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Sem Contas em Dia, Seguiremos Sendo Apenas o País do Futuro

Responsabilidade fiscal viabiliza investimentos em infraestrutura, segurança e desenvolvimento

5 min

Em junho, a Transnordestina completou vinte anos de obras. Lançada em 2006 com conclusão prevista para 2010, a ferrovia segue inacabada, com operação plena prometida apenas para o fim de 2027. É o retrato de um país que promete o futuro e entrega atraso. Nesta eleição, os presidenciáveis voltaram a prometer trilhos, estradas e portos. Quase nenhum explicou quem vai pagar a conta.

Para a tradição desenvolvimentista, corrente influente de inspiração keynesiana e com forte presença na escola de Campinas, a pergunta nem deveria ser feita: o gasto público é o motor do crescimento, a preocupação com a dívida é exagero do mercado e os juros altos são escolha do Banco Central, não reflexo do desequilíbrio fiscal. A tese é sedutora, mas não resiste aos números.

Nos doze meses até agosto, o setor público gastou R$1,18 trilhão só com juros, 8,86% do PIB, segundo o Banco Central, e a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB. Enquanto isso, estima-se que o Brasil investirá cerca de 2,4% do PIB em infraestrutura neste ano, quando precisaria de 4,6% por quinze a vinte anos apenas para atualizar seus serviços. A lacuna, de cerca de R$270 bilhões por ano, não chega a um quarto da conta de juros. Os juros compostos que constroem o patrimônio do investidor paciente são os mesmos que corroem o orçamento do devedor descuidado.

Até Keynes, tão invocado por essa escola, escreveu em 1937 que o auge, e não a recessão, é o momento certo para a austeridade. O estímulo fiscal foi pensado para economias com desemprego alto e capacidade ociosa. O Brasil tem hoje desemprego de 5,3%, o menor para o período desde 2012, e um mercado de trabalho que o próprio Banco Central descreve como aquecido. Nesse cenário, mais gasto público não vira crescimento: vira inflação, e inflação vira aumento da Taxa Selic. Importante destacar que juros e dívida tampouco são assunto restrito ao mercado financeiro, porque a obra que deixa de ser feita aparece no frete. Cerca de dois terços das cargas viajam por rodovias, e 62% da malha avaliada pela CNT em 2025 foi classificada como regular, ruim ou péssima. O pavimento deficiente eleva, em média, 31,2% o custo operacional do transporte. As ferrovias, mais baratas nas longas distâncias, levam apenas 15,5% das cargas, contra quase 30% nos Estados Unidos. Com território de tamanho semelhante, os americanos têm 294 mil quilômetros de trilhos, enquanto nós, apenas 31 mil. A logística cara vai para a gôndola e pesa mais em quem vive do salário do mês.

Pior é a ideia de que bastaria deixar de pagar a dívida. Segundo o Tesouro Nacional, fundos de previdência e de investimento detêm cerca de 45% da dívida pública interna, e as instituições financeiras, que operam com o dinheiro dos correntistas, outros 31%. Calote na dívida é calote na aposentadoria do trabalhador e na reserva do pequeno poupador. Milton Friedman eternizou a máxima de que não existe almoço grátis, e o Brasil já provou o preço desse almoço em 1990, com o confisco da poupança.

A falta de folga fiscal cobra seu preço também na segurança. Com 92% do orçamento federal de 2026 comprometido com despesas obrigatórias, o aperto recai sobre investimento, manutenção e operação. Em 2022, a Polícia Federal chegou a suspender a emissão de passaportes por falta de verba e, em 2024, alertou que bloqueios poderiam afetar operações, fronteiras e até o abastecimento de viaturas. No Rio Grande do Sul, foram 57 meses seguidos de salários parcelados. Segurança não se faz com discurso, mas com efetivo pago em dia e viatura na rua.

No entanto, nem só de notícias ruins vivemos; onde o capital privado entrou, a estrada melhorou: nas rodovias concedidas, os trechos ruins ou péssimos caíram 61,6% em um ano, segundo a CNT. Mas concessões de trinta anos e ferrovias que levam décadas para se pagar exigem previsibilidade. Quando o mercado duvida da capacidade do Estado de honrar compromissos, os juros longos sobem e projetos viáveis deixam de parar em pé. A primeira obra do próximo governo não terá placa de inauguração: será colocar as contas em ordem. Sem isso, os trilhos seguirão no papel, e a segurança, refém do contingenciamento. Responsabilidade fiscal não é inimiga do social, é a estrada por onde ele precisa passar. Enquanto gastarmos mais com os juros do passado do que com as obras de amanhã, seguiremos sendo apenas o país do futuro.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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