Não é novidade para ninguém que a expectativa de vida vem crescendo ao longo das últimas décadas, impulsionada pelo conhecimento sobre o funcionamento do organismo e das doenças, pela tecnologia e, sobretudo, pela prevenção. Há especialistas que defendem que, em um futuro não tão distante, ultrapassar a barreira dos 100 anos deixará de ser exceção e passará a ser algo comum.
A pergunta central, porém, não é apenas quanto tempo vamos viver, mas como vamos viver. Longevidade precisa vir acompanhada de qualidade, autonomia e prazer. Não se trata apenas de cuidar do cérebro para atrasar o declínio cognitivo — que, em algum grau, todos teremos —, mas também de blindar o corpo para que ele acompanhe essa jornada com menos limitações e queixas.
Embora as organizações de saúde estejam corretas ao dizer que nunca é tarde para começar, sabemos que colhemos hoje o que plantamos no passado. Quanto antes você conseguir implementar mudanças no seu estilo de vida, maior será o seu “capital” físico e cognitivo quando precisar dele. Funciona como um investimento financeiro: pequenas aplicações feitas de forma consistente geram retornos significativos mais adiante.
Aplico as recomendações abaixo na minha própria vida, mas talvez a pessoa que mais me ensine sobre o poder de ter investido nesse capital ao longo dos anos seja a minha mãe, que chega aos 95 anos com autonomia, lucidez e alegria.
1 – Atividade física não cuida apenas do corpo, mas também da saúde mental
Já fui atleta de alto rendimento, competindo nas provas exigentes de Ironman. Foi um momento importantíssimo da minha vida. Hoje, entendo que qualidade de vida, manejo do estresse, mais energia, ossos fortes e um cérebro mais afiado podem ser conquistados com algo bem simples: musculação regular e caminhadas feitas em um ritmo vigoroso, que eleve a frequência cardíaca. Movimentar o corpo deveria ser um mantra. É isso que permitirá manter a autonomia ao longo dos anos.
2 – Quanto menos álcool, melhor
Os efeitos do álcool são cumulativos e se tornam mais evidentes com o passar do tempo. Assim, quanto menos álcool você ingerir, melhor. Se for possível ficar sem, melhor ainda.
3 – Invista em uma rede de relações
Interagir com seus amigos e manter vínculos sociais é tão importante para uma longevidade saudável quanto a atividade física. Não por acaso, em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma comissão dedicada ao enfrentamento da solidão. Relações de qualidade melhoram o humor, reduzem os riscos de transtornos mentais e até fortalecem o sistema de defesa do organismo.
4 – Mantenha o cérebro ativo
O declínio cognitivo é inevitável, mas pode ser desacelerado. Tudo o que desafia o cérebro ativo é um bom investimento: dedicar-se a um novo hobby, aprender algo novo, ler, jogar xadrez ou qualquer outro jogo, fazer palavras-cruzadas, estudar. O cérebro gosta de novidades.
5 – Mantenha-se atualizado
O que funcionava 20 anos atrás pode não ser o melhor hoje. Se a ideia é manter-se inserido e ativo no mundo, é importante manter-se atualizado. Longevidade com qualidade exige curiosidade e disposição para aprender sempre.
Viver mais e melhor não depende de grandes feitos, mas da soma de pequenas escolhas feitas ao longo do tempo. Você tem reservado um tempo para isso?
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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