O leite está em alta, e não apenas no seu café com leite. Conhecidas como notas “lactônicas” na terminologia da perfumaria, as notas de leite deixaram de desempenhar um papel secundário e estão se consolidando como um dos acordes mais modernos e evocativos da perfumaria, sendo cada vez mais exploradas por perfumistas.
O momento não é por acaso. A categoria de fragrâncias passa por um renascimento. Segundo a Future Market Insights, o mercado de fragrâncias gourmand foi avaliado em US$ 32,55 bilhões (R$ 180,7 bilhões na cotação atual) em 2025 e deve alcançar US$ 55 bilhões (R$ 305,3 bilhões) até 2036, com crescimento anual composto (CAGR) de 3,8% a partir de 2026.
O relatório também aponta uma mudança em direção a fragrâncias que despertam sensação de conforto, indulgência e conexão emocional. Hoje, as fragrâncias gourmand já não são definidas apenas por notas açucaradas ou que lembram sobremesas. Em vez disso, a categoria evoluiu recentemente para algo mais sofisticado, combinando acordes inéditos e texturas cremosas para criar perfumes emocionalmente complexos.
Barbara Herman, fundadora da Eris Parfums, contou que as fragrâncias gourmand fazem sucesso porque representam conforto e indulgência em um período de instabilidade. “Eles têm perfis fáceis de compreender, que remetem a prazeres simples”, afirmou.
Sua fragrância mais recente, Mother’s Milk, aprofunda essa ideia em um nível psicológico. “O desejo por doces, que faz parte do apelo das fragrâncias gourmand, parece um anseio infantil por conforto”, explica Herman. Ela descreve o leite materno como o “gourmand original”.
O comportamento do consumidor contemporâneo
Essa profundidade emocional também é destacada por Jun Lim, fundador da Borntostandout. Para ele, as fragrâncias gourmand são um reflexo do comportamento do consumidor atual.
“Depois de uma década marcada pela beleza clean, pelo minimalismo e pela contenção estética, as pessoas estão procurando fragrâncias que transmitam calor, familiaridade e emoção de forma direta”, afirmou Lim.
Segundo ela, “as fragrâncias gourmand entregam isso imediatamente. Não exigem sofisticação para serem apreciadas nem explicação para serem usadas. Em um mercado cheio de conceitos abstratos, uma fragrância que tenha cheiro de algo reconhecível leva vantagem”.
A própria criação de Lim, Dirty Milk, leva a categoria ainda mais longe, partindo da ideia de que o leite é o primeiro cheiro que um ser humano conhece. “Ele vem antes da linguagem, do paladar e da memória”, disse, acrescentando que isso representa uma base psicológica extraordinária para um perfumista construir uma fragrância.
“A indústria ignorou isso durante décadas porque o leite era considerado doméstico demais, pouco sensual e excessivamente próximo.” “O Dirty Milk existe porque leite limpo não desperta interesse. Leite limpo parece um produto de hotel. Nós queríamos um leite que transmitisse a presença de um corpo. Leite morno deixado tempo demais, concentrado a ponto de o chamarmos de ‘sujo'”, afirma Lim.
O novo consumidor de fragrâncias
Segundo Lim, uma mudança geracional está transformando a forma como os perfumes são usados e percebidos. “Para as gerações anteriores, perfume era algo usado para chamar a atenção de outra pessoa. Para os consumidores mais jovens, fragrância é algo usado para sentir que você é você mesmo.”
“As fragrâncias gourmand se encaixam perfeitamente nessa mudança. São íntimas, pessoais e usadas próximas à pele. A categoria é forte porque acompanha a maneira como as pessoas pensam sobre fragrâncias atualmente.”
A reinvenção das fragrâncias gourmand
“As fragrâncias gourmand não vão desaparecer em 2026, mas estão se tornando visivelmente mais refinadas”, afirma Jonny Webber, especialista em fragrâncias do PerfumeDirect.com. Os perfumes com notas de leite representam bem essa transformação. Em vez de uma doçura evidente, oferecem composições cremosas e nostálgicas, construídas sobre baunilha, almíscar e sândalo.
