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Esta Parte da França Tem Alguns dos Vinhos Mais Extraordinários da Europa

Para além dos rótulos consagrados, o Rhône Sul revela pequenos produtores familiares, degustações subterrâneas e o melhor da gastronomia no interior da França

8 min

Fale do Vale do Rhône Sul para a maioria dos apreciadores de vinho, e o assunto vai direto para Châteauneuf-du-Pape, com seus famosos galets roulés, tintos marcados pela uva Grenache e séculos de prestígio. Essa fama é mais do que merecida.

Mas os viajantes que chegam a este canto do sul da França buscando apenas as denominações famosas perdem o lado mais interessante da história: os rótulos muitas vezes esquecidos da região. Nos vilarejos e estradas secundárias do Gard, Vaucluse e Ardèche, uma geração de pequenas propriedades familiares vem produzindo vinhos de personalidade e ambição de sobra, usando práticas sustentáveis e sem quase nenhuma fila na porta da vinícola.

O Vale do Rhône Sul produz vinhos há mais de 2.000 anos — uma história que remonta aos comerciantes gregos que plantaram vinhedos ao longo da costa mediterrânea, aprofundada por séculos de viticultura romana, pela influência papal quando Avignon foi a sede da Igreja Católica e por gerações de famílias de agricultores.

A região é definida em grande parte pelos seus vinhos Côtes du Rhône e Côtes du Rhône Villages e abrange dezenas de denominações (appellations), desde os conhecidos crus de Gigondas e Vacqueyras até vilarejos menos badalados como Sablet, Séguret e Signargues. Cada denominação oferece sua própria combinação única de solos, altitude e microclima, resultando em vinhos de personalidade ímpar.

Camille MeffreA denominação Côtes du Rhône (AOC) é estruturada em torno de uma hierarquia de qualidade

Comece pelo Gard, do outro lado do rio em relação a Avignon, onde a cooperativa Les Vignerons d’Estézargues produz há décadas alguns dos vinhos naturais mais acessíveis da região. O compromisso com a agricultura orgânica, intervenção mínima e a expressão individual de cada parcela dos produtores resulta em vinhos vivos, autênticos ao seu terroir, com preços honestos e que quebram o estereótipo de que vinho de cooperativa é de baixa qualidade.

Manter o alto padrão começa no vinhedo, segundo Anna Tyack, diretora de vendas da cooperativa. Cada viticultor produz uma cuvée de propriedade única a partir de parcelas cuidadosamente selecionadas, uma prática que eleva a qualidade geral da safra. “Como os vinhos dependem do clima e da safra, e nenhum aditivo é usado na vinificação, as uvas precisam estar em perfeitas condições para evitar desvios e defeitos no vinho pronto”, explica ela.

Logo na saída de Gigondas, em Séguret, o Domaine de Mourchon traz um olhar renovado para a vinificação do Rhône Sul. Pertencente a uma família escocesa, a propriedade produz vinhos a partir de vinhedos em altitudes elevadas, onde os solos de argila e calcário cinzento ajudam a preservar o frescor, apesar do sol forte da Provença.

A proprietária Kate McKinley destaca o Domaine de Mourchon Côtes du Rhône-Villages Séguret Grande Réserve 2020 como um dos rótulos emblemáticos do domínio. Elaborado com Grenache e Syrah vindas de vinhas velhas de 60 anos com baixa produtividade, ele passou dois anos estagiando em uma combinação de carvalho neutro e tanques tradicionais de concreto.

“O vinho tem tudo o que se espera de um tinto de alto nível do Rhône Sul”, afirma McKinley, citando notas de frutas maduras, garrigue, tapenade de azeitona preta, especiarias e uma estrutura tânica firme equilibrada pelo frescor vindo dos vinhedos mais altos da propriedade. O vinho garantiu um lugar na lista Top 100 da Wine Spectator em 2023 e atualmente faz parte da carta do estrelado L’Indienne, em Chicago.

No coração de Vaucluse, os villages perchés de Sablet e Séguret estão situados em um trecho da região vinícola que merece muito mais atenção do que costuma receber. O Domaine de Verquière, em Sablet, cultiva suas vinhas de forma orgânica há anos, produzindo cortes com predominância de Grenache que desafiam a ideia de que os tintos do Rhône Sul são pesados ou excessivamente manipulados.

Na vizinha Ardèche, o Mas de Libian oferece uma amostra de uma das vinícolas biodinâmicas pioneiras da França. Sob o comando de Hélène Thibon, que introduziu a agricultura biodinâmica na propriedade em 2004, a vinícola pertence à família Thibon desde 1670. Muitos dos vinhedos de solo argilo-calcário ainda são arados manualmente com cavalos de tração, refletindo um compromisso profundo com o cultivo tradicional e sustentável.

