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Petróleo a US$ 115 e Fed: a Conta Que Não Vem de Brasília

Alta do petróleo pressiona diesel e inflação, enquanto juros americanos elevados reduzem o espaço para novos cortes da Selic

7 min

O petróleo Brent fechou esta quarta-feira a US$ 115,32 o barril, cerca de 80% acima do nível em que começou o ano, e na mesma tarde o Federal Reserve manteve os juros americanos entre 3,75% e 4% com dois dirigentes votando por uma nova alta.

Em uma semana em que o dólar teve uma das maiores altas diárias desde o Plano Real por razões domésticas, esses dois números podem até parecer coadjuvantes, mas não é bem assim. 

O real fraco e o juro longo perto de 15% são, em boa parte, uma história de Brasília, mas o mundo também ficou mais caro para o Brasil, e a parte da conta que vem de fora não depende de nenhuma decisão tomada aqui, o que estreita o espaço do Copom bem no momento em que ele se reúne, nos dias 3 e 4 de novembro, para decidir se continua cortando a Selic.

Petróleo acima de US$ 110 chega ao Brasil pelo diesel

Quem não abastece caminhão pode achar que o barril a US$ 115 é assunto de petroleira, mas o diesel move o frete de quase tudo o que chega à prateleira do supermercado, e é por ele que o choque do Oriente Médio entra na inflação brasileira.

As conversas diplomáticas envolvendo Arábia Saudita, Turquia, Paquistão e Irã aliviaram o preço por um dia, enquanto o problema de oferta continua físico: com os ataques a petroleiros perto do Estreito de Ormuz, o fluxo pela passagem está em cerca de 60% do normal e as exportações do Golfo caíram por quatro semanas seguidas, segundo a ANZ Research.

Por aqui, o efeito está represado: a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) calculou que a defasagem do diesel nas refinarias da Petrobras chegou a R$ 3,53 por litro, ou 108%, e já supera a subvenção de R$ 3,52 por litro, enquanto o IPCA de setembro, com 4,58% em 12 meses, já rodava acima do teto da meta antes de qualquer repasse.

Inflação represada não é inflação eliminada, é inflação com data a definir, e quem paga a diferença enquanto ela não chega é a Petrobras, o Tesouro ou, mais cedo ou mais tarde, o consumidor.

Fed mantém os juros, mas a inflação nos EUA não dá trégua

O comunicado do Federal Reserve (Fed) desta quarta tem uma frase curta que diz muito: “a inflação permanece elevada”. Traduzindo, o banco central americano parou para respirar depois da alta de setembro, mas não sinalizou que o aperto acabou, e os votos de Lisa Cook e Beth Hammack por mais 0,25 ponto mostram que parte do colegiado já queria subir agora.

A razão está no posto de gasolina americano, porque a inflação ao consumidor nos Estados Unidos chegou a 3,7% em 12 meses em setembro, segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS), com a gasolina subindo 34,2% no período e respondendo por mais da metade da alta do mês. Antes da reunião, os contratos futuros já indicavam cerca de 75% de chance de nova alta em dezembro, segundo o FedWatch, do CME Group, que calcula em tempo real as probabilidades de mudanças na taxa de juros dos Estados Unidos pelo Fed. 

É o mesmo petróleo cobrando a conta duas vezes: aqui, pelo diesel; lá, pelo Fed, que responde à gasolina com juros, e esses juros também atravessam a linha do Equador e impactam por aqui.

Câmbio flutuante não protege o Brasil dos juros do Fed

Uma objeção razoável é que o Brasil tem câmbio flutuante e uma Selic de 13,75%, quase dez pontos acima do juro americano, e que isso bastaria como colchão.

Acontece que essa proteção é menor do que parece: os fluxos de capital para emergentes seguem um ciclo financeiro global ditado em boa medida pela política monetária estadunidense, e deixar o câmbio flutuar não basta para isolar um país desse ciclo.

Aplicado à semana brasileira, o raciocínio é direto: quando o Fed sinaliza juros altos por mais tempo, o investidor global cobra mais para ficar em emergentes, e cobra ainda mais de quem já está sendo reavaliado por risco fiscal. Foi o que vimos depois do segundo turno, quando o dólar saltou de R$ 4,99 para R$ 5,50 em um único pregão e o DI para janeiro de 2029 passou de 15%, contra cerca de 12,5% em meados de outubro.

A devolução parcial de terça, com o dólar fechando a R$ 5,33, mostra que uma parte do susto se desfaz, mas o piso ficou mais alto, e por isso acho arriscado tratar a disparada como um evento puramente doméstico, que some assim que Brasília der o sinal certo. Um sinal fiscal convincente reduziria uma das camadas do prêmio, enquanto a outra continua sendo definida em Washington e no Golfo Pérsico.

Para o Copom, que chega à reunião de novembro depois de cinco cortes seguidos, isso significa decidir com combustível represado, dólar mais caro e um Fed que pode voltar a subir em dezembro, e por tudo isso, o mercado já reduziu as projeções de cortes da Selic desde segunda-feira.

Inflação e dólar em alta: como posicionar a sua carteira

Algo que venho reforçando até de forma insistente, é para que o investidor evite decisões binárias tomadas no calor de um único pregão ou mesmo de uma única semana. Afinal, comprar dólar depois da disparada ou vender ações depois do tombo transforma volatilidade em prejuízo realizado.

Com o diesel represado e o juro longo perto de 15%, os títulos do Tesouro IPCA+, as NTN-Bs, voltam a oferecer juro real elevado e protegem exatamente do risco de uma inflação que ainda não apareceu no índice, desde que você esteja disposto a levá-los até o vencimento, já que no caminho eles oscilam como qualquer ativo de prazo longo.

O pós-fixado atrelado à Selic segue cumprindo o papel de reserva, e a exposição ao dólar faz sentido como parte estrutural da carteira, montada aos poucos e dimensionada pelo que você precisa proteger, e não como aposta em um único movimento. Na próxima terça, 03, vou falar de tudo isso numa live aberta no Youtube, e deixo aqui o convite.

Midterms e Copom na mesma semana testam a Selic

A coincidência de calendário é reveladora: os americanos vão às urnas na terça, 3 de novembro, com toda a Câmara, 35 cadeiras do Senado e 36 governos estaduais em disputa, e o Copom anuncia sua decisão na noite do dia 4 sabendo quem vai controlar o Congresso dos Estados Unidos, mas não o que isso significará para tarifas e gasto público.

Há ainda o risco que operadores já colocam no preço do barril, o de um ataque americano ao Irã depois da votação, que traria de volta ao petróleo exatamente a pressão que o Copom gostaria de ver ceder.

Em 2022, aprendemos que um banco central emergente que se antecipa ao Fed atravessa o aperto americano com a moeda de pé, porque o Brasil tinha subido juros um ano antes e o real esteve entre as moedas mais valorizadas no início daquele ano. Agora o sinal está trocado, com o Copom cortando enquanto o Fed volta a subir, e esse descompasso só se sustenta se o prêmio de risco doméstico cair o bastante.

Com o petróleo e o Fed subindo ao mesmo tempo, a autonomia do Copom para seguir cortando juros não virá do calendário de reuniões: ela terá de ser conquistada com credibilidade fiscal, e o preço dessa credibilidade ficou mais alto nesta semana.

*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI, empresário, sócio do Clube FII, escritor e educador financeiro.

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