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Sucesso em Paraty, Gelateria Miracolo Inaugura Endereço Cheio de Arte nos Jardins

Agora é possível provar as receitas exclusivas do italiano Roberto Belia em São Paulo, novo empreendimento em sociedade com Sandi Adamiu

5 min

Segunda-feira, duas da tarde, 30 graus. Um bafafá em frente ao número 1178 da Alameda Lorena chama a atenção entre a Rua Peixoto Gomide e a Alameda Ministro Rocha Azevedo. Ali, uma fila animada para experimentar um sucesso gastronômico de Paraty (RJ) há 25 anos, logo nas primeiras horas da abertura do endereço, ontem, em São Paulo. A Gelateria Miracolo chegou causando alvoroço nos Jardins.

Alheio ao frenesi, um senhor de camisa branca, óculos e boné vermelho, de mãos dadas nas costas, observa a cena como se assistisse a um filme. Trata-se de Roberto Belia, de 68 anos, italiano de Perugia (capital da Úmbria, no centro do país), dono de um caderninho conservado há 35 anos com 300 receitas de gelato, fundador e sócio da Miracolo.

Ele é o responsável pelos 36 sabores divididos em três vitrines (12 sabores tradicionais, como pistache e gianduia; 12 à base de frutas, como tangerina e abacate; 12 inovações com combinações sazonais e uso de pancs – plantas alimentícias não convencionais –, da Mata Atlântica, como cana do brejo e wasabi). “Você não imagina a alegria de ver esse movimento”, confessa Roberto sem piscar. “Tem muito amor no que produzimos e servimos aqui. E é fato que miracolos (milagres, em italiano) acontecem.” A base da Miracolo é o creme de leite e nenhuma receita utiliza gordura hidrogenada.

A espera de alguns minutos para ser atendido favorece a contemplação de um diferencial da casa: a conexão entre o gelato e a arte. A começar pelo teto, logo na entrada. Feito em lona de caminhão reciclada, a peça “Nuvens de querubins”, do artista sergipano de Aracaju, Aecio Sarti, de 66 anos (obras espalhadas por mais de 60 países, radicado em Paraty desde 2004), faz o visitante inclinar o pescoço para trás como se admirasse a cúpula de um templo.

“Tive essa ideia uma noite, em casa, quando olhei alguns querubins que tenho do Aecio no meu quarto”, conta Sandi Adamiu, empresário paulistano de 43 anos que atualmente passa 10 dias por mês em Paraty, sócio da Miracolo e de diversos negócios na cidade como o clássico Sandi Hotel; o Loft Bom Jardim; os restaurantes Fugu Japanese Food e Pupus Panc Party; e o Apothekario Bar. “Pensei nos querubins como símbolo da expansão da Miracolo; liguei para o Aecio na hora e tudo foi se encaixando.”

A proposta inicial da expansão, no entanto, não é recente. “O Sandi sempre quis uma gelateria em São Paulo”, revela Roberto. “Era algo falado antes da pandemia, mas, por causa dela, adiamos – só voltamos a falar de novo sobre o assunto no ano passado. Nesse período, o turismo explodiu em Paraty, tivemos bastante trabalho na cidade.”

Após passar pela “Nuvens de querubins”, quem chama atenção à esquerda é o olhar enigmático da mulher de cabelos curtos, com parte dos ombros aparente: “A brasileira de Paris”, uma gravura pintada com carvão, em 1960, por Di Cavalcanti – peça de arte pioneira da coleção de família de Sandi. “Meu pai (Alexandre Adamiu, 1947-1999) era presidente da Paris Filmes, gostou do nome da obra e comprou”, diz Sandi. “A cada seis meses, vamos expor uma obra especial de um artista brasileiro – a próxima será de Alfredo Volpi”, adianta o empresário.

Quando você finalmente se desvencilha da hipnótica “A brasileira de Paris”, repara que há uma sequência linda de 11 litogravuras na parede: representam as frutas tropicais usadas nos sabores servidos pela Miracolo. Gostou de alguma litogravura a ponto de querer levar para casa? Tudo bem, elas estão à venda. Completando o tour pelo salão projetado pelo escritório Coletivo de Arquitetos, ao fundo da gelateria com capacidade para 40 pessoas, uma parede de vidro expõe a produção do gelato. “Não temos nada a esconder. Mostrar a nossa produção faz toda a diferença”, comenta Roberto sem esconder o orgulho.

Toda essa volta para, enfim, ficar cara a cara com uma apresentação de vitrine impecável: uma sucessão de sabores com cores expressivas e textura de dar água na boca. “Provei o Chocolate Dubai e o Tiramissu, e achei ambos muito bons – gelato encorpado, sem ser pastoso, uma textura bem diferente”, analisa o engenheiro civil Eduardo Campos, de 70 anos, que saía de um restaurante na esquina e ficou curioso com a movimentação daquele quarteirão da Lorena. “Sou um apreciador de sorvetes, vi várias pessoas passando com um copinho na mão e resolvi ver o que era – sem dúvida que aprovei e vai entrar na minha rotina”, garante Eduardo, que costuma almoçar nas redondezas.

Da minha parte, palmas para o de Gorgonzola com Nozes, o de Camomila e o Gabriela (feito com cachaça branca, cravo e canela) – destaque ainda para o conforto do mobiliário, o ar-condicionado no ponto perfeito e o jazz ambiente (seleção musical feita a dedo pelo Sandi). A produção local também contempla doces como palha italiana, brigadeiro, banoffee e torta de limão. A cultura de Paraty ainda se faz presente na venda das cachaças Gabriela e Jorge Amado, do alambique Paratyana.

Motivo é o que não falta para sempre retornar à Miracolo. É de pazinha em pazinha que se tem contato com as maravilhas do caderno de receitas de Roberto Belia. Na hora de me despedir do italiano, o aperto de mão da chegada foi substituído por um abraço afetuoso – sensação semelhante a que se tem ao degustar um gelato da casa.

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