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Fui até a Universidade de Oxford para Aprender Que o Nosso Trauma Não Vai Desaparecer

O médico e escritor Gabor Maté mostra que a verdadeira cura não é apagar a dor, mas ter a coragem de senti-la sem julgamento

7 min

“O que aconteceu com você?”

A diretora de relações públicas do evento Transform Trauma Oxford 2026, Ali Spink, já havia me alertado de que ele não daria entrevistas. Recomendou que eu chegasse cedo ao New Theatre, pois a cidade estava tomada por mais de 4 mil participantes, entre médicos, pesquisadores, psicoterapeutas, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais, todos sedentos por compreender melhor o trauma.

Caso você nunca tenha ouvido falar do Dr. Gabor Maté, médico e escritor húngaro-canadense de 82 anos, das duas, uma: ou você já conseguiu transformar o seu trauma, seja ele relacionado aos seus pais, ao luto, ao alcoolismo, a uma doença autoimune, ao abandono ou até mesmo a um chefe abusivo, ou está na hora de ler um de seus best-sellers, como “O Mito do Normal”, ou assistir a algumas das inúmeras entrevistas e podcasts dos quais ele participou nos últimos anos.

O Dr. Gabor foi apresentado no palco como o “Mick Jagger da saúde mental”. Achei engraçado. Principalmente porque, pessoalmente, ele é o oposto de um rockstar.

Imaginem que ele iniciou sua tão esperada palestra convidando a também húngara Bea Palya para entoar, à capela, “Cante para se Libertar”. Eu não entendi uma só palavra, mas fiquei toda arrepiada. Lágrimas caíram involuntariamente. A música tem mesmo um poder terapêutico. Muitas vezes, acessa emoções que as palavras não conseguem expressar.

Nosso encontro aconteceu no dia seguinte, no The Golden Cup, um pequeno café na Ship Street, perto do Oxford Town Hall.

Coincidência? Nunca. Carl Jung estava certo sobre as sincronicidades.

Estava preparadíssima para essa conversa. Afinal de contas, passei os últimos três anos estudando tudo o que ele tinha a dizer sobre trauma. Mas, curiosamente, foi ele quem me fez perguntas.

Queria saber sobre a minha vida, ouvir a minha história. Perguntou se eu era médica ou psicóloga. A resposta curta e direta, “não”, pareceu despertar ainda mais sua curiosidade:

“Então, o que trouxe você até aqui? O que aconteceu com você?”

Eu queria ter tido a coragem de responder: “Você tem umas quatro horas?”

Não tive. Meu alter ego me salvou.

Contei rapidamente que vivi múltiplos traumas: um irmão dependente químico que, anos mais tarde, tirou a própria vida; uma doença autoimune, artrite reumatoide, aos 17 anos; um grave acidente de carro seguido de uma EQM (experiência de quase-morte); um câncer de mama, acompanhado de outra EQM; um AVC brutal que mudou drasticamente a vida da minha irmã Carol; o Parkinson e a demência progressiva do meu pai e, obviamente, uma compreensível depressão que tem assolado a minha mãe.

O Dr. Gabor, com seu semblante reconhecidamente sereno e sua fala suave, mas firme, me disse: “Seus traumas não vão desaparecer porque o passado não pode ser reescrito. Você sabe que não pode mudar nada do que viveu, certo? Mas as feridas que eles deixaram em você podem, sim, ser curadas. E o que você precisa vai além da medicina tradicional.”

O Dr. Gabor, que é judeu, citou várias vezes a filosofia budista em sua palestra.

Imagino que, a essa altura, você já tenha entendido o motivo do meu enorme interesse pelos três dias de imersão que vivi em Oxford, sob o tema Ciência, Espírito e Corpo.

Minha querida amiga belga Laurence Muylaert, que me acompanhou nessa intensa jornada e também viveu um grande trauma quando seu irmão Paul Emmanuel faleceu abruptamente, ainda jovem, comentou, com seu elegante sotaque francês:

“Oxford cheira a conhecimento, Lu. Dá vontade de respirar fundo e torcer para que um pouco de toda essa sabedoria fique com a gente.”

O trauma molda a maneira como vivemos e interpretamos o mundo

Para o Dr. Gabor, curar é recuperar a conexão com o corpo, com as emoções e com a autenticidade que aprendemos a abandonar para sobreviver.

