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Entre Novos Espaços e Grandes Mecenas, a Cultura Resiste e Se Reinventa

Do Garoa em Pinheiros a grandes institutos pelo país, uma reflexão sobre quem cria, sustenta e mantém viva a cultura no Brasil

6 min

Esta semana recebi um e-mail sobre a abertura do Garoa Espaço Cultural, um espaço multidisciplinar de 150 metros quadrados, em Pinheiros, que abriu suas portas hoje, 1º de abril. A exposição inaugural, “A felicidade é uma arma quente”, sob curadoria da cearense Galciane Neves, teve um ótimo título e reúniu apenas obras de artistas mulheres, entre elas Lenora de Barros, Lia Chaia e Estela Sokol. Ah, mas o espaço é pequeno. Não importa. Quanto mais cantos alternativos espalhados pelos bairros de nossas áridas cidades, para todos se expressarem e se expandirem, melhor. Fiquei feliz.

Eram poucas as opções culturais de qualidade quando meus filhos, America e Pedro, eram pequenos. Ambos puseram seus pezinhos na Bienal de São Paulo, em diferentes anos, ainda em carrinho de bebê. Tenho uma foto, dos tempos da máquina fotográfica, da America no carrinho na 19ª Bienal, em 1987, quando a visitei no papel de mãe de primeira viagem, com meu rebento de quatro meses. Estamos diante de um painel gigantesco do britânico Tony Cragg, destaque da representação britânica daquela edição, composto por centenas de objetos plásticos descartados, banais e domésticos, organizados por cor, criticando o consumo desmesurado e já alertando para as ameaças à ecologia, termo que empregávamos para sustentabilidade. Cragg é um dos pioneiros no uso de “dejetos” plásticos. Era uma mensagem visual muito forte. Mãe e filha adoraram! (Sim, eu também os levava ao “plastificado” Parque da Mônica…)

Diante da necessidade crescente de espaços culturais em nossas cidades e da incorporação cada vez maior desse saudável hábito no lazer da população, não posso deixar de admirar indivíduos e grupos que fundam esses lugares.

No centro da bucólica Vassouras, cidade fluminense uma vez apelidada de “Princesinha do Café”, que ainda parece saída de um conto de Machado de Assis, inaugurou, em dezembro último, um complexo cultural que promete: o Museu Vassouras. Idealizado pelo ex-banqueiro, ex-político, atualmente o maior acionista individual da Light e um dos maiores colecionadores de arte do país, Ronaldo Cezar Coelho, hoje com 78 anos e listado como o número 87 na lista Forbes 2025 das maiores fortunas do Brasil, com um bilhão de reais, o novo complexo já neste ano passa a oferecer programas educativos e exposições de arte regulares.

O prédio do antigo hospital, que depois foi o asilo de Vassouras (tombado em 1958 pelo Iphan), ostenta arquitetura do Barroco luso-brasileiro. O complexo, com 3.000 metros quadrados, que inclui um memorial judaico com paisagismo de Burle Marx, de 1994, estava entregue às favas e aos cupins. Mas, como a fênix, renasceu das cinzas com o investimento de Cezar Coelho, estimado em cerca de 50 milhões de reais, que revitalizou a histórica construção por meio do meticuloso restauro do arquiteto carioca Mauricio Prochnik, autor, em 2022, do último projeto de restauração da escultura do Cristo Redentor.

Vista da fachada principal do Museu Vassouras
Foto: Rafael Salim. Cortesia do Museu Vassouras, RJ

Em São Paulo, entre nossos patronos culturais, alguns se destacam por suas instituições ativas, abertas ao público. A família Setubal, com longo papel de apoio institucional às artes, concentrado no Itaú Cultural, fincado na Paulista. Os Moreira Salles, com o Instituto Moreira Salles (IMS), no outro extremo da Paulista, com centros no Rio e em Poços de Caldas, lugar de origem do fundador. A família Ohtake, comandada por Tomie Ohtake e seus filhos, o arquiteto Ruy Ohtake, ambos já falecidos, com o Instituto Tomie Ohtake, pilotado pelo designer gráfico e gestor cultural Ricardo Ohtake, o caçula do clã.

O prédio, em Pinheiros, projeto de Ruy, ostenta uma monumental escultura na fachada, representando um grão de café, símbolo da imigração japonesa, criada pela já falecida Tomie. Temos a família Segall, com o Museu Lasar Segall, na Vila Mariana, desde 1967. A Fundação Stickel, mais antiga ainda, instituída em 1954 pelos pais do artista plástico e arquiteto Fernando Stickel, mantém esse bonito legado desde 2004.

Fora de São Paulo, conheço o do artista multimídia Marcos Amaro, herdeiro da TAM, agora LATAM Airlines, que deu vida aos escombros de uma fábrica têxtil do início do século XX, fundando o FAMA Museu (Fábrica de Arte Marcos Amaro). O Instituto Figueiredo Ferraz (IFF), um centro cultural e museu de arte contemporânea em Ribeirão Preto, fundado pelo falecido colecionador João Carlos de Figueiredo Ferraz. O maior de todos, o Instituto Inhotim, em Minas, do controverso Bernardo Paz, que fincou Brumadinho no mapa. Em Porto Alegre, a Fundação Iberê Camargo, tendo à frente a família Gerdau Johannpeter, homenageia um de nossos nomes estelares, em projeto marcante assinado pelo maior arquiteto português vivo, Álvaro Siza, que tive a honra de entrevistar longamente para a revista Casa Vogue. Em Fortaleza, o casal Paula e Silvio Frota, grandes colecionadores, criou o Museu da Fotografia Fortaleza (MFF), que alavancou a badalação no bairro Varjota. Instalada em uma antiga olaria em Recife, a Oficina Francisco Brennand é outro espaço surpreendente, com as grandes esculturas em cerâmica de Brennand. Também em Pernambuco, muito comentada, a Usina de Arte, idealizada pelo casal Ricardo e Bruna Pessoa de Queiroz, é um museu a céu aberto em 30 hectares, mas ainda não tive a oportunidade de conhecê-la.

No Rio, o Museu da Chácara do Céu abriga a coleção de Raymundo Castro Maya. A Casa Roberto Marinho, no Cosme Velho, exibe a famosa coleção do jornalista fundador do império Globo. As colecionadoras Eva Klabin e Ema Klabin, as irmãs Klabin, ambas falecidas, legaram dois museus, um no Rio, outro em São Paulo, em suas residências principais. A Casa Museu Eva Klabin, na Lagoa Rodrigo de Freitas, próxima ao Corte do Cantagalo, no Rio, e, em São Paulo, a Casa Museu Ema Klabin, na Avenida Europa, em frente ao MuBE. Instalado na paisagem paulistana, o MuBE (Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia) é uma instituição cultural privada sem fins lucrativos, em espaço cedido pela prefeitura. O prédio é um dos exemplos mais marcantes da nossa arquitetura brutalista, fruto da genialidade de Paulo Mendes da Rocha, profundo pensador das questões urbanas. E temos ainda a entidade privada sem fins lucrativos que simboliza São Paulo e coroa a Avenida Paulista: o MASP. (A Pinacoteca do Estado de São Paulo não entra na lista, pois é uma instituição pública estadual).

*Cynthia Garcia, crítica e historiadora de arte. Premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) – [email protected]

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