Uma das destilarias imperdíveis da Escócia também figura como uma das mais enigmáticas. Para deixar claro, a Loch Lomond não trabalha para cultivar um ar de mistério. O material de marketing da empresa é bastante transparente; ao conversar com a equipe, os funcionários mostram disposição para detalhar qualquer etapa do processo produtivo.
No entanto, a destilaria localizada nas Highlands ainda representa um pequeno quebra-cabeça, ao menos para muitos consumidores norte-americanos. A empresa fabrica alguns dos uísques mais variados, fascinantes e saborosos da Escócia.
Compreender a complexidade da operação parece uma tarefa mais adequada para uma reunião técnica do que para uma conversa informal. O mistério percebido existe, em parte, pelo fato de a Loch Lomond não oferecer visitas guiadas ao público.
Trata-se de uma fábrica projetada com o objetivo direto de produzir excelentes uísques de diversos tipos, de modo que reservar espaço para turismo não fazia parte dos planos originais.
O avanço do interesse global

Entretanto, no universo do uísque, não existem segredos guardados por muito tempo. A Loch Lomond segue expandindo gradualmente a base de apreciadores no Reino Unido e nos Estados Unidos, acompanhada pelo interesse crescente pelos bastidores de sua produção.
Para compreender melhor a história e o funcionamento da unidade, Gary Mills, gerente de experiência do visitante e embaixador da marca no Loch Lomond Group, detalhou a operação. Mills atuou anteriormente como gerente de marca da Loch Lomond e das destilarias irmãs Glen Scotia e Littlemill. A conversa trouxe dados esclarecedores sobre a Loch Lomond, uma potência silenciosa na elaboração de bebidas singulares.
A história da destilaria Loch Lomond

As operações contemporâneas da Loch Lomond resultam diretamente de sua trajetória histórica. A destilaria atual foi fundada em meados da década de 1960, em uma parceria estabelecida entre os proprietários da Littlemill Distillery e da Barton Brands.
As instalações em Alexandria, uma antiga fábrica de tinturaria, ficam a cerca de 16 quilômetros de Littlemill e a 35 minutos de Glasgow, na margem norte do rio Leven, posicionando a empresa como a destilaria mais ao sul das Highlands.
Inicialmente, a Loch Lomond foi projetada para expandir a capacidade de produção além do limite de Littlemill, fabricando uísque de malte com alambiques de coluna reta pouco comuns, estilo utilizado anteriormente na unidade irmã.
O cenário mercadológico adverso levou ao fechamento temporário da unidade em 1984. No ano seguinte, o empreendimento foi adquirido por um grupo liderado por Sandy Bulloch, da Glen Catrine Bonded Warehouse Ltd. Segundo Mills, Bulloch transformou profundamente a Loch Lomond.
O objetivo central consistia em elaborar praticamente todos os estilos regionais de Scotch em uma única instalação, permitindo a produção de uma ampla gama de blenders sem a necessidade de recorrer a fornecedores externos. Mills define a estrutura resultante como uma espécie de “fábrica integrada de blended Scotch”.
A expansão e a estrutura moderna

Replicar o estilo de uísque de malte de Campbeltown permaneceu um desafio complexo, exigindo alambiques mais baixos e largos para obter um destilado denso e oleoso. Por esse motivo, em 1994, o grupo de Bulloch adquiriu a Littlemill e a Glen Scotia, sediada em Campbeltown. Em conjunto, o trio de destilarias passou a cobrir todas as demandas do portfólio de bebidas.
A capacidade operacional cresceu em 1994, quando a Loch Lomond instalou alambiques contínuos voltados à produção de single grain. Na época, a empresa era a única destilaria escocesa a elaborar uísques de malte e de grãos no mesmo local.
No mesmo ano, inaugurou sua tanoaria própria, figurando entre as quatro únicas destilarias escocesas modernas a contar com essa estrutura interna.
Atualmente, a Loch Lomond, a Glen Scotia e a Littlemill (demolida em 2004, mas que ainda lança estoques raros ocasionalmente) pertencem ao Loch Lomond Group, subsidiária da gestora privada de investimentos asiática Hillhouse Capital Group.
Equipamentos e inovação em single grain
Após diferentes fases de expansão, a destilaria opera com 11 alambiques:
- Seis alambiques de coluna reta (três pares)
- Um par de alambiques tradicionais com pescoço de cisne, instalados em 1998
- Uma coluna de destilação para a elaboração de single grain inovador feito integralmente de malte
- Duas colunas de destilação destinadas a outras variedades de single grain
Embora os alambiques de coluna reta sejam chamados de “alambiques Lomond”, tratam-se de um modelo híbrido. No pescoço da coluna existem placas de retificação, sendo uma placa no alambique de lavagem e 17 no de destilação final, garantindo controle preciso sobre a bebida e um teor alcoólico superior ao dos modelos convencionais.
Mills relata que essa configuração permite à fábrica elaborar 11 estilos distintos de destilado novo, sendo 10 à base de malte e um de grãos.
Conforme a legislação vigente, oito desses estilos enquadram-se como single malts. A variação entre os destilados decorre do uso de cortes diferenciados, somado à utilização de malte turfado e não turfado. A produção anual da fábrica oscila entre 3 e 5 milhões de litros de uísque de malte.
A nona linha refere-se ao single grain tradicional, composto por 90% de trigo e 10% de cevada maltada. A destilaria registra uma produção anual aproximada de 20 milhões de litros dessa modalidade.
Produção exclusiva e experimentação técnica

