Você já deve ter visto essa situação: você sai com amigos e, quando chega o garçom, um deles pede uma água ou um refrigerante. Não é incomum que o restante da mesa se pronuncie, perguntando ao abstêmio se ele está doente ou pedindo uma justificativa para a ausência de álcool naquela noite.
Muito se tem falado sobre a importância de reduzir o consumo, e as pesquisas ficaram difíceis de ignorar. Álcool faz mal à saúde, aumenta o risco de câncer e ponto.
Porém, o maior obstáculo para abandonar as bebidas alcoólicas não está necessariamente na garrafa, mas na mesa ao redor dela. O álcool frequentemente funciona como um passaporte social. Isso quer dizer que quando uma pessoa decide parar de beber, é quase como se ela estivesse rompendo um ritual coletivo. O grande desafio passa a ser, então, defender-se dos por quês que surgem dos amigos. A escolha passa a exigir uma defesa, o que torna ainda mais difícil a decisão de largar os drinques, nem que seja por um curto período.
Por que a mesa reage assim? Porque beber nunca foi tratado como escolha. Faz parte de uma cultura que acompanha a humanidade há milhares de anos e está associada ao lazer e às festas. Ninguém precisa justificar a escolha de um drinque porque é esperado que no happy hour e na comemoração ele esteja presente. Quem pede água sai do roteiro.
Não por acaso uma pesquisa britânica mostrou que 64% dos homens já foram constrangidos por amigos ou familiares ao tentar parar de beber. A influência dos pares – amigos, colegas ou familiares que bebem – molda fortemente o consumo, especialmente em ambientes de lazer. Esse talvez seja um dos maiores exemplos de como muitos hábitos de saúde são sociais.
Convido você a refletir de forma diferente do pensamento comum quando se fala de consumo de álcool: parar de beber, assim como recuperar-se de anos de álcool, não depende só de força de vontade. Depende também da capacidade que amigos e familiares têm de transformar a sobriedade em algo socialmente aceitável.
Da próxima vez que alguém na sua mesa pedir água, repare no impulso de perguntar por quê. E, principalmente, preste atenção que ninguém nunca perguntou a você por que está bebendo.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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