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Balanço da Ambev (ABEV3) Aponta Alta da Cerveja no Brasil; “Estamos Dobrando a Aposta”, Diz CMO

Com a indústria em recuperação, companhia informa crescimento acima do mercado no acumulado do segundo e terceiro trimestres. Em entrevista exclusiva, Dani Waks detalha a estratégia de marketing, portfólio e inovação

11 min

A Ambev (ABEV3) encerrou os nove primeiros meses de 2026 com crescimento de 7,3% na receita líquida, 9,3% no EBITDA ajustado e 12,3% no lucro por ação ajustado. No terceiro trimestre, a receita líquida orgânica consolidada avançou 7,6% na comparação anual; o EBITDA ajustado cresceu 8,9%, com expansão de 0,4 ponto percentual na margem ajustada, e o lucro por ação ajustado subiu 15,4%.

É sobre esses resultados que a companhia apoia sua aposta na recuperação da cerveja no Brasil. Em entrevista exclusiva à Forbes, Dani Waks, CMO da Ambev, diz que a empresa vem investindo nas marcas em percentual de dois dígitos, o dobro do crescimento da receita, e pretende continuar ocupando diferentes ocasiões de consumo. “A gente é muito, muito, muito otimista com a categoria”, afirma. “Por isso que a gente fala que está dobrando a aposta.”

Os indicadores financeiros consolidados incluem as operações no Canadá, na República Dominicana, no Panamá, na Guatemala, no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Uruguai, no Paraguai e no Chile. No Brasil, a companhia informa que a indústria cervejeira cresceu 4% no terceiro trimestre e 1,3% na soma do segundo e do terceiro trimestres. No mesmo período acumulado, o volume de Cerveja Brasil da Ambev avançou 2,7%, acima da indústria.

A recuperação de 2026 vem depois de um período de queda nos volumes de cerveja da Ambev no Brasil. O volume cresceu 0,7% no primeiro trimestre de 2025, em linha com a indústria, mas recuou 8,9% no segundo trimestre e 7,7% no terceiro, sempre na comparação anual. No acumulado dos nove primeiros meses, a queda foi de 5,2%. A companhia associou o desempenho do setor a fatores como temperaturas mais baixas em ocasiões importantes para o consumo e pressão sobre a renda disponível. No segundo trimestre, junho respondeu por mais de 60% da queda de volume da Ambev no período.

A produção de cerveja declarada no Brasil foi de 15,69 bilhões de litros em 2025, 8,85% abaixo dos 17,21 bilhões de litros informados para 2024, segundo o Anuário da Cerveja do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Nesse contraste entre a queda dos volumes em 2025 e a recuperação apontada pela companhia em 2026, Waks situa a diferença entre o curto e o longo prazo. No terceiro trimestre deste ano, o volume de cerveja da Ambev no Brasil cresceu 0,5%. A empresa também informou ter registrado o quinto trimestre consecutivo de ganho de participação de mercado, em diferentes canais e segmentos.

“Quando você pega esse recorte de curto prazo, tem uma coisa mais conjuntural, tem uma questão de clima que afeta muito a indústria”, diz Waks. “O que eu quero dizer é que ela é mais passageira, não é estrutural.” Para o executivo, a perspectiva de longo prazo mostra um retrato diferente. “Quando você faz um recorte real de longo prazo, estamos falando de 10, 15 anos, a indústria de cerveja vem crescendo no Brasil.”

No consolidado do balanço divulgado hoje, o lucro líquido caiu de R$ 4,9 bilhões no terceiro trimestre de 2025 para R$ 4,4 bilhões no mesmo período de 2026. A Ambev atribui a redução à ausência de efeitos tributários não recorrentes registrados no ano anterior, incluindo impactos relacionados ao desinvestimento em Barbados. Já o lucro líquido ajustado cresceu 14,3%, também para R$ 4,4 bilhões.

Marketing e força das marcas

O investimento orgânico da empresa em marketing cresceu dois dígitos no terceiro trimestre e no acumulado do ano, segundo o balanço. O ritmo foi o dobro do crescimento da receita. Para Waks, a decisão de ampliar o investimento se apoia em três fatores: marcas fortes, um portfólio complementar e capacidade de expandir a categoria.

“A gente vem, nos últimos anos, liderando o crescimento”, afirma. “O nosso portfólio é muito complementar: a gente tem marcas no core, no high-end, no balance, que a gente chama de wellness, e no beyond.” Segundo ele, a Ambev vem ganhando participação nos espaços em que a categoria cresce.

