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O Pix Que o Crédito Não Viu Surgir

Três trajetórias globais, um problema local e uma aposta no meio de pagamento que o sistema financeiro não soube fazer

4 min

André Bernardes passou anos dentro do sistema financeiro aprendendo exatamente o que estava errado com ele. Primeiro no Merrill Lynch, operando produtos estruturados em mercados globais; depois em uma fintech na Ásia, onde o contato com modelos radicalmente diferentes o forçou a rever premissas que o Brasil nunca havia questionado. Quando chegou ao MIT, a pergunta era precisa: por que o microempreendedor brasileiro, dono de bar, barraquinha ou salão, com fluxo de caixa real e clientela fiel, continuava sendo invisível para o sistema que deveria servi-lo?

A resposta não estava em melhorar o que existia. Estava em construir algo que o mercado simplesmente não havia tentado.

O sistema que funciona para quem não precisa dele

O Brasil tem mais de 21 milhões de micro e pequenos negócios, grande parte operados sem contrato formal, sem histórico bancário convencional. Para esses empreendedores, o acesso a capital de giro não era difícil. Era inexistente. Os produtos disponíveis foram desenhados a partir da lógica do crédito pessoal, ignorando que um negócio opera em ciclos, tem sazonalidade e ritmo próprio. O custo de entender isso era maior do que o valor que os bancos enxergavam no cliente.

Ludmila Pontremolez chegou com o rigor técnico. Caçula de três irmãs engenheiras, formada no ITA, construiu carreira na NASA, Microsoft e Square antes de liderar a tecnologia da Zippi. Bruno Lucas chegou com a engenharia financeira: economista de Cornell com especialização pelo MIT e passagens por Gávea Investimentos, foi ele quem arquitetou a estrutura que permite à operação crescer sem perder controle de risco.

A infraestrutura que ninguém estava usando assim

O Pix foi lançado pelo Banco Central como solução de pagamento instantâneo. O que a Zippi enxergou foi outra coisa: uma infraestrutura de penetração nacional, custo baixo e dados comportamentais embutidos em cada transação. Pioneira nesse uso, a fintech combinou o Pix com machine learning e Open Finance para analisar a capacidade real de pagamento de quem nunca teve contracheque para apresentar. O crédito passou a ser concedido, ajustado e recobrado no ritmo do negócio.

O resultado é uma operação lucrativa onde a maioria apostava em risco irresponsável. Em 2025, a Zippi mais que dobrou de tamanho, com crescimento superior a 100% em receita e volume transacionado. Em fevereiro de 2026, captou R$ 220 milhões para seu FIDC com Itaú Asset, Bradesco BBI, Valora Investimentos e Credit Saison, primeiro investidor internacional da empresa, com sede no Japão. A projeção é movimentar R$ 10 bilhões em transações ao longo do ano.

“Por décadas, o microempreendedor brasileiro foi tratado como consumidor final e recebeu produtos que não refletem como seu negócio realmente opera. Na Zippi, desenhamos crédito a partir do fluxo real do varejo, usando o Pix como infraestrutura e combinando diferentes fontes de dados para oferecer capital de giro no ritmo do negócio”, diz André.

O painel que reconheceu a aposta certa

A entrada dos três para a rede Endeavor veio de um processo que avalia modelo de negócio, liderança e potencial de impacto sistêmico. O que o painel identificou foi a combinação entre rigor técnico e ambição de escala: uma empresa que prova ser possível construir tecnologia de ponta com lucratividade, a partir do Brasil, para um público que o mercado havia descartado.

Os três fundadores chegam ao ecossistema com intenção clara de retribuição, a partir da experiência em programas como YCombinator, Fundação Estudar e Fundação Behring. O próximo capítulo passa por aprofundar a base de clientes no Brasil, atrair talentos técnicos e construir conexões com investidores internacionais. Para uma fintech fundada sob a premissa de que o microempreendedor informal merece crédito desenhado para a realidade do seu negócio, a pergunta não é mais se o modelo funciona. É até onde ele vai.

A Endeavor é uma rede global presente em mais de 40 países e formada pelos empreendedores e empreendedoras que mais crescem no mundo. No Brasil desde 2000, acelera negócios com potencial escalável por meio do programa Scale-Up e promove conexões entre os maiores líderes do país e empreendedores em início de jornada. Também investe em startups em fases Seed e Series A, com o fundo Scale-Up Ventures.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da Forbes Brasil e de seus editores.

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