O crédito para o agronegócio brasileiro entra em uma fase na qual produzir bem pode não ser suficiente para conseguir dinheiro nas melhores condições. Com recuperação judicial em alta, inadimplência pressionando o setor e eventos climáticos ampliando os riscos, os bancos e os investidores precisam avaliar a capacidade de produção e também como cada operação está protegida.
“O produtor reinveste 100% anualmente do que ele vai produzir. É muito risco mesmo”, afirma Monique Cardoso, superintendente de Sustentabilidade da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). Ela foi um das convidadas do Congresso Brasileiro do Agronegócio, da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que ocorreu em São Paulo na semana passada.
Julyana Yokota, diretora executiva e líder Setorial da S&P Global Ratings, Flavia Palácios, CEO da Opea Securitizadora e diretora da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima2) e Fabiana Perobelli, superintendente de Relacionamento com Clientes da B3, também defendem que o agronegócio brasileiro já dispõe dos instrumentos necessários para enfrentar esse ambiente de maior incerteza. Segundo elas, o desafio está em utilizá-los de forma integrada, aproximando crédito, seguros, mercado de capitais e governança corporativa.
A pergunta para o novo ciclo de crédito rural é menos sobre quanto dinheiro existe e mais sobre quanto custa convencer alguém de que o dinheiro será devolvido. No agro, essa resposta poderá depender cada vez mais de produção, patrimônio, garantias, informação e capacidade de sobreviver ao próximo choque climático. Isso porque o risco não desaparece, ele passa a ter de ser medido, protegido e, cada vez mais, precificado.
Essa discussão ocorre em um momento de deterioração das condições de crédito. No primeiro trimestre de 2026, o agronegócio registrou 474 pedidos de recuperação judicial, uma alta de 21,9% ante os 389 casos do mesmo período de 2025, segundo a Serasa Experian.
O dado vem acompanhado com a própria evolução dos saldos devedores do crédito rural, de acordo com o Banco Central. Em junho de 2022, de uma carteira de crédito agrícola de R$ 465,1 bilhões, 5,4% eram créditos problemáticos, R$ 25,2 bilhões. Em junho de 2026, a carteira chegou a R$ 880,3 bilhões, com 22,4% em créditos problemáticos, um valor de R$ 197,5 bilhões, segundo o Banco Central.
Mais recursos não significam o mesmo crédito para todos

O Plano Safra 2026/27 tem em sua carteita R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, sendo R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos. Para o Pronamp, estão previstos R$ 72,6 bilhões. Mas ele, definitivamente, já não responde ao volume e condições que o campo demanda.
“Precisamos pavimentar a estrada do mercado de capitais para torná-la mais acessível, independentemente dos percalços”, diz Fabiana, da B3. “A evolução do registro da Cédula de Produto Rural (CPR) traz novas garantias e nos permite falar a linguagem do produtor, criando instrumentos baseados em dados reais.”
A CPR movimentou R$ 205,2 bilhões na safra 2025/2026 e representou 43% do total concedido, consolidando-se como o principal veículo de financiamento do custeio agrícola. O movimento reforça uma mudança na origem dos recursos que financiam o campo, com maior participação de investidores privados e do mercado de capitais.
O clima e seguro além da lavoura
Outro desenho desse ambiente é que o Banco Central já trata os riscos climáticos como parte da agenda de estabilidade financeira. No Relatório de Estabilidade Financeira de maio de 2026, a instituição aponta o risco de crédito como o principal canal de transmissão dos riscos climáticos físicos e de transição para o Sistema Financeiro Nacional.
A pesquisa do BC mostra impactos de eventos climáticos principalmente sobre o crédito rural, com aumento da inadimplência. Mas o relatório ressalva que não é possível calcular quanto da inadimplência decorre exclusivamente do clima. O fato é que o risco climático já é reconhecido pelo sistema financeiro, mas isso não significa que um produtor mais exposto necessariamente pague uma taxa maior. A questão é descobrir se essa informação já chegou à precificação.
Monique defende que o Brasil possui uma base relevante de informações climáticas, mas precisa transformá-las em decisões de adaptação mais rápidas. “A única ferramenta não pode ser o calendário agrícola de plantio”, afirmou. Ela também citou os seguros paramétricos, que usam gatilhos climáticos para liberar indenizações de forma mais rápida e com menor risco de fraude.
Para Julyana, “a inteligência artificial e a análise de dados tornaram esse tratamento de informações muito mais rápido e acessível.” Segundo ela, o avanço permite criar padrões e usar dados como ferramenta de planejamento e orçamento.

No caso do seguro, apesar de ser mais uma incógnita no planejamento do produtor rural e do sistema financeiro, ele deve entrar de vez no planejamento da atividade. Monique, da CNSeg, defende que o seguro seja incorporado à arquitetura de financiamento do agronegócio.
“O seguro é uma ferramenta muito potente para gestão e mitigação de risco”, disse. Na visão da executiva, se o instrumento estiver presente nas operações de crédito ou em carteiras de recebíveis como CRA, a proteção da produção pode aumentar a confiança do investidor. A pergunta é quanto essa proteção vale para quem empresta dinheiro. O seguro reduz a taxa, aumenta o limite ou diminui a necessidade de garantias?
Sim, a cobertura ainda está longe do tamanho do agro
Em 2025, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) beneficiou cerca de 42 mil produtores, cobriu 3,2 milhões de hectares, equivalente a 4,09% da área cultivada na safra 2024/2025 de 78,2 milhões de hectares e que ainda garantiu capitais de R$ 17,8 bilhões.
O próprio governo reconheceu que a disponibilidade de recursos ficou abaixo da demanda. Segundo o monitoramento oficial, o orçamento inicialmente aprovado para o PSR foi de R$ 1,06 bilhão, mas cerca de R$ 428 milhões foram cortados durante o exercício, deixando R$ 565 milhões disponíveis para aplicação direta. A insuficiência orçamentária foi apontada como uma das restrições para o alcance da meta de ampliação da cobertura. Hoje, a necessidade defendida pelo setor é de um seguro rural da ordem de R$ 4 bilhões.
Se o seguro protege contra parte do risco físico da produção, a governança atua sobre a capacidade do investidor entender onde está colocando seu dinheiro. “Governança e transparência têm um custo, mas elas servem para melhorar o acesso aos instrumentos que podem, no final, baixar o custo de produção e de financiamento”, afirma Julyana Yokota.
A executiva acrescenta que o seguro não altera o rating intrínseco da empresa, mas pode mitigar o risco de uma operação específica. Uma empresa pode manter o mesmo risco de crédito enquanto uma operação se torna mais protegida pela combinação de seguro, garantias e estrutura financeira.
À medida que o risco de crédito incorpora variáveis climáticas, ambientais e de governança, a capacidade do produtor de demonstrar como administra esses riscos pode ganhar importância. “Instrumentos como uma avaliação socioambiental bem-feita ajudam a baixar o custo do crédito de forma efetiva, criando um colchão de confiança complementar aos dados tradicionais”, diz Monique.
Isso não significa que um produtor segurado pagará menos juros ou que uma propriedade mais exposta ao clima necessariamente terá crédito mais caro. Os dados disponíveis não permitem estabelecer essa causalidade de forma geral. Mas, se o mercado financeiro passar a reconhecer economicamente essa proteção, o seguro poderá deixar de ser visto apenas como despesa para proteger a safra e passar a integrar a própria estrutura de financiamento. O mesmo vale para governança, transparência e dados.