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Por Que Fazer uma Lista do Que Você Não Quer Fazer

Criar uma lista do que você decide não fazer pode ajudar a estabelecer limites, reduzir o estresse e abrir espaço para o que realmente importa

3 min

Há muitos anos, uso uma listinha diária para organizar o meu dia. Quase sempre, ela é enorme, e eu me esforço para dar conta de tudo para que, no dia seguinte, além das novas atividades, eu não precise arrastar as que não foram cumpridas.

Não sei se é a idade falando ou se passei a me relacionar com as coisas de outro jeito, mas comecei a perceber que, nessa lista gigante de compromissos e tarefas, havia muita coisa que eu cumpria quase que por obrigação. Sendo honesto, ali havia coisas que eu simplesmente não queria fazer.

Foi ao refletir sobre isso que me dei conta de que não quero viver checando a minha lista a cada cinco minutos. Não quero perder tempo tentando preencher espaços vazios do dia. É por isso que a lista das coisas que não queremos fazer talvez diga sobre a vida que desejamos construir, uma vida com um pouco mais de espaço para realizar o que realmente temos vontade.

Porém, essa conta não é apenas de vontade. Viver sempre disponível para tudo o que nos aparece pela frente mantém o corpo num estado de alerta que ele não consegue sustentar por muito tempo. Uma hora ele vai reclamar. Não por acaso, o manejo do estresse é um dos pilares da medicina do estilo de vida. Nesse sentido, dizer não a uma tarefa é também uma decisão em prol da própria saúde.

É claro que não dá para riscar tudo e só viver do que dá prazer, mas administrar o tempo é também administrar renúncias. Não cabe tudo em um dia, assim como não cabe qualquer coisa em um dia. Provavelmente não cabe qualquer parceria, qualquer convite, qualquer projeto. No fim, qualidade de vida depende tanto dos “nãos” quanto dos “sins”.

Com o tempo, essa lista deixou de ser só um instrumento para organizar limites e virou uma espécie de exercício de autoconhecimento. Nela também passaram a caber coisas como não querer deixar de brincar com os netos para olhar o celular, não querer viver respondendo mensagens durante o jantar e não querer transformar descanso em culpa.

Continuo com a minha listinha de sempre, só que agora, ao lado dela, mantenho outra, menor, das coisas que resolvi não fazer ou não aceitar. Tenho encarado essa nova lista com um alívio que a primeira nunca me deu. Talvez isso não sirva para todo mundo, mas se você anda com a sensação de que o seu dia não cabe mais em você, quem sabe seja a hora de fazer a sua lista.

*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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