Quando eram crianças, o trabalho do pai os levou a se mudar de um país para outro. Mudar de casa, de escola e até de idioma fez com que se tornassem cada vez mais unidos e engenhosos na hora de brincar. Com o passar dos anos, essa criatividade e proximidade se transformaram naturalmente em um projeto conjunto. Hoje, os quatro irmãos Sánchez André são sócios da cervejaria Malafama e da marca de pizzas Dos Orientales, empreendimentos que começaram como apostas e que hoje já totalizam uma centena de funcionários, crescimento constante, novas metas em andamento e um investimento combinado em torno de US$ 5 milhões (R$ 25,96 milhões na cotação atual). A identidade familiar está presente desde as origens.
O primeiro negócio do qual Mauricio (37 anos), Florencia (35), Francisco (34) e Guillermo (30) participaram juntos foi a Malafama. Toda a sua estética, desde o logotipo com a figura de um indígena até a identidade charrua e o próprio nome, nasceu inspirada em “Tabaré”, poema escrito por Juan Zorrilla de San Martín, tataravô dos irmãos. Essa mesma essência está presente no estabelecimento, que funciona ao mesmo tempo como bar e fábrica de cerveja, formato no qual foram pioneiros. Encontrar um espaço que reunisse todas as características que procuravam, em uma das regiões mais valorizadas, não foi fácil.
A história de como conseguiram isso mostra a energia e o carinho que todos dedicam à empresa. Essa dinâmica também aparece no dia a dia. Embora os irmãos tenham funções definidas, todos se envolvem com a mesma intensidade, o que produz um equilíbrio conjunto. Essa sintonia também pode ser percebida durante a entrevista à Forbes Uruguai, na qual cada um sabe quando falar e quando dar espaço ao outro para contribuir.
DA APOSTA AO PROJETO
Embora se aventurar na criação do primeiro empreendimento em conjunto tenha sido uma aposta, eles partiram de uma base sólida. “Quando começamos, a ideia era fazer cervejas para a Chivipizza, um restaurante que eu tinha em Punta del Este. Ao mesmo tempo, meu irmão Pancho tinha um bar de cerveja artesanal chamado Mala Junta. Ele, junto com Guillermo e nossos amigos da cervejaria Boar, praticou durante alguns anos”, conta Mauricio.
Desse período de testes surgiram receitas que rapidamente se tornaram as preferidas dos clientes. “Nossa cerveja era a que mais vendia em nossos bares e restaurantes”, acrescenta Guillermo. Essa validação foi o impulso para reunir todos os irmãos, pedir um empréstimo e investir em máquinas importadas de primeira qualidade.

Assim nasceu o projeto que hoje alcança uma produção entre 300 mil e 350 mil litros por ano. O número ganha dimensão quando comparado ao conjunto das cervejarias independentes do país, que produzem cerca de 1 milhão de litros por ano.
Nesse cenário, a Malafama concentra entre 30% e 35% do total e se posiciona como uma das empresas mais relevantes do segmento. Isso se soma a um crescimento constante de 10% ao ano, detalha Florencia, sustentado principalmente pelo verão, época do ano em que chegam a ter mais pedidos do que conseguem atender.
“Não nos consideramos uma cervejaria artesanal. Somos o que se conhece como ‘independente’ porque não fazemos parte de nenhum grande grupo econômico, mas nossos processos são iguais ou melhores que os industriais. Fazemos lotes menores, mas a tecnologia que usamos tem a mesma qualidade”, esclarece Francisco.
Sobre esse ponto, os irmãos fazem uma pausa e explicam que, atualmente, o mercado está dividido da seguinte forma: as cervejarias independentes representam 1% do total, outros 49% correspondem à Fábricas Nacionales de Cerveza (FNC) e os 50% restantes são de cervejas importadas.
“No ano passado foi a primeira vez em que as importadas superaram a produção nacional”, acrescenta Francisco. Por isso, todos os integrantes do segmento independente estão em conversas com o governo para conseguir a adoção de impostos de acordo com a escala de produção.
“Isso ajudaria a tornar a situação mais equilibrada. Além disso, o emprego gerado por uma cervejaria independente é três vezes maior. A Ambev (Companhia de Bebidas das Américas), por exemplo, tem 309 funcionários para produzir 49 milhões de litros. Nós, em conjunto, estamos distribuídos por 13 departamentos e geramos 200 empregos”, detalha.
INDEPENDENTES COM ESCALA
A concorrência com marcas que oferecem preços muito mais baixos é o principal obstáculo. Mesmo assim, os irmãos afirmam que o crescimento, embora mais lento, permanece constante e funciona como motor para impulsionar novas formas de inovação. Isso é, de fato, o que mais gostam de fazer: criar, experimentar, produzir novos produtos e observar como o mercado responde.
“A New England IPA, por exemplo, é uma das cervejas que mais vendem. Quando a criamos, no Uruguai não existia nenhuma outra igual ou parecida”, exemplifica Guillermo. Casos como esse mostram diariamente que o consumidor local não é tão tradicional quanto costuma ser considerado. “O uruguaio está se arriscando mais, está saindo mais pelo mundo, experimenta coisas e depois quer encontrá-las aqui”, destaca Mauricio.
