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Mercado de Cerveja Se Rende À Proteína, e Ambev Sai na Frente

Primeira cerveja com proteína da AB InBev no mundo nasce no Brasil e estreia em São Paulo e no Rio de Janeiro no fim de agosto

9 min

Cinco anos e mais de 100 protótipos separam a decisão da Ambev (ABEV3) de estudar proteína dentro de uma cerveja do produto que chega às prateleiras no fim de agosto. A maior cervejaria da América Latina passou meia década se preparando para o momento em que o nutriente que reorganizou o carrinho de compras do brasileiro chegaria à sua categoria, e decidiu que esse momento é agora.

A primeira cerveja com proteína da AB InBev em qualquer mercado do mundo, nasceu e será testada no Brasil antes de qualquer decisão de exportar a receita. O trabalho aconteceu no Centro de Inovação e Tecnologia (CIT) da companhia, inaugurado em 2018 no Parque Tecnológico da UFRJ, no Rio de Janeiro, com investimento de R$ 180 milhões. O centro é um dos seis que a AB InBev mantém no mundo, trabalha em conexão direta com o Global Innovation & Technology Center do grupo, na Bélgica, e foi eleito por dois anos consecutivos a principal unidade de inovação da companhia. Dessa “cozinha” saíram a Stella Artois Pure Gold, sem glúten, a Skol Zero Zero e a Corona Cero, além do Guaraná Zero com Fibras.

Dentro dele trabalham mestres-cervejeiros, engenheiros, químicos, microbiologistas, biólogos, farmacêuticos, estatísticos e especialistas em embalagens. A estrutura inclui uma planta piloto capaz de reproduzir em escala reduzida quase todas as condições das fábricas da companhia, laboratórios de análise físico-química e cromatográfica, uma desalcoolizadora usada no desenvolvimento das cervejas zero álcool e um núcleo de impressão 3D. Todos os anos, o CIT conduz cerca de 50 pesquisas com consumidores, com mais de 3 mil participantes.

Nenhum dos produtos que saíram de lá até aqui carregava proteína. O que a Ambev leva ao mercado agora é a Spaten Pro, cerveja escura do estilo alemão Munich Dunkel, sem álcool, com 10 gramas de proteína por lata de 350 ml e preço sugerido entre R$ 10 e R$ 13. A produção, por ora, fica concentrada em uma única cervejaria, em Ribeirão Preto, e a estreia se limita a São Paulo, ao Rio de Janeiro e ao Zé Delivery.

A conta da proteína

Ao colocar 10 gramas de proteína dentro de uma lata, a companhia afirma ter escutado o consumidor e quer provar que a proteína pode ganhar ainda mais espaço para além de bebidas lácteas e suplementos. Pesquisas confirmam o apetite mundial pelo nutriente. Estudo da McKinsey publicado em dezembro, que cruza a pesquisa ConsumerWise da consultoria com a análise de mais de 13,5 bilhões de tíquetes do varejo alimentar feita pela Scanntech, mostra que entre janeiro e outubro de 2025 as vendas de whey protein no país cresceram 124% em volume e as de creatina, 89%, enquanto o iogurte proteico avançou 16%. Nos atacarejos, os suplementos esportivos subiram 141%. São categorias que saíram do universo das academias e passaram a disputar espaço na gôndola do supermercado. A aposta da Ambev é levá-la também aos bares.

O mesmo estudo mostra que a busca por equilíbrio já reorganizou a prateleira de bebidas. As cervejas de baixa caloria cresceram 40% no período, num movimento que a consultoria descreve como o desejo de continuar socializando com mais controle sobre a ingestão de calorias.

Fora do Brasil, a consultoria holandesa Innova Market Insights elegeu a proteína a principal tendência global de alimentos e bebidas para 2026 e afirma que 80% dos consumidores no mundo dizem prestar atenção à quantidade do nutriente na dieta.

“O consumidor quer equilíbrio. Ele quer ter uma opção que ajude nas questões nutricionais, quaisquer que sejam, mas que não abra mão do sabor”, diz Dani Waks, vice-presidente de Marketing da Ambev.

Por que sem álcool

A escolha de tirar o álcool responde a outro conjunto de números e motivos “Se a gente está indo para esse lado de wellness, do balanço, para nós era importante fazer uma cerveja sem álcool, para que a pessoa não precisasse abrir mão de absolutamente nada”, afirma Dani Waks, vice-presidente de Marketing da Ambev.A escolha de tirar o álcool responde a outro conjunto de números. Pesquisa Ipsos-Ipec encomendada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) apontou que 64% dos brasileiros declararam não consumir bebidas alcoólicas em 2025, contra 55% em 2023. Entre os jovens de 18 a 24 anos, a abstinência saltou de 46% para 64%, e na faixa de 25 a 34 anos, de 47% para 61%.

