O apetite do consumidor por elétricos começa a redesenhar estratégias — e a Geely chega ao Brasil buscando escala com pragmatismo. Em 2024, as marcas sob a gestão do Geely Auto Group venderam mais de 2,17 milhões de veículos, alta de 32% sobre o ano anterior. Com essa tração, a companhia acelera sua estreia local ancorada em uma associação industrial e comercial com a Renault.
No início desta semana, o grupo francês assinou um acordo que prevê a participação de 26,4% da Geely na operação no Brasil. Como parte do acerto, a Geely terá acesso à fábrica da Renault em São José dos Pinhais, no Paraná, para montar seus veículos e distribuí-los por meio da rede da parceira — e já há um grande anúncio marcado para 17 de novembro envolvendo o complexo paranaense. A rede comercial deve alcançar 40 concessionárias até o fim do ano, cobrindo as principais cidades, em linha com o foco urbano do produto.
A aposta, resume Ariel Montenegro, CEO da Renault-Geely no Brasil, é “de preço e competitividade”. “Acreditamos que o carro vai ter volume, mas será resultado da resposta do consumidor”, diz. A marca não abre volumes projetados, mas admite “grandes ambições” e indica que a produção local deve começar “muito em breve”.
No centro da movimentação está o Geely EX2, último lançamento da marca no Brasil que se junta ao já presente nas ruas brasileiras o SUV EX5. Para o EX2, a estratégia passa por uma ofensiva que combina custo-benefício agressivo, conteúdo tecnológico e desenho de uso pensado para a cidade. A mesma que fez dele o carro mais vendido da China entre todos os segmentos com mais de 50.000 emplacamentos por mês.
O carro
Compacto por fora e amplo por dentro, o EX2 mede 4,13 m de comprimento, 1,80 m de largura e tem 2,65 m de entre-eixos e acomoda cinco ocupantes. Na cabine, a ergonomia se soma a um conjunto digital com tela LCD HD de 8,8” e central multimídia full HD de 14,6”. De acordo com a versão, o pacote pode incluir itens raros no segmento de entrada: sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS), câmera panorâmica de 540°, banco do motorista elétrico e teto em pintura contrastante.
O motor elétrico entrega 116 cv e 150 Nm (15,3 kgfm). O EX2 faz o 0–100 km/h em 10,2 s e 0–50 km/h em 3,9 s — números que reforçam a agilidade no anda-e-para urbano. As baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP) têm 39,4 kWh de capacidade e oferecem autonomia de até 289 km no padrão do Inmetro.
A gama parte de R$ 119.990 (versão de entrada, com desconto) e chega a R$ 135.100 na topo de linha, que inclui o pacote ADAS. O porta-malas comporta 375 litros (indo a 1.320 litros com os bancos traseiros bipartidos rebatidos).
O “fronta-malas”
Além do bagageiro traseiro, o EX2 traz um compartimento extra sob o capô: o “fronta-malas” de 70 litros. A solução, patenteada no Brasil, amplia a modularidade para tarefas urbanas — da mochila ao cabo de recarga — e cria um elemento de identidade para o modelo.

“Queríamos colocar um nome divertido”, explica Milena Martins, head de marketing e comunicação da Geely Brasil. A proposta é simples: somar espaço útil onde geralmente há áreas ociosas, mantendo o uso cotidiano intuitivo. Inclusive embaixo dos bancos traseiros também há um espaço para guardar objetos.
Gigante na China
No meio do tabuleiro, vale situar quem é a empresa por trás da investida. Fundado em 1997 e sediado em Hangzhou, o Geely Auto Group gerencia marcas como Geely Auto, Lynk & Co e Zeekr. O avanço de 32% nas vendas em 2024 (2,17 milhões de unidades) dá dimensão da escala industrial e da capacidade de renovar portfólios com rapidez.
Do ponto de vista de posicionamento, o EX2 chega como um elétrico de entrada com conteúdos típicos de segmentos superiores, mirando o consumidor que busca custo total de propriedade previsível, tecnologia embarcada e versatilidade de uso.
Com preço de ataque, pacote tecnológico amplo e uma logística amparada por uma operação já estabelecida, a Geely tenta responder ao recado do mercado. Como antecipa Ariel Montenegro, a ambição existe, mas o veredito ficará com o comprador: começar urbano, ouvir a “resposta do consumidor” e, a partir dela, escalar produção local “muito em breve”. Se a China mostrou que há volume, cabe ao Brasil transformar curiosidade em emplacamentos — e ao EX2, transformar intenção em hábito nas ruas.