O indicador que a companhia chama de power das marcas, ou brand equity, atingiu o maior patamar em cinco anos, de acordo com o balanço. Waks explica que a métrica é aferida pela Ipsos, em pesquisas com milhares de consumidores no Brasil, e busca medir a relação do público com as marcas. “A gente vê uma relação entre esse amor e o consumo”, diz. “O power é quase que o consumo do futuro.”

Segundo o CMO, o resultado não se concentra em uma única marca. Ele cita Original, Corona, Stella, Brahma e Budweiser entre as que vivem um momento especialmente forte na relação com os consumidores. Waks também afirma que o Brasil está entre os três países com maior relação de afeto com a cerveja entre os mercados que a empresa acompanha.

No segmento premium, o volume cresceu 19% no terceiro trimestre. A Ambev informa 21 trimestres consecutivos de expansão e cinco trimestres de liderança. Entre as marcas, Stella Artois Pure Gold avançou 195% na comparação anual, Corona cresceu mais de 13% e Original, mais de 27%.

Para Waks, o desafio é evitar que as marcas disputem a mesma ocasião e o mesmo consumidor. Ele descreve Corona como associada à desconexão, às férias e à praia; Stella, ao que chama de quiet luxury; Original, a uma identidade brasileira; e Michelob Ultra, ao universo do esporte e do bem-estar.

“Na grande média da população, a gente vê uma Stella um pouco mais feminina e um pouquinho mais 35+, com uma Michelob entre homem e mulher um pouquinho mais jovem”, afirma. Ele diz que Stella tem desempenho acima da média em jantares e ocasiões especiais, enquanto Michelob se destaca em momentos ligados a atividades físicas. “Mesmo com a Michelob crescendo 500%, a Stella Pure Gold não desacelerou. Cresceu 200%.”

O balanço registra altas de 478% para Michelob Ultra e 195% para Stella Pure Gold no terceiro trimestre. “Hoje, o Brasil é um dos top 3 mercados internacionais de Michelob Ultra no mundo, e é um produto que é muito novo no Brasil.”

Na visão de Waks, o apelo de Michelob está em combinar cerveja e bem-estar. Ele diz que a bebida tem teor alcoólico de cerveja, 80% menos carboidratos e sabor que permite ao consumidor manter hábitos como correr, treinar e seguir uma dieta. A marca também prepara experiências ligadas a esse posicionamento. No dia 7 de novembro, acontece em São Paulo, o Michelob Ultra Move Fast, planejado para o Pacaembu, com milhares de participantes, e DJs tocando. A dinâmica prevê grupos de dez pessoas, cada uma correndo 4,2 quilômetros, juntas, as distâncias somam uma maratona.

Wellness e novas ocasiões de consumo

O portfólio de wellness, que reúne cervejas sem glúten, com menos calorias ou com baixo ou nenhum teor alcoólico, cresceu 157% em volume no trimestre, de acordo com o balanço. Já o portfólio de cervejas zero álcool avançou 43%. Os números complementam os dados arredondados da apresentação inicial da companhia, que apontava crescimento superior a 157% em wellness e de cerca de 40% em zero álcool.

Waks diz que a categoria sem álcool mudou de papel: deixou de ser uma escolha restrita a ocasiões em que a pessoa não pode beber e passou a representar uma alternativa para outros momentos da semana. “Ela sai de uma lógica de restrição para uma lógica de adição, de complementaridade”, afirma. Ele cita Stella Pure Gold, Michelob Ultra, Corona Zero e Skol Zero Zero entre os produtos que, segundo ele, melhoraram a oferta da categoria.

A companhia também levou essa aposta à Spaten Pro, cerveja sem álcool com 10 gramas de proteína por lata de 350 mililitros. O lançamento foi concentrado no Zé Delivery, canal que permite testar a aceitação e observar como os consumidores incorporam o produto a novas ocasiões, como depois de exercícios físicos. “O Zé Delivery permite que a gente saiba muito rápido, permite que a gente aprenda muito rápido”, diz Waks.