O Vignobles Simian pertence e é administrado pela família Serguier desde o final do século XIX. A vinícola utiliza até mesmo vinhas centenárias que remontam a 1880 em seus vinhos tintos mais nobres. A propriedade abrange três denominações de renome — Châteauneuf-du-Pape, Massif d’Uchaux e Côtes du Rhône –, cultivando cerca de 13 variedades de uva para alcançar a complexidade e o frescor aromático ideais.

Já o Domaine Rouge Bleu, localizado perto de Sainte-Cécile-les-Vignes, é conhecido pelo cultivo de vinhas velhas de baixo rendimento, incluindo a rara uva Carignan. Seu vinho carro-chefe, o Origine, feito 100% com Carignan, destaca a profundidade e a personalidade que vinhas antigas conseguem entregar.

Rouge BleuRouge Bleu é um dos poucos vinhedos da região que cultiva a uva Carignan.

Uma das experiências vinícolas mais fascinantes da região é o tour gastronômico na Grotte Saint-Marcel d’Ardèche. Após um passeio guiado por imensas cavernas subterrâneas, os visitantes participam de uma degustação dentro da própria gruta, onde as condições naturais criam uma adega fresca e cheia de atmosfera. Produtores locais envelhecem rótulos selecionados a 80 metros abaixo da superfície usando um processo chamado maturação “vinolítica”. Dizem que o ambiente subterrâneo confere aos vinhos maior frescor, mineralidade e notas sutis de sous-bois (vegetação rasteira de floresta).

Além das degustações tradicionais, quem viaja pelo Vale do Rhône Sul pode aproveitar diversas experiências que oferecem um olhar mais aprofundado sobre os vinhedos, os produtores e as tradições locais.

A LePlan-Vermeersch, em Suze La Rousse, promove shows musicais sazonais, tours pela vinícola às segundas-feiras e microfestivais de música eletrônica ou rock, incluindo o festival ao ar livre LePlan Rocks e o semanal LePlan Lundi. Na Fontaine du Clos, um “safári pelos vinhedos” leva os visitantes desde o viveiro de mudas até cada etapa da vinificação. Já o Domaine de Galuval, em Cairanne, convida os hóspedes a serem enólogos por um dia em um workshop de corte comandado por um especialista, onde criam sua combinação ideal de vinhos das uvas Grenache, Syrah e Mourvèdre.

Adobe StockUm prato típico da região pode incluir bife ao molho demi-glace com legumes frescos da estação

A gastronomia no Vale do Rhône Sul é tão impressionante quanto seus vinhos. Os cardápios destacam azeites de oliva locais, ervas aromáticas, trufas, queijos artesanais e vinhos produzidos, muitas vezes, a poucos quilômetros do restaurante.

Em Avignon, o La Mirande oferece uma culinária francesa refinada em um ambiente elegante com vista para o Palácio dos Papas, enquanto o Restaurant Sevin combina menus-degustação contemporâneos com vistas panorâmicas a partir do seu terraço no rooftop. Logo na saída da cidade, o L’Oustalet, em Gigondas, conquistou uma estrela Michelin por pratos inspirados nos vinhedos e fazendas do entorno, acompanhados por uma carta de vinhos impecável do Vale do Rhône.

Em Châteauneuf-du-Pape, o La Mère Germaine recebe clientes há quase um século, servindo releituras sofisticadas de clássicos regionais e uma das seleções de vinhos locais mais impressionantes da região. Já o Le Bistrot de Villedieu exibe o melhor da cozinha provençal da estação no coração do charmoso vilarejo vinícola que lhe dá nome.

Domaine de MourchonO Domaine de Mourchon oferece pernoites em sua propriedade de 200 acres

Para uma escapada no campo, o Hôtel Crillon le Brave ocupa um conjunto de construções históricas de pedra belamente restauradas, com vista para o Mont Ventoux. Seus 34 quartos e suítes — muitos com terraço privativo — oferecem vistas panorâmicas para os vinhedos e olivais, enquanto a estrutura inclui spa, piscina aquecida ao ar livre, restaurante provençal e bicicletas cortesia para explorar os vilarejos e campos de lavanda nos arredores.

Diversas vinícolas também oferecem hospedagem própria, como o Domaine de Mourchon. O refúgio de luxo da propriedade, o Mas de Mourchon, fica situado entre 200 acres de vinhedos, olivais e áreas arborizadas, contando com piscina com borda infinita, pool house com sauna, quadra de tênis e terraços sombreados para refeições ao ar livre.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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