De qualquer forma, eles concordam que o consumidor é muito exigente e rigoroso na hora de escolher. “Se você abrir um restaurante mais ou menos, ele não vai”, opina Francisco. Por isso, afirmam, atualmente existem muito menos cervejarias no país depois do boom anterior à pandemia. Hoje, dizem, permaneceram aquelas que conseguiram executar adequadamente seus projetos, com produtos de qualidade. Seguindo essa intenção de chegar a produtos de vanguarda, os irmãos foram os primeiros do segmento independente a oferecer cerveja em lata.
“Vimos isso em uma viagem aos Estados Unidos e aprendemos que assim ela se conserva melhor, não entra luz, ocupa menos espaço no lixo, não é perigosa”, explica Mauricio. Com essa mesma tecnologia e apoiados em uma tendência que cresce em todo o mundo, antecipam que a próxima inovação está a caminho.
COM SOTAQUE ITALIANO
Esse espírito criativo foi o coração da Dos Orientales, um empreendimento de pizzas que cresce e parece não ter limites. Além de conseguir uma boa receita, parte do sucesso da segunda marca esteve na ideia de vendê-las congeladas, mas sem perder o sabor. O objetivo é que as pessoas que as compram tenham um produto da melhor qualidade no momento em que o aquecem em seu forno.
Atualmente, a marca cresce, em média, entre 30% e 40% ao ano e está presente em mais de 100 pontos de venda, o que inclui tanto os principais supermercados do Uruguai quanto seu restaurante de 600 metros quadrados, que segue a mesma lógica inicial: um espaço para comer na frente e uma fábrica de pizzas nos fundos. Soma-se a isso um contrato recente com a Cencosud, que os levou a exportar seu produto para grandes redes varejistas da Argentina, contato que conseguiram com a ajuda da Uruguay XXI.
Essa expansão os motivou a viajar para a Itália para adquirir novas máquinas, com mais tecnologia, e a comprar uma nova fábrica de quase 3 mil metros quadrados destinada à produção das pizzas congeladas. O investimento total é de aproximadamente US$ 2 milhões (R$ 10,4 milhões).
“A pizza continuará sendo aberta à mão, manterá sua fermentação de 48 horas e todo o processo anterior à entrada no forno continuará igual, mas, com essa nova tecnologia que vem do país especialista nesse produto, o resultado será ainda melhor”, diz Francisco. “Com essa nova fábrica, nossa qualidade e nosso preço, tenho confiança de que podemos entrar nos mercados dos Estados Unidos e da Europa”, acrescenta Mauricio. De todo modo, esclarece que, por enquanto, a prioridade é a América Latina.
SAIR DO FORNO
Como em tantos outros casos, a Dos Orientales surgiu durante a pandemia. Em um momento em que as pessoas não saíam para tomar cerveja, os irmãos entenderam que a cerveja precisava chegar à casa delas. Se a montanha não vai a Maomé, como diz o ditado…
“Pensamos em vender por delivery a cerveja que já tínhamos em lata, mas acompanhada de alguma coisa a mais para estimular a compra”, explica Mauricio. “Dissemos: vamos experimentar uma boa pizza napolitana”, acrescenta. Assim, aceitaram o desafio de montar um novo negócio. No caminho encontraram Marco Balerio, um arquiteto entusiasta da pizza napolitana, que lhes ensinou seus segredos e passou uma semana na cozinha ajudando-os a fazer a melhor pizza que conseguissem. “Foi um boom. Para além do delivery, aqui no local se formavam filas para comprar”, recorda Francisco.
“Com a demanda aumentando e naquele momento da pandemia em que parecia que tudo estava melhorando, decidimos abrir, como projeto-piloto, um balcão de retirada nas torres World Trade Center. Seria uma nova marca, que não fosse a Malafama. Como a ideia era que trabalhassem um pizzaiolo e uma pessoa servindo cerveja, eram dois uruguaios, dois orientais”, explica. O entusiasmo foi tamanho que decidiram trazer um forno da Itália para que o cozimento fosse excelente. Mas não contavam com o fato de que os casos de coronavírus aumentariam a tal ponto que até o serviço de retirada seria afetado.
“Decidimos começar a vendê-las congeladas, mas de uma maneira que preservasse a mesma qualidade”, conta Mauricio. “Assim que sai do forno, em vez de ser servida, a pizza vai para um túnel de ultracongelamento, que permite congelá-la em menos de 20 minutos, mantendo suas propriedades. É um sucesso”, diz Guillermo.
Os irmãos concordam que essa experiência de empreender juntos foi o que lhes deu um propósito. “Tinha pensado em outro caminho, mas agora estou feliz. Aprendemos todos os dias, especialmente a confiar em nossa intuição, a confiar em nós mesmos”, afirma Florencia.
Publicado originalmente em Forbes Uruguai