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Vinho Faz Bem ou Mal? A Resposta entre Riscos Biológicos e Valor Social

Uma análise científica examina o impacto das bebidas alcoólicas, equilibrando os riscos oncológicos e os elementos de convivência à mesa

10 min

Durante décadas, a relação entre vinho e saúde foi apresentada por meio de duas fórmulas opostas. De um lado, a taça de vinho tinto como componente benéfico da dieta mediterrânea, capaz de proteger o coração graças aos polifenóis. Do outro, o álcool considerado exclusivamente uma substância tóxica e cancerígena. As duas interpretações contêm elementos verdadeiros, mas observam o problema a partir de perspectivas diferentes e, sobretudo, atribuem o mesmo peso a evidências científicas que não têm a mesma solidez.

O ponto de partida é claro. O etanol presente no vinho é classificado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, a Iarc, como cancerígeno comprovado para seres humanos. O consumo de bebidas alcoólicas está causalmente associado a pelo menos sete tipos de câncer, entre eles os de mama, colorretal, fígado, esôfago, boca, faringe e laringe.

Segundo uma das mais importantes estimativas internacionais, publicada na The Lancet Oncology, em 2020 o consumo de álcool foi responsável por cerca de 741 mil novos casos de câncer no mundo, equivalentes a mais de 4% de todos os diagnósticos oncológicos. A maior parte desses casos está ligada a níveis elevados de consumo, mas uma parcela, estimada em mais de 40 mil casos de câncer, também foi atribuída a níveis inferiores ou iguais a aproximadamente 10 gramas de álcool por dia, aproximadamente a quantidade contida em uma pequena taça de vinho.

Dizer que “não existe uma dose segura”, no entanto, exige uma ressalva. Isso não significa que uma taça ocasional produza o mesmo dano que uma garrafa por dia. Significa que, do ponto de vista oncológico, não foi identificada uma quantidade abaixo da qual o risco se torne matematicamente zero. O risco aumenta conforme a dose, a frequência e a duração da exposição.

Os estudos que associam o vinho a efeitos favoráveis

Ao lado das evidências oncológicas, existem estudos que identificaram possíveis efeitos positivos do consumo moderado de vinho, sobretudo no sistema cardiovascular e em alguns parâmetros metabólicos. Um dos mais citados é o estudo Cascade, um ensaio randomizado realizado com 224 pessoas com diabetes tipo 2 que não tinham o hábito de beber. Durante dois anos, os participantes consumiram, no jantar, vinho tinto, vinho branco ou água, dentro de uma dieta mediterrânea controlada.

No grupo que bebia vinho tinto, foi observado um aumento médio do colesterol HDL de cerca de 2 miligramas por decilitro, acompanhado de uma pequena melhora em outros indicadores lipídicos. São resultados interessantes, porque derivam de um estudo experimental e não apenas da observação de hábitos de vida.

A limitação é que o estudo avaliava principalmente biomarcadores. Um valor melhor de HDL não equivale automaticamente a um número menor de infartos, acidentes vasculares cerebrais ou mortes. Além disso, 224 pessoas acompanhadas durante dois anos representam uma amostra pequena demais e um período curto demais para avaliar doenças que se desenvolvem ao longo de décadas, como o câncer.

Outra linha de pesquisa envolve os polifenóis, substâncias presentes sobretudo no vinho tinto e nas uvas. Alguns estudos mostram efeitos favoráveis sobre a função vascular, a pressão arterial e os processos oxidativos. No entanto, experimentos realizados com vinho sem álcool produziram, em alguns casos, resultados iguais ou até melhores que os obtidos com vinho contendo álcool.

Esse elemento muda a interpretação. Se o efeito favorável permanece após a retirada do etanol, o possível benefício provavelmente deriva do componente fenólico da uva, e não do álcool. Esses mesmos compostos, além disso, podem ser consumidos por meio de frutas vermelhas, uvas, romã, cacau, chá, azeite extravirgem e outros alimentos de origem vegetal.

A controversa proteção cardiovascular

Muitos estudos observacionais mostraram historicamente a chamada curva em J: os abstêmios apresentariam um risco cardiovascular ligeiramente superior ao dos consumidores moderados, enquanto o risco aumentaria de forma acentuada entre os que bebem muito. Algumas grandes revisões de estudos efetivamente associaram o consumo moderado a uma redução da mortalidade cardiovascular estimada, de modo geral, entre 10% e 20%. O problema está na interpretação causal.

Os consumidores moderados de vinho muitas vezes constituem uma população específica. Em média, podem ter renda mais alta, maior escolaridade, alimentação mais equilibrada, melhor acesso à prevenção, maior prática de atividade física e um consumo associado principalmente às refeições. Todos esses fatores reduzem o risco cardiovascular independentemente do vinho.

A comparação com os abstêmios também pode ser distorcida. O grupo dos abstêmios inclui, por vezes, ex-consumidores que pararam de beber por problemas de saúde, uso de medicamentos ou histórico anterior de consumo problemático. Esse fenômeno é chamado de “sick-quitter bias”, ou viés do ex-bebedor doente: a pior condição de saúde do grupo de controle pode fazer com que o consumo moderado pareça protetor.

Uma meta-análise publicada na JAMA Network Open, baseada em mais de 4,8 milhões de participantes, mostrou que, após a correção de alguns desses erros metodológicos, a redução da mortalidade entre consumidores de níveis baixos ou moderados deixava de apresentar significância estatística. Já os níveis mais altos de consumo continuavam claramente associados a um aumento da mortalidade. A conclusão mais prudente, portanto, é que uma possível proteção cardiovascular continua sendo objeto de debate, enquanto a relação causal entre álcool e alguns tipos de câncer é muito mais sólida.