Os dois últimos estilos figuram como os mais específicos: destilados de malte elaborados em coluna de cobre, feitos com receita 100% de cevada maltada nas variações turfada e não turfada. O destilado sai do alambique com graduação alcoólica entre 80% e 85%, ante a média padrão de 94%.
Apesar de ser produzido em uma única unidade a partir de cevada totalmente maltada, o produto não pode receber a denominação de single malt desde a atualização regulatória do Reino Unido em 2009, que exige a destilação em alambiques de cobre tradicionais.
Essa bebida, única entre os produtores escoceses, integra a composição dos rótulos blended da fábrica. Em versão pura, é engarrafada como single grain sob a marca Grainstorm. Ao empregar fermentação sem grãos e destilação em coluna, compartilha características com rótulos da japonesa Nikka, da inglesa Copper Rivet e da norte-americana Triple Eight Distillery.
Os rótulos, com preços entre US$ 30 e US$ 35 (R$ 153 a R$ 178,50, segundo a cotação atual), oferecem um perfil sensorial distante dos uísques single grain tradicionais. A linha Grainstorm registra aceitação expressiva na África do Sul, acompanhada de planos para ampliar o alcance em outros mercados.
Além da versatilidade de alambiques e receitas, a destilaria testa parâmetros adicionais. A fermentação padrão dura longas 92 horas, o que acentua notas frutadas, mas a equipe avalia durações variadas. As leveduras também atuam como elemento de diversificação: além do fermento cervejeiro tradicional, a fábrica produz bebidas utilizando leveduras de Chardonnay, Champagne, Sauvignon e cerveja belga.
Tanoaria e envelhecimento

A tanoaria própria garante uma vantagem expressiva no ajuste de aromas e sabores durante a maturação. “Por termos a tanoaria nas instalações, nosso Master Blender, Michael Henry, pode encomendar seis barris de tosta intensa e recebê-los imediatamente”, relata Mills à Forbes.
“Caso dependêssemos de uma empresa externa, esse pedido levaria meses ou ficaria para o ano seguinte. Ter essa agilidade interna possui um valor incalculável”.
A Loch Lomond conta com nove tanoeiros, responsáveis pela restauração de 20 mil a 30 mil barris por ano. Os barris de ex-bourbon vêm de produtores norte-americanos como Heaven Hill, Wild Turkey e Jim Beam.
O setor aplica um processo de restauração que permite a reutilização das barricas por até nove ciclos, número superior à média do setor, fixada em três usos. A camada queimada residual é removida com escovas de aço rotativas, e o interior recebe uma nova tosta com chamas de propano.
No total, a Loch Lomond administra cerca de 500 mil barris, distribuídos por 28 armazéns próprios e instalações adicionais.
Recomendações de degustação
Para o mercado norte-americano, a destilaria disponibiliza dois rótulos principais.
“As expressões centrais distribuídas nos Estados Unidos são os single malts de 12 e 18 anos, por expressarem o perfil clássico da Loch Lomond: notas frutadas, doçura de mel e defumação suave”, destaca Mills.
Outros rótulos recomendados incluem:
- Loch Lomond Inchmurrin 12 Anos Single Malt uísque: perfil frutado e leve, inspirado no estilo Lowland, com notas de frutas de pomar e grama fresca.
- Loch Lomond Inchmoan 12 Anos Single Malt: indicado para apreciadores de uísques turfados. A bebida combina três estilos de destilados turfados, explorando nuances picantes, medicinais e defumadas.
Assim como o rótulo padrão de 12 anos, as edições Inchmurrin e Inchmoan passam por maturação exclusiva em barris de ex-bourbon.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com