Há alguns dias, ao fazer um intervalo em uma reunião que acontecia por meio digital, prestei atenção a uma coisa: enquanto eu aproveitava o momento para fazer carinho no meu cachorro, que havia deitado perto do meu pé durante o encontro online, outros membros usavam aqueles breves minutos para checar seus WhatsApp e suas notificações e, eventualmente, dar uma olhadinha nas suas redes sociais.
Nada contra, até porque os que se reuniam eram médicos e, logicamente, temos de verificar se há alguma urgência, mas o que chamou a atenção é o quanto estamos programados para recorrer ao digital em qualquer oportunidade que aparece. Você certamente já deve ter notado alguém (quiçá, você mesmo) que espera o elevador enquanto vasculha o Instagram ou assiste a um vídeo curto enquanto passa o café.
Talvez isso explique, ao menos em parte, por que tantas pessoas terminam o dia mentalmente exaustas, mesmo sem terem realizado um trabalho fisicamente puxado. Nesse mundo em que vivemos, o cérebro quase não experimenta momentos livres de captura de atenção – por nossa própria responsabilidade! Quando não estamos concentrados em uma tarefa, quase sempre somos nós mesmos os que buscam vídeos, notícias e mensagens.
A ciência tem nos mostrado – e aqui eu cito um estudo de 2022 publicado na PLOS One, que micropausas de até 10 minutos reduzem a fadiga e aumentam a sensação de vigor ao longo do dia. O que talvez valha pensar é: o que fazemos durante essas pausas?
Tenho pensado bastante na importância de procurarmos fazer micropausas analógicas para, deliberadamente, sair do ambiente digital para fazer algo mais simples no mundo físico, como brincar com o seu pet, por exemplo. Pode ser regar as plantas, conversar com os colegas de trabalho na sala do café, escrever alguma ideia em um caderno. Trata-se apenas de permitir que a nossa atenção mude de qualidade.
Essas breves atividades não disputam o nosso foco. Elas apenas nos convidam a estar presentes em uma experiência viva, afetiva e sensorial.
A medicina do estilo de vida ensina que saúde raramente depende de grandes gestos. Ao contrário, ela é construída pela soma de pequenas escolhas repetidas diariamente. Talvez seja hora de pensar na atenção da mesma maneira. Em vez de imaginar que vamos recuperar (ou restaurar) a atenção com um detox digital, podemos cultivá-la nessas pequenas doses distribuídas ao longo do dia.
A proposta de micropausas analógicas que eu convido você a fazer não é você se afastar da tecnologia, até porque é praticamente impossível. O que eu proponho é criar pequenos intervalos em que a mente possa simplesmente experimentar o mundo físico ao seu redor. Se a saúde geralmente nasce de coisas pequenas, a atenção não é exceção.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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