O ponto esquecido: saúde não é apenas bioquímica

Reduzir o vinho apenas à presença de etanol, no entanto, não descreve integralmente a forma como ele é consumido nem o significado que assume na vida das pessoas. O conceito moderno de saúde também inclui bem-estar psicológico, qualidade das relações, sentimento de pertencimento, integração social e satisfação com a vida. Esses elementos não pertencem apenas à sociologia: foram estudados com métodos epidemiológicos, psicológicos e biológicos.

Uma meta-análise que reuniu 148 estudos e mais de 300 mil participantes mostrou que pessoas com relações sociais sólidas tinham uma probabilidade de sobrevivência cerca de 50% maior em comparação com aquelas socialmente isoladas. A dimensão da associação era comparável à de alguns fatores de risco tradicionais importantes.

O bem-estar psicológico também parece exercer um papel. Diversas pesquisas associaram uma maior satisfação com a vida a níveis mais baixos de cortisol, menos sinais de inflamação e mortalidade ligeiramente menor. Esses estudos não demonstram que ser feliz torne uma pessoa imune a doenças. Indicam, porém, que estresse crônico, isolamento e sofrimento psicológico também influenciam os processos biológicos. É dentro desse quadro que o vinho assume uma dimensão adicional.

O vinho deixa as pessoas felizes?

Alguns estudos tentaram medir diretamente a relação entre álcool, humor e socialização. Uma análise realizada com mais de 30 mil pessoas e mais de dois milhões de registros coletados por meio de um aplicativo mostrou que, durante o consumo de álcool, o nível de felicidade relatado aumentava, em média, quase quatro pontos em uma escala de zero a cem. O efeito existia, mas ficava limitado ao momento do consumo. No longo prazo, beber não estava associado a uma maior satisfação com a vida.

Outro experimento controlado envolveu 720 consumidores sociais de bebidas alcoólicas, divididos em pequenos grupos. Os participantes que recebiam uma bebida alcoólica sorriam mais, interagiam mais e demonstravam um sentimento mais forte de coesão em comparação com aqueles que recebiam um placebo ou uma bebida sem álcool. Esses resultados indicam que o álcool pode facilitar temporariamente a socialização e reduzir algumas inibições. Não demonstram, porém, que produza felicidade duradoura ou proteja contra doenças.

A diferença entre prazer imediato e bem-estar duradouro é essencial. A felicidade estudada pela epidemiologia costuma estar relacionada a vínculos sólidos, sentido de propósito, autonomia, estabilidade emocional e satisfação existencial. A euforia temporária produzida por uma substância não é equivalente.

A convivência pode importar mais que o conteúdo da taça

O ponto mais interessante do ponto de vista científico pode, portanto, não ser o vinho em si, mas o contexto no qual é consumido. Uma taça durante uma refeição compartilhada faz parte de um sistema mais amplo que envolve ritual, conversa, alimentação, tempo dedicado aos outros e pertencimento cultural. Esses componentes são características centrais da dieta mediterrânea, muitas vezes descrita de forma inadequada como uma simples lista de alimentos.

A dieta mediterrânea também é uma estrutura social: regularidade das refeições, sazonalidade, comida preparada em casa, consumo lento e compartilhamento da mesa. Quando os estudos observam melhor saúde entre consumidores moderados de vinho, parte do resultado pode decorrer desse conjunto de comportamentos.

O vinho pode ter um papel na facilitação da convivência, mas o benefício provavelmente pertence à relação, e não necessariamente ao etanol. Isso não torna o valor do vinho menos real. Apenas o coloca no plano correto: o cultural, sensorial e social, separado do farmacológico.

Duas verdades que podem coexistir

A pesquisa permite atualmente sustentar duas afirmações ao mesmo tempo. A primeira é que o etanol acarreta um risco biológico documentado, dependente da dose e particularmente relevante para determinados tipos de câncer. Desse ponto de vista, reduzir a quantidade e a frequência do consumo reduz o risco.

A segunda é que a saúde humana também depende da qualidade das relações, do prazer, da integração social e da capacidade de atribuir significado às experiências. O vinho pode participar dessas dimensões, sobretudo quando é consumido lentamente, durante as refeições e em um contexto de compartilhamento. A segunda verdade não anula a primeira. Da mesma forma, a primeira não esgota completamente o significado humano e cultural do vinho.

A pergunta certa

Perguntar se o vinho “faz bem” ou “faz mal” obriga a dar uma resposta simples demais. O vinho não é um medicamento e não deveria ser promovido como instrumento de prevenção cardiovascular. Os possíveis benefícios observados nos estudos são modestos, muitas vezes indiretos e influenciados pelo estilo de vida. O risco oncológico do álcool, por outro lado, é real e sustentado por evidências causais.

Ao mesmo tempo, descrever o vinho apenas como uma solução de água e etanol elimina tudo aquilo que o diferencia de um consumo puramente farmacológico: território, agricultura, gastronomia, cultura, memória e sociabilidade. A posição cientificamente mais rigorosa consiste, portanto, em separar os diferentes níveis.

O álcool não se torna saudável porque é consumido com prazer. Mas o prazer, a convivência e as relações têm um valor para a saúde e para a vida humana que pode ser demonstrado. O vinho pode contribuir para esse contexto sem poder reivindicar um efeito terapêutico. A pergunta mais útil, então, não é se o vinho faz bem.

É qual quantidade de risco uma pessoa adulta e informada está disposta a aceitar em troca de uma experiência cultural, sensorial e social que considera significativa. É uma pergunta menos reconfortante, mas muito mais honesta. E permite, finalmente, falar de vinho, saúde e responsabilidade sem transformar a ciência em propaganda nem o prazer em culpa.

Publicado originalmente em Forbes Itália

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