Até fragrâncias consagradas, como Black Opium, da YSL Beauty, demonstram essa evolução, misturando café e baunilha em um acorde suave, quase como um latte. “É um bom exemplo de como as fragrâncias gourmand estão evoluindo para algo mais versátil e cheio de nuances, em vez de simplesmente muito doce”, afirma.
Jana Müller, gerente sênior de criação de fragrâncias da Luzi em nome da Electimuss, observa que até a própria baunilha está se tornando mais sofisticada. “Ela está deixando de ser apenas doce para integrar composições que incorporam facetas vegetais incomuns, além de nuances minerais, lácteas e cumarínicas, semelhantes à fava-tonca.”
“No último ano, as fragrâncias gourmand ficaram extremamente comestíveis e assumidamente doces, com inspirações divertidas como biscoitos Oreo ou cheesecake de morango”, afirma. Segundo Müller, a próxima etapa será uma migração para interpretações mais elegantes e refinadas.
Exemplos dessa nova categoria incluem Slice of Heaven, da Dossier, uma fragrância macia, profunda e sedutora; Il Lanificio, da Zegna, uma fragrância doce e acolhedora com notas de lã crua; e Mercurial Cashmere Extrait de Parfum, da Electimuss, uma interpretação leve, porém esfumaçada, com notas aveludadas e amanteigadas.
Ao mesmo tempo, formatos mais acessíveis, como os body sprays, também aderiram à tendência. Produtos como Super Milk, da Lush, com um toque de limão, e SO…? Delish Matcha Macadamia, que combina leite e um delicado toque de violeta, mostram como os acordes lácteos estão entrando na rotina diária de quem usa fragrâncias.
O futuro das fragrâncias gourmand
Daqui para frente, espera-se que as fragrâncias gourmand continuem sendo um dos pilares da perfumaria, mas com complexidade cada vez maior. Jana Müller afirma que o desafio será reinventá-las por meio de combinações inesperadas e novos pontos de vista. L’Entrepiste Dawn Whispers, por exemplo, é uma fragrância de almíscar com notas de leite de avelã e madeira, criando uma experiência olfativa bastante marcante.
No segmento das fragrâncias gourmand frutadas, as casas de perfumes passaram a explorar frutas incomuns ou pouco conhecidas, não apenas pelo aroma, mas também pelo potencial narrativo que oferecem. Os primeiros perfumes gourmand eram claramente “comestíveis”, lembrando sobremesas carregadas de baunilha, caramelo e açúcar.
Embora essas fórmulas continuem populares, elas estão evoluindo para incorporar sabores, frutas e flores pouco usuais. Entre os exemplos estão Kayali Eden Plush Pear, um gourmand doce, porém inesperado, e Rose Chocolat, da Le Monde Gourmand, uma fragrância extremamente discreta, com efeito de segunda pele.
O novo gourmand
Jun Lim explica que a categoria está deixando para trás a doçura literal e entrando em um território mais abstrato. “Arroz. Iogurte. Leite aquecido por tempo demais. Conhaque no hálito de alguém”, diz.
“O novo gourmand não é aquilo que você come. É aquilo de que você se lembra de ter comido, ou com quem você estava quando comeu.”
Essa direção conceitual dialoga com pioneiros como o icônico Angel (1992), de Thierry Mugler, que redefiniu a perfumaria gourmand por meio de contrastes marcantes. Barbara Herman descreve a fragrância como uma criação que, em vez de remeter diretamente a uma sobremesa ou bebida específica, apresentava uma “maravilhosa overdose de patchouli”.
Hoje, o trabalho mais interessante acontece justamente no limite entre conforto e desconforto. Jun Lim afirma que notas como leite, arroz, iogurte e até acordes levemente fermentados vêm sendo explorados por sua complexidade emocional. “Doçura sem tensão está cada vez mais difícil de usar. Já a doçura com tensão parece representar o futuro”, afirma.
Publicado originalmente em Forbes EUA