As 24 Horas de Le Mans de 1966 ficaram conhecidas pela intensa disputa entre Ford e Ferrari, mas há uma história pouco contada sobre aquela corrida: a do Mini Marcos, o único carro britânico a cruzar a linha de chegada.
Desde sua fundação, no final dos anos 1950, a Marcos esteve profundamente ligada ao automobilismo, produzindo uma linha de carros de rua marcantes até o início dos anos 2000.
Em 2022, Howard Nash adquiriu a empresa, inicialmente com a intenção de manter ativa a divisão de restauração, preservando os modelos Marcos existentes.
No entanto, a visão para a marca mudou: o objetivo agora é voltar a produzir carros próprios, começando por um modelo de pista previsto para o final de 2026, seguido por uma versão homologada para as ruas — algo como um Lotus Elise de carroceria larga.
A seguir, Nash fala sobre a transformação da Marcos e o futuro da marca.
Forbes: Conte como você se tornou dono da Marcos.
Howard Nash: Tive a oportunidade de comprar um grupo de funilarias com oito oficinas — e, junto, veio a Marcos, uma marca pela qual sempre tive muito apreço. Eu adorava a Marcos em seus dias de corrida e respeitava profundamente a marca. Quando surgiu a chance, agarrei — embora eu não soubesse exatamente o que estava comprando. Era um conjunto eclético de coisas.
Temos todos os moldes desde o primeiro carro, de 1959. Temos as ferramentas, modelos completos e carrocerias, além dos desenhos originais feitos à mão. Até nos modelos mais recentes, temos os arquivos CAD e toda a documentação de homologação.
Nos últimos quatro anos, tem sido fascinante conhecer alguns proprietários de Marcos. Muitos deles, porém, estão envelhecendo — e uma das nossas metas é criar algo que atraia um público mais jovem.
Queremos fazer algo divertido e diferente. Quem já dirigiu um Marcos sabe: eles colocam um sorriso no rosto. Sempre foram carros leves, potentes e barulhentos — verdadeiros carros para quem ama dirigir. É isso que queremos levar para o futuro.
Forbes: Como essa visão começou a se materializar?
Nash: Mantemos a parte de restauração da empresa, e dirigir os carros me fez entender o que os fundadores queriam alcançar. No início, achei que seria suficiente comprar uma marca antiga, preservar sua herança e manter seus carros rodando. Mas mudei de ideia. Embora a Marcos tenha feito carros lindos nos anos 1960, o que realmente encantava as pessoas era o prazer de dirigir, mais do que a aparência.
Por isso, no nosso projeto mais recente — o Mosquito — pensei no Mini Marcos original, que era baseado no Mini clássico. Refleti sobre como seria se o refizéssemos hoje. Foi um exercício em que investimos bastante, e o retorno foi impressionante: as pessoas imediatamente reconheceram o DNA do Mini Marcos ali.
Agora, estamos planejando desenvolver o Mosquito como um carro de pista e para track days, com lançamento comercial previsto para o terceiro trimestre de 2026 e estreia em competições na temporada de 2027.
Forbes: O que podemos esperar do primeiro carro de pista e de rua da Marcos?
Nash: Queremos colocá-lo nas ruas até o final do próximo ano. Já temos um chassi funcional que pesa 650 kg, com motor traseiro de 250 cv e tração traseira. É como dirigir um kart de corrida — uma loucura, mas irresistivelmente divertido. O carro é compacto, e sua força está em uma estrutura de plástico termoformado, oca por dentro para reduzir o peso, mas incrivelmente resistente. Quando o protótipo ficou pronto, bati nele com uma marreta e ele simplesmente rebateu.
Ainda é cedo para falar em preços, mas já sabemos o custo do chassi e temos a cadeia de suprimentos garantida. Nosso objetivo é tornar o carro acessível — não queremos ser uma daquelas marcas que produzem algumas unidades a US$ 300 mil cada. A Marcos nunca foi sobre exclusividade extrema. Não faremos milhares, mas queremos um preço na faixa dos cinco dígitos (ou seja, abaixo de US$ 100 mil).

Francis: Há planos para um carro elétrico da Marcos?
Nash: No fim das contas, seremos guiados pela regulamentação, então não estamos ignorando o tema elétrico.
Temos três projetos em andamento que só funcionam com motor a combustão, porque seguimos nosso lema: “Britânico, leve e analógico.” Não vejo um carro elétrico se encaixando na nossa linha atual.
Dito isso, estamos conversando com fornecedores de plataformas elétricas sobre a possibilidade de aplicar nossas carrocerias nelas. Nos últimos anos, o mercado foi tomado por veículos sob medida e ultralimitados, sempre com preços altíssimos. Queremos explorar um nicho mais acessível, com diversão e autenticidade, aproveitando a herança da marca e seu público fiel.
No momento, o motor a combustão é o caminho natural. A tecnologia elétrica está evoluindo rápido, mas criar um carro leve, ágil e com ótimo comportamento dinâmico, mantendo o preço certo, continua sendo um grande desafio.
Francis: Qual é o futuro da Marcos?
Nash: Temos três caminhos a seguir. O primeiro foi um exercício interno para reimaginar o Mini Marcos moderno, voltado para corridas. O segundo é o desenvolvimento do nosso primeiro carro de produção, cujo design interno e externo estamos finalizando para lançamento em 2026.
E o terceiro é restaurar e aprimorar os clássicos — pequenas melhorias que fazem diferença, como reposicionar o freio de mão dos antigos GTs, que antes era impossível de alcançar com o cinto afivelado. Também queremos olhar adiante e criar um modelo icônico (“halo car”). Os carros das décadas de 1960 e 1970 eram lindos, e acreditamos que, em algum momento, precisaremos criar um novo modelo inspirado neles, com as mesmas linhas elegantes. Como disse Jay Leno, “se o Marcos GT tivesse um emblema italiano, valeria US$ 250 mil.”
Entrevista editada e condensada para maior clareza.