Estava em Istambul, filmando empreendedores num dos nossos eventos globais. A maioria das entrevistas era técnica: captação, expansão, estruturação de times. Mas no final de uma conversa, saí do script. Compartilhei que, como empreendedora, tinha passado por perrengues emocionais ao vender minha empresa. Foi aí que o fundador à minha frente respirou fundo e disse:
“Todos nós passamos por maus bocados emocionais. Só que ninguém fala sobre isso. E os que falam, só o fazem depois de sair do Shark Tank. Senão, é como sangrar num tanque de tubarões.” Essa imagem grudou. Havia uma história cabeluda que ninguém estava contando — e que precisava ser contada.
Menos de um mês depois, num voo para visitar meus pais no Brasil, pensei: “E se eu conversasse com um empreendedor fodástico, que já tenha saído do ‘Shark Tank’… e tope falar disso sem filtro?”.
Falei com o time do Brasil e veio o nome do Paulo Veras (cofundador da 99). Vi um vídeo em que ele contava como enfrentou uma leucemia enquanto vendia a empresa. Hospital, reuniões, resiliência. A plateia aplaudiu. Mas algo me inquietou. Não podia ter sido só na força da peruca. E os sentimentos? A dor? A travessia?
Dois dias depois, peguei um bate-volta Recife–Guarulhos e fui à casa do Paulo — alguém que eu nunca tinha conhecido. Ele começou a contar a história pública. E eu disse: “Paulo, essa eu já sei. Quero ouvir a história por trás da história.”
Como a conversa não engrenava, contei a minha. Falei dos ataques de pânico, da depressão pós-venda, de como me senti fracassada depois do “sucesso”.
Ele me olhou:
“Nunca tive depressão. Sou pragmático. Tomo decisões e sigo.”
E eu perguntei:
“Já considerou que sua leucemia pode ter sido psicossomática?”
Pausa. Silêncio no áudio. Mão suando. Suvaco também. Ansiedade máxima.
E então ele disse:
“Vamo lá.”
Ali nasceu o Untold Stories.
Não como série de entrevistas. Mas como escuta entre pares. Uma tentativa de iluminar o que fica escondido atrás dos gráficos de crescimento. De humanizar a jornada do empreendedor. De desmontar a ideia opressora de que sucesso exige invencibilidade emocional.
O Paulo começou a falar. Disse que ele e a esposa já haviam refletido sobre a possibilidade de a doença ter sido consequência de uma raiva mal digerida — acumulada durante os anos intensos da 99. Ele falou dos seus maus bocados. Do que sentiu. Do que escondeu. Do que chorou. E eu me emocionei.
Ouvir aquilo de alguém como Paulo — símbolo de força e pragmatismo — me fez pensar:
“Danosse, não era só comigo.” A dor que eu achava que me diminuía… me conectava. Me humanizava. E ele, com coragem, estava abrindo essa porta.
No fim da conversa, falei pra ele:
“Essa história é sua. Eu só tô aqui como doula.”
Meu papel era ouvir com presença e ajudar a colocar em palavras o que já existia — só estava guardado. “Se decidir não compartilhar, tudo bem. Mas, se decidir compartilhar, vai ser generosidade em grau máximo. Vai alcançar milhões que hoje se sentem sozinhos nas suas dores.” Ele me agradeceu — mas fui eu quem saí grata. Pela entrega. Pela troca.
Depois, com a ajuda do nosso time, transformamos a gravação em texto. Quando recebeu a versão final, me mandou uma mensagem linda, dizendo o quanto o processo tinha sido importante pra ele. Curioso: ele não sabia que era o primeiro. E, pra ser sincera, nem eu. O projeto ainda nem existia formalmente. Mas quando a gente sente convicção, é porque o projeto já existe — mesmo sem nome.
O Paulo foi nosso paciente zero. A história dele circulou internamente. O efeito foi imediato. Outros grandes começaram a levantar a mão: “Também quero contar a minha.”
Hoje temos sete histórias na primeira temporada — e dezenas a caminho. Histórias de sofrimento emocional, sim — mas, acima de tudo, de coragem, reflexão e cura. Porque empreender não é só escalar empresas. É escalar a si mesmo.
E embora essas Untold Stories abordam temas distintos — ansiedade, solidão, medo, travas — há algo poderoso unindo todas elas: Todos chegam à mesma conclusão. Tornaram-se líderes melhores — e pessoas melhores — por causa do que enfrentaram. E não apesar disso.
*Por Silvia Cavalcanti, CMO Global da Endeavor
A Endeavor é uma rede global presente em mais de 40 países e formada pelos empreendedores e empreendedoras que mais crescem no mundo. No Brasil desde 2000, acelera negócios com potencial escalável por meio do programa Scale-Up e promove conexões entre os maiores líderes do país e empreendedores em início de jornada. Também investe em startups em fases Seed e Series A, com o fundo Scale-Up Ventures.
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