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Por Que a Nova Sede do Santander é Horizontal, na Contramão da Faria Lima?

Desenvolvido pela GTIS Partners e pela aflalo/gasperini arquitetos, edifício tem lajes de mais de 7 mil m², oposto dos prédios Triple A de mais de 20 andares do entorno

8 min

A nova sede do Santander contraria um padrão óbvio e evidente nos arredores de onde fica o imóvel. Trata-se de um edifício gigantesco, mas horizontal, diferentemente dos vários edifícios da Faria Lima que somam mais de 20 andares. Os motivos para tal, no entanto, não são óbvios.

O deal foi inusual, dado que o projeto inicialmente não era previsto para ser a sede do Santander.

O imóvel – chamado de Campus JK – foi incorporado pela GTIS Partners, empresa global de investimentos imobiliários com sede em Nova York, e desenhado pela aflalo/gasperini, escritório de arquitetura de São Paulo cuja fundação remonta à década de 1960, em conjunto com a firma de arquitetura e design urbano Kohn Pedersen Fox (KPF).

Ainda antes de o Santander brilhar os olhos pelo edifício, a opção por fazer um imóvel horizontal foi tomando forma. Um fator relevante para isso, antes de tudo, é o terreno – afinal, esse tipo de projeto é mais viável quando se dispõe de mais de 15 mil metros quadrados, uma quadra inteira.

Em um próximo nível, a equação financeira também tornou o projeto atrativo. Na prática, as três torres interconectadas só estão sendo construídas porque o retorno financeiro projetado foi alto, estando em pé de igualdade com um edifício Triple A de vários andares.

A aquisição do terreno pela GTIS ocorreu em meados de 2017, dois anos antes do leilão de Certificados de Potencial Adicional de Construção (CEPACs) da Operação Urbana Consorciada Faria Lima (OUCFL).

O certame arrecadou R$ 1,637 bilhão para os cofres municipais ao vender 93 mil títulos com um ágio de cerca de 170% sobre o valor de referência.

O projeto ocupa um terreno de mais de 15 mil m² e reúne três torres corporativas interligadas
GTIS Partners/DivulgaçãoO projeto ocupa um terreno de mais de 15 mil m² e reúne três torres corporativas interligadas

Os CEPACs, negociados em leilões na B3, dão ao proprietário o direito de construir além do coeficiente de aproveitamento básico do terreno, bem como alterar usos e parâmetros dentro do perímetro de uma Operação Urbana.

Na prática, com o projeto nos moldes atuais, a GTIS precisou despender menos capital com isso – que, aliás, representava algum risco, visto que os estoques poderiam chegar ao limite e obrigar a companhia a comprar certificados no mercado secundário.

Cada CEPAC da Faria Lima custa R$ 17,6 mil.

Maristella Val Diniz, Sócia e Head de Relações com Investidores da GTIS Partners, conta em entrevista à Forbes que a firma de private equity comprou, em meados de 2019, cerca de 27 mil CEPACs – equivalente a aproximadamente R$ 475 milhões.

Caso o projeto fosse vertical, seriam necessários mais de 11 mil CEPACs adicionais, representando uma injeção de capital da ordem de R$ 200 milhões.

“Já tínhamos um projeto que quebraria parâmetro. A grande questão, desde 2019, era que a Operação Faria Lima está no final. Naquele momento, a prefeitura não disponibilizou um volume que permitisse que os incorporadores pudessem comprar tranquilamente; tivemos uma corrida por esses CEPACs”, relata Diniz.

“O que importa, do ponto de vista de rentabilidade, é o quanto você construiu no terreno. Lá não esgotamos um múltiplo de quatro vezes, temos um pouco menos do que isso, mas comparando vertical com horizontal, seria praticamente a mesma área [construída. Se fosse um prédio vertical, seriam 2 torres verticais. Até estudamos isso, mas na Faria Lima para você passar de 28 metros, precisa comprar gabarito, são outros CEPACs”, segue.

Além disso, a escolha por um prédio horizontal não foi puramente financeira. Antes dos valores serem colocados na ponta da caneta, outros movimentos contribuíram para que o projeto fosse tirado do papel com lajes de mais de 7 mil m² distribuídas em 6 andares, em detrimento de vários andares com lajes de 2 mil ou 3 mil m².

Por fim, o Campus JK só está sendo concebido desta forma porque foi um caminho considerado promissor, em todos os sentidos, pelos idealizadores.

Definitivamente, as decisões guiaram o projeto para um caminho atrativo, dado que anos antes da finalização a GTIS apertou as mãos de uma das maiores instituições financeiras da América Latina, com valor de mercado de mais de R$ 100 bilhões.

O que dizem os arquitetos da nova sede do Santander

Diniz, da GTIS Partners, revela que foi em agosto de 2025 que o Santander procurou a companhia para tratar do imóvel.

O approach foi uma surpresa positiva. O perfil do cliente também foi positivo, mas não uma surpresa.

