Desde a época em que estava na faculdade e comecei a fazer os meus primeiros estágios remunerados – um trabalho, portanto -, sou movido a desafios. Gostava quando um chefe me dava um caso difícil. Ainda hoje, meus olhos brilham quando colegas me convidam a participar de algum projeto “complicado”.
A falta de desafios tem levado muitas pessoas a sentirem-se desinteressadas no trabalho, um fenômeno que vem ganhando cada vez mais espaço na pesquisa em saúde ocupacional e mental e foi apelidado de tédio no trabalho (job boredom, em inglês).
É um estado desagradável de desinteresse e dificuldade de concentração gerado não apenas pela falta de desafios, como também pela sensação de não haver novidade na função e pelo sentir-se subutilizado. Você, leitor, provavelmente vai me questionar se todo trabalho de fato não tem certa dose de repetição e de rotina, inclusive em profissões altamente qualificadas. A verdade é que sim. Quase todo mundo experimenta certo tédio de tempos em tempos, independentemente da natureza da ocupação.
A questão que os estudiosos estão descobrindo é que o problema aparece quando há um descompasso crônico entre aquilo que a pessoa é capaz de oferecer e aquilo que o trabalho exige dela. Em outras palavras: o tédio de alguma forma informa sobre o modo como as capacidades do trabalhador estão sendo usadas.
Por mais contraintuitivo que pareça, ficar mentalmente ocioso por horas não descansa. Ao contrário, enfrentar isso todos os dias impacta a saúde mental. Um estudo de 2024 com trabalhadores jovens mostrou que maior tédio no trabalho está associado posteriormente à redução da satisfação com a vida e aumento de sintomas de ansiedade e depressão.
A boa notícia é que existe saída, e não passa necessariamente por pedir demissão. Algumas pesquisas têm revelado que em muitas culturas organizacionais é possível moldar o próprio trabalho, uma prática que é conhecida como job crafting. Isso quer dizer fazer algumas alterações para se reaproximar do que mais nos motiva no trabalho. Pode ser oferecer-se para um projeto, ensinar um colega mais novo etc. Cada um pode achar a sua solução.
Seria injusto, entretanto, jogar toda a conta no colo do empregado. Tédio no trabalho nunca é só resultado de uma atitude individual. Muitas vezes ele denuncia ambientes de trabalho que subaproveitam potenciais. E aí caberia à liderança perceber como reorganizar funções de maneira que pudesse utilizar o que cada um tem de melhor. Muitos líderes não sabem que um colaborador está subutilizado porque ninguém conta. Abrir espaço para o diálogo já seria meio caminho andado.
Assim como dor é sinal de que algo não vai bem com o corpo, o tédio pode estar avisando que há talentos que esperam ser usados. Estudos mostram que enfrentar desafios no trabalho pode voltar a fazer os olhos brilharem.