Gonzalez, CEO da Vidalink, os resultados do estudo refletem a cobrança crescente sobre a atenção dos profissionais. “Vivemos em um contexto que exige cada vez mais da nossa atenção, sem necessariamente oferecer tempo, apoio e condições suficientes para recuperar essa energia”, afirma.
Mulheres são as mais afetadas
A quarta edição do Check-up de Bem-Estar reuniu respostas de 11.800 profissionais de 290 empresas no Brasil, coletadas entre janeiro e junho de 2026.
Os índices de angústia, desânimo e ansiedade foram os mais altos desde a primeira edição do estudo, em 2023. A parcela que relata esses sentimentos na maior parte dos dias subiu de 70% para 76% entre as mulheres e de 51% para 60% entre os homens, na comparação com o ano passado.
Quando avaliam a própria vida, 39% dos homens se dizem satisfeitos — quase o dobro dos 20% registrados entre as mulheres. Na direção oposta, 30% delas se declaram insatisfeitas.
O contraste pode ser explicado, em parte, pela sobrecarga resultante da combinação de trabalho, responsabilidades domésticas e cuidados com filhos e idosos, que ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres, além de fatores socioeconômicos.
Enquanto 58% dos homens dizem passar a maior parte do dia focados no trabalho, 38% das mulheres precisam conciliar o trabalho com as tarefas domésticas (contra apenas 24% deles). “Essa diferença não representa apenas uma divisão desigual de tarefas, mas também de tempo e energia disponíveis para recuperação, descanso e autocuidado”, analisa Gisele Caleffi, psicóloga e especialista em saúde mental no trabalho.
Geração Z lidera crise de saúde mental
O quadro mais crítico do estudo se concentra nos profissionais mais jovens. Em 2026, mais de três quartos (78%) da Geração Z relataram ansiedade, angústia ou falta de vontade na maior parte dos dias. Entre as mulheres dessa faixa etária, o índice saltou 11 pontos percentuais em apenas um ano, atingindo 83%, ante 67% dos homens. “A Geração Z cresceu com o celular na mão, sob comparação social permanente e com o sono picotado. Some-se a isso a insegurança financeira e um mercado que exige alta performance desde o primeiro dia”, destaca Guerra.
Além do fator comportamental, a entrada recente desses profissionais no mercado agrava o cenário. “Parte dessa geração iniciou a trajetória profissional durante ou logo após a pandemia, em modelos remotos, o que traz desafios de socialização e vínculos”, lembra Gonzalez. “Agora, começam a vivenciar uma nova pressão impulsionada pela inteligência artificial, o que adiciona uma camada de incerteza.”
O contraste com as gerações mais velhas é claro. A percepção de felicidade e realização atinge apenas 2% das mulheres e 6% dos homens da Geração Z, enquanto entre os Baby Boomers, beira os 20%.
Mas a deterioração da saúde mental entre 2025 e 2026 atinge todas as faixas etárias. Nos Millennials, os sentimentos negativos saltaram de 63% para 78% entre as mulheres e de 46% para 63% entre os homens.
A Geração X acompanhou o ritmo, com os índices femininos subindo de 56% para 73%, e os masculinos, de 40% para 60%.
Nos Baby Boomers, a ansiedade, o desânimo e a angústia avançaram de 42% para 56% entre as mulheres, versus um salto de 28% para 34% entre os homens.
Saúde mental em segundo plano
Apesar da piora nos indicadores, a parcela de profissionais que não adota nenhuma medida para cuidar da saúde mental permanece em 30%. Entre os que buscam algum tipo de suporte, os exercícios físicos lideram (34%), seguidos por medicamentos (18%) e terapia (10%). “Reconhecer que não estamos bem não significa necessariamente conseguir transformar essa percepção em cuidado”, avalia a psicóloga. “Existem barreiras como tempo, acesso, recursos e o próprio esgotamento emocional, que podem dificultar esse movimento.”
Segundo Guerra, essa paralisação diante do quadro é um sintoma do próprio adoecimento. “A ansiedade crônica consome energia, e a pessoa esgotada adia exatamente o que iria ajudar”, alerta o psiquiatra. Ele também chama a atenção para o perigo das falsas válvulas de escape: “Muita gente se anestesia com celular, álcool, comida e apostas, que aliviam no curto prazo e pioram no médio.”
Como cuidar da saúde mental, dentro e fora do trabalho
Para reverter o cenário, os especialistas defendem que a responsabilidade deve ser dividida. “O papel da organização é criar condições para que cuidar da saúde seja possível e compatível com a realidade de quem trabalha”, afirma Gonzalez.
Criar cargas de trabalho realistas e respeitar o horário de descanso dos profissionais já é um começo. “Não adianta oferecer aplicativo de meditação em um ambiente que adoece. Mas a empresa abre a porta, e a pessoa precisa atravessá-la”, diz Guerra.
Do lado do profissional, o médico deixa um roteiro prático para quem está tomado pela angústia: “Comece com 30 minutos de atividade física por dia, suba a escada do prédio. Você não vai ter vontade, mas tem que enfrentar mesmo assim.”
O psiquiatra também reforça a importância da higiene digital e de manter conexões reais. “Desconecte de propósito. Defina um horário em que o trabalho e as redes sociais acabam e converse com alguém de verdade. A solidão é um dos grandes fatores que deixam as pessoas doentes hoje.”