Aos 11 meses, durante a ocupação nazista da Hungria, a mãe de Maté o entregou a uma desconhecida para salvá-lo. Seus avós maternos haviam sido mortos em Auschwitz, e seu pai estava submetido a trabalhos forçados.

Para a mãe, entregar o bebê foi um ato radical de amor. Para aquele bebê, que ainda não tinha como compreender as circunstâncias, foi uma experiência de abandono.

A mesma história. Duas verdades.

Uma das coisas mais impactantes que vivi em Oxford foi perceber como frequentemente tentamos nos livrar da dor a todo custo.

Talvez porque não seja socialmente bem aceito tremer, chorar, sentir raiva ou admitir medo. Mas o corpo é um arquivo muito menos educado. E, em várias palestras, a pergunta voltava:

“Onde você sente isso no corpo? No peito? Na garganta? No estômago?”

Parece simples. Não é. É um trabalho para a vida toda.

“O que mais me impressionou na filosofia do Dr. Gabor Maté foi perceber que aquilo que nos salvou na infância pode ser justamente o que nos aprisiona na vida adulta.”

Laurence Muylaert

Foi durante uma das palestras do Dr. Dan Siegel, psiquiatra formado em medicina pela Universidade Harvard, professor e escritor americano (por favor, leia “Mindsight“), que ouvi uma reflexão sobre como o corpo pode carregar marcas de experiências que a mente ainda não conseguiu elaborar.

A medicina, muitas vezes, concentra-se no órgão ou no sintoma, sem investigar suficientemente o contexto em que o sofrimento se desenvolveu.

Foi aí que ele colocou outra peça nesse quebra-cabeça.

A saúde mental está profundamente relacionada à integração. Quando essa integração se perde, tendemos à rigidez ou ao caos.

Pensei em quantas vezes chamamos de “personalidade” aquilo que talvez tenha começado como proteção. Uma proteção que também pode se manifestar na necessidade de agradar ou na incapacidade de dizer não.

Uma palavra apareceu repetidamente em Oxford: unity. Unidade.

Em que momento decidimos que mente é uma coisa, corpo é outra e espírito é um assunto que deve esperar do lado de fora do consultório?

Espiritualidade, nesse contexto, não precisa significar religião. Pode ser algo muito mais elementar: sentir-se conectado a algo maior do que nós mesmos e encontrar um sentido que vá além da sobrevivência.

Nós não somos partes tentando se conectar. Somos uma unidade que aprendeu a se perceber em pedaços.

Às vezes, a dor é simplesmente o amor procurando onde ficar depois que alguma coisa desapareceu.

Na semana seguinte ao evento em Oxford, fui para uma floresta perto de Montpellier, na França, participar de um retiro espiritual com Patrícia Whitebuffalo. A experiência foi uma continuação de tudo o que eu havia ouvido, só que na prática.

“Se você já não é a mesma pessoa que era antes, talvez tenha vivido aquilo que Joseph Campbell chamou de Jornada do Herói.”

Linda Thai, terapeuta especializada em trauma, nascida no Vietnã, refugiada nos Estados Unidos e atualmente residente no Alasca, finalizou sua linda apresentação com a música “Pertencer”, da cantora Mo Washburn.

Com todo o respeito a Campbell, no meu caso, prefiro chamar de Jornada da Heroína.

Lembre-se de que a cura não é deixar de sentir a dor. É conseguir sentir sem julgamento. Sentir tristeza sem querer fugir, sentir raiva sem culpa ou até mesmo sentir medo e não congelar.

Dedico este artigo ao meu irmão Fernando, que amei imensamente, mesmo sabendo que, sem intenção, desmantelou nossa família inteira. Ele passou a vida toda tentando anestesiar a própria dor.

O mês de outubro é um lembrete disso:

  • 10 de outubro: Dia Mundial da Saúde Mental
  • 17 de outubro: Dia Mundial do Trauma
  • 19 de outubro: Dia Mundial do Câncer de Mama

Você não precisa carregar tudo.

P.S.: O conhecimento e a curiosidade são o que nos mantém em constante evolução. Já comprei as passagens para Tulum, onde acontecerá o Transform Trauma Mexico, em fevereiro de 2027.

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