Centro de Inovação dá suporte a novos produtos

Atualmente, 20% da receita da Ambev vem de marcas ou embalagens que não existiam no portfólio cinco anos atrás. Uma estrutura central nessa estratégia é o Centro de Inovação e Tecnologia (CIT) da companhia, no Parque Tecnológico da UFRJ, no Rio de Janeiro. Inaugurado em 2018, o espaço recebeu investimento de R$ 180 milhões e é um dos seis centros de inovação da AB InBev no mundo. O CIT foi eleito por dois anos consecutivos a principal unidade de inovação da companhia.

Foi no centro que a Ambev desenvolveu a Spaten Pro. O projeto levou cinco anos e passou por mais de 100 protótipos. Na estreia, no fim de agosto, a cerveja foi lançada em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de ser vendida pelo Zé Delivery.

O CIT reúne mestres-cervejeiros e profissionais de áreas como engenharia, química, microbiologia, biologia e desenvolvimento de embalagens. A estrutura inclui uma planta-piloto, laboratórios de análise e equipamentos usados no desenvolvimento de cervejas sem álcool. A equipe também realiza cerca de 50 pesquisas com consumidores por ano, com mais de 3 mil participantes.

Além da Spaten Pro, Waks cita Corona Zero, Skol Zero Zero, Stella Pure Gold, Michelob Ultra e Guaraná Fibras entre as inovações recentes. Para ele, desenvolver esses produtos exige coordenação entre marketing, vendas e os mestres-cervejeiros. “Você só investe quando acha que o amanhã vai te dar mais fruto que o hoje. E essa é a nossa tese.”

O executivo também usa o Chopp Lata como exemplo de como desenvolvimento de produto e distribuição se conectam. Por não ser pasteurizado, o produto exige cadeia refrigerada, operação que, segundo Waks, depende da estrutura do Zé Delivery. “É o produto perfeito para simbolizar absolutamente tudo o que a gente falou nesse nosso papo”, afirma.

Canais digitais e distribuição

O balanço informa que o Zé Delivery conecta a companhia a cerca de 27 milhões de consumidores por ano e que seu GMV , ovalor bruto das vendas realizadas na plataforma , cresceu 16%. A empresa usa o canal para oferecer garrafas retornáveis de marcas como Brahma, Skol e Antarctica, com retirada das embalagens em casa. Segundo Waks, isso reduz a necessidade de o consumidor ir a um bar para devolver as garrafas e facilita o acesso a uma opção de menor custo.

O executivo também cita uma promoção da Brahma ligada ao futebol. Com cadastro no Zé Delivery e indicação do time, consumidores puderam participar de uma ação que distribuiu centenas de milhares de packs de cerveja a torcedores do Flamengo. Para Waks, a plataforma permite transformar a relação entre marca e consumidor em ações individualizadas, conectadas a paixões como o futebol.

A BEES, plataforma B2B da Ambev, está presente em mais de 1 milhão de pontos de venda, segundo o balanço. Seu GMV cresceu 83%. A companhia afirma que o canal amplia a disponibilidade de produtos e contribui para ganhos de participação de mercado.

A estratégia, diz Waks, é manter as marcas de maior escala, ampliar as opções premium e desenvolver segmentos como wellness e beyond, onde estão marcas como Beats e Flying Fish. “O que esses segmentos têm para fazer é ressignificar a categoria. Mostrar quão versátil é a categoria de cerveja”, afirma.

A discussão sobre as canetas emagrecedoras ganha relevância em um mercado que já movimenta bilhões. Entre maio e julho de 2026, medicamentos da classe GLP-1 somaram R$ 4 bilhões em vendas e 3,1 milhões de unidades no Brasil. Segundo dados da Close-Up International publicados pela Forbes, a categoria já representa 11% da receita de grandes redes de farmácias.

Waks diz que a Ambev vê oportunidades de inovação na mudança de comportamento do consumidor. “Toda mudança, toda questão social, comportamental, ela traz desafios que podem ser vistos de uma maneira como um risco ou como uma oportunidade. A gente encara eles como uma super oportunidade.” Para ele, a resposta está em ampliar as opções do portfólio para diferentes ocasiões e momentos da vida do consumidor.

Um dos sinais que a companhia acompanha vem do Zé Delivery. Segundo Waks, o segmento wellness representa quase o dobro do volume na plataforma em comparação com a média da Ambev. O executivo vê esse dado como uma antecipação de tendências para o restante do negócio. “O Zé é um olhar sobre o futuro e não tem como não ficar otimista”, afirma. Ele resume a estratégia com uma metáfora: “Independentemente para que lado o vento sopra, se você ajustar a vela, consegue ir a favor dele.”

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