“O perfil é de grandes inquilinos. O Santander nos procurou e, no início, acreditávamos que seria uma locação integral, e aí eles nos revelaram que o plano era de uma aquisição. Nós passamos a desenvolver tudo e, então, entregar o imóvel para que eles passassem a ser os proprietários.”

O térreo foi planejado com fachada ativa, serviços, restaurantes e circulação aberta ao público
GTIS Partners/DivulgaçãoO térreo foi planejado com fachada ativa, serviços, restaurantes e circulação aberta ao público

O interesse também se deu porque o imóvel, nas palavras do próprio CEO, Mario Leão, oferecia o que o banco procurava – uma sede mais integrada à cidade de São Paulo.

O projeto possui fluição urbana, fachada ativa e terá vários empreendimentos de conveniência no seu térreo, indo de serviços a restaurantes.

“Essa fachada ativa se torna praticamente uma galeria aberta. Você pode andar em volta do empreendimento e transpô-lo, andando por dentro. Não tem nenhum gradil”, conta Grazzieli Gomes Rocha, sócia-diretora da aflalo/gasperini arquitetos, em entrevista à Forbes.

Arquiteta e urbanista pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e com duas décadas no ramo, Rocha conta que o escritório também foi persuasivo ao falar de um prédio gigantesco e horizontal para a gestora de private equity.

Campus JK em números

  • Área do terreno: +15.000 m²
  • Área construída total: +101.000 m²
  • Área locável (Triple A): 58.100 m²
  • Composição: 3 torres corporativas interligadas, 6 pavimentos de escritórios, 4 níveis de garagem e rooftop privativo
  • Funcionários: cerca de 5,2 mil (escritório de São Paulo do Santander)
  • Certificação ambiental: LEED Platinum (meta)
  • Entrega prevista: 2º semestre de 2028

Localizado na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, no Itaim Bibi, o imóvel marca mais um projeto do escritório de arquitetura que será ocupado por bancos e instituições financeiras.

As lapiseiras e escalímetros dos profissionais da casa já desenharam os traços de imóveis hoje ocupados pelo Safra e pelo C6 Bank – clientes que Rocha relata que miram apenas imóveis Triple A e que são exigentes, no bom sentido.

“São clientes de extrema qualidade, querem o melhor do melhor. Eles querem o maior pé-direito possível, qualidade, imponência, o melhor paisagismo possível”, relata sobre o projeto para o Safra.

“Banco quer qualidade em primeiro lugar, é patrimonialista. O prédio precisa se perpetuar muitas décadas”, adiciona.

O projeto permite que pedestres atravessem o empreendimento sem barreiras ou gradis
GTIS Partners/DivulgaçãoO projeto permite que pedestres atravessem o empreendimento sem barreiras ou gradis

O escritório também fez, na década de 1980, a sede do Citibank, localizada na Avenida Paulista.

O imóvel conta com sistema de fachada ventilada, algo que não era visto na época e que virou tendência no segmento.

Da mesma forma, aponta agora que os escritórios horizontais podem vir a ser vistos como viáveis por companhias do ramo, ainda em um futuro breve.

Escritório horizontal não será novo normal, mas pode ser uma opção

A visão da arquiteta é de que não necessariamente os escritórios horizontais virão a ser um padrão, especialmente por conta das limitações inerentes a esse tipo de projeto.

No entanto, o mercado imobiliário pode passar a considerar projetos análogos como uma alternativa, deixando o vício permanente em edifícios verticais Triple A.

“É uma opinião bem pessoal, mas isso pode vir a ser, sim, uma tendência. Para dar um exemplo claro, tem um projeto que não é nosso, que foi construído para a WPP, de propriedade da Brookfield. É um prédio baixo, também, com lajes enormes, terraços ajardinados. E foi um projeto com boa aceitação do mercado”, observa a sócia do aflalo/gasperini arquitetos.

O projeto citado pela especialista fica localizado na Vila Leopoldina, em São Paulo. Foi idealizado para reunir cerca de 4 mil funcionários de mais de 20 agências da WPP, que é a maior holding de agências de publicidade, marketing, relações públicas e comunicação do mundo.

O projeto arquitetônico é assinado pelo escritório aflalo/gasperini, que já teve atuação em imóveis de grandes bancos
GTIS Partners/DivulgaçãoO projeto arquitetônico é assinado pelo escritório aflalo/gasperini, que já teve atuação em imóveis de grandes bancos

Batizado de WPP Vila, o edifício inaugurado em novembro do ano passado tem 39 mil m², auditórios que se abrem para a praça externa e jardins integrados aos corredores – além da fachada ativa, assim como o Campus JK.

O projeto foi de Gustavo Utrabo, arquiteto e urbanista brasileiro que venceu o RIBA International Prize em 2018 como arquiteto em ascensão.

“O conceito do edifício é inspirado no local onde os rios Tietê e Pinheiros se encontram, e a relação desses rios com os habitantes da cidade – entre o homem e a natureza – e como essa relação pode ser repensada de forma a respeitar o ambiente local e seus habitantes”, disse Utrabo, à época, em comunicado.

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