A diminuição no consumo de álcool afeta a produção. O Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária, registra queda de 8,85% no volume declarado de cerveja produzida no país em 2025, para 15,69 bilhões de litros. As cervejas sem álcool ou desalcoolizadas responderam por 1,27% desse total, e as cervejas sem glúten saltaram de 71,1 milhões para 367,9 milhões de litros, alta de 417,7%. Enquanto o mercado tradicional encolhe, os nichos ligados a saúde e equilíbrio crescem em ritmo de dois dígitos.

O portfólio que a Ambev chama de “escolhas equilibradas”, que reúne cervejas sem álcool, com menos calorias e sem glúten, cresceu mais de 70% no período. Dentro dele, a Stella Artois Pure Gold avançou 160%, a Michelob Ultra, 180%, e a Corona Cero, 70%. No consolidado, a receita líquida orgânica da companhia subiu 8,1% e o Ebitda ajustado, 10,1%.

A tendência é global. A IWSR, referência em dados de bebidas alcoólicas, estima que os volumes mundiais de cerveja sem álcool cresceram 8% em 2025, enquanto a categoria de cerveja como um todo recuou 1%.

Waks aponta um deslocamento de produto, não apenas de comportamento, para explicar por que a categoria destravou agora e não há dez anos. “Óbvio que tem uma mudança comportamental, mas tem uma mudança que é mais importante na minha leitura: é a mudança de produto”, afirma. “O consumidor quer, sim, em alguns momentos beber uma cerveja sem álcool, mas ele não quer abrir mão do sabor, não pode ser ruim. E hoje o mercado permite isso.”

O executivo diz que a barreira remanescente é a experimentação. “Hoje o nosso maior desafio é que as pessoas experimentem, porque as pessoas têm um preconceito do que é a cerveja sem álcool, de talvez uma experimentação que elas fizeram 15 anos atrás, que, de fato, era um produto muito pior.”

A tese comercial da companhia não é substituir o shake pela cerveja, e sim criar ocasião nova. “Naturalmente, quando a gente fala de inovação, a primeira coisa que vem na nossa cabeça é a troca. E faz todo sentido essa pergunta, a gente se debateu muito sobre isso”, diz Waks. “Não necessariamente existe uma troca. Eu acho que aqui não é uma troca, é uma adição.”

As dores e as delícias de inovar

A receita puro malte com proteína envolveu nutricionistas, médicos nutrólogos, engenheiros de alimentos e mestres-cervejeiros, com a exigência de que a adição do nutriente não alterasse o perfil sensorial do estilo.

“É uma delícia fazer esse tipo de coisa. O mercado de cerveja no Brasil é um mercado em que as pessoas têm uma relação com uma categoria tão única no mundo. É um dos países onde a relação do consumidor com a cerveja é mais forte”, diz Waks.

A parte difícil aparece na condição de laboratório permanente que o país assumiu dentro do grupo. ” A dor é estar confortável no desconforto. Saber que vai lançar algo que pode ter que mudar. Tem que desenvolver uma cultura que tolera risco e erro”, diz.

“O Brasil, a gente tem tentado muito se posicionar como um mercado onde a gente é o pioneiro nas inovações. Então a gente adora ser o primeiro teste de várias novas coisas. Eu acho que isso tem coisas boas e coisas mais difíceis”, diz Waks, lembrando que a Pure Gold nasceu no Brasil e depois foi levada para a Argentina e outros mercados.

Ele admite que o produto que chega às prateleiras raramente é o produto final. “Em toda inovação, é uma coisa difícil às vezes de falar, mas elas não nascem sempre prontas. Algumas coisas vão evoluindo, algumas nascem de um jeito e depois vão para o outro lado”, afirma, citando a própria Pure Gold, que começou apoiada no atributo sem glúten e hoje se sustenta também na contagem de calorias.

A Spaten Pro é tratada internamente como a primeira cerveja com proteína da AB InBev, controladora da Ambev. Fora do universo das grandes cervejarias, o atributo já existe em marcas de nicho no exterior, como a alemã JoyBräu e a britânica Lifted, ambas sem álcool. O que muda com o lançamento brasileiro é a escala industrial e o alcance de distribuição por trás dele. Segundo a companhia, o projeto nasceu no Brasil, em parceria com os demais centros de inovação do grupo, e pode ser expandido para fora do país dependendo do desempenho.

A disputa já está montada

A Ambev não chega sozinha ao território do bem-estar. Em maio, o Grupo Heineken lançou no Brasil, antes de qualquer outro mercado, a Heineken Ultimate, com 3,5% de teor alcoólico, 97 calorias e receita sem glúten, com preço sugerido de R$ 6,49 para a lata. A companhia holandesa também mantém no portfólio a Heineken 0.0, a Amstel Ultra, a Sol e a Praya Lager sem glúten, além da linha de bebidas Mamba, que já tem versão proteica.

Para a Ambev, a leitura é de expansão de ocasião, e não de canibalização. “Não necessariamente todo mundo quer tomar uma cerveja com álcool todos os dias da semana ou no meio da tarde”, diz Waks. “Se você quer tomar uma cerveja proteica na terça-feira, o álcool talvez não te permitisse.”

A campanha de comunicação começa no fim de agosto. A expansão para o restante do país ainda não tem data.

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