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A Dupla de Chefs Que Quer Transformar a Peixaria em Boutique do Mar

Em São Paulo, o Marabôca nasceu há nem três meses, fatura na faixa do milhão e já planeja expansão da sua fórmula híbrida de peixaria, delicatessen e hospitalidade de restaurante

6 min

Um novo cantinho azulado na Alameda Lorena quer mudar a maneira como São Paulo compra (e come) pescados. Com menos de três meses de portas abertas, o Marabôca combina peixaria, cozinha e hospitalidade em um modelo de negócio ainda pouco comum na cidade: uma boutique dedicada ao mar.

De praxe, levar um bom peixe para casa era uma tarefa que exigia do consumidor certa dose de paciência – e disposição. Afinal, a imagem que vem à cabeça de uma peixaria tradicional não é das mais agradáveis: cheiro forte, chão molhado, luz branca fria. No Marabôca, porém, o mise en scène não poderia ser mais diferente. Há quadrinhos nas paredes, flores no balcão, uma geladeira cheia com garrafas de Chablis e, nada, nadinha, de odor.

A dinâmica do espaço é um convite à ficar. Enquanto espera o camarão ser limpo ou o peixe ser porcionado, você pode pedir um ceviche, um roll de siri ou uma tostada de atum para comer em uma das cinco mesinhas do endereço. Dá para ir além: a vitrine com ostras, vieiras e mexilhões é um convite para montar um belo combinado, que também pode ser acompanhado de iguarias como enguia, uni (ouriço) e ikura (ovas de salmão). Tudo vendido por peso, sem qualquer quantidade predeterminada. Quer só duas fatias de atum bluefin para animar o dia? Assim terá, sem a formalidade de ir a um restaurante chique.

DivulgaçãoAmbiente do Marabôca, no Jardins, mistura peixaria e deli

Ainda assim, os sócios fazem questão de ressaltar: o Marabôca não é um restaurante. É uma peixaria que incorporou elementos de serviço e delicatessen para tornar a compra parte da experiência.

É justamente esse combo que ajuda a explicar o movimento da casa nos Jardins, que não para de crescer. Em poucos minutos, na hora do almoço de uma segunda-feira qualquer, a fila começa a se formar: engravatados, pais com filhos recém-buscados da escola e duplas de amigos que trabalham na região. O público se divide entre quem chega para comer e quem passa para levar peixe para casa – mas uma coisa é certa: difícil é encontrar o lugar vazio, especialmente aos finais de semana.

A ideia de criar esse modelo nasceu de uma dificuldade que os fundadores Tommy Klajner e Alan Finguerman, ambos de 29 anos e amigos de infância, sentiam na pele. Formados em gastronomia, os dois tiveram acesso a bons fornecedores enquanto trabalhavam em restaurantes como By Koji e Tuju, mas encontravam dificuldade para comprar pescados do mesmo nível para cozinhar em casa.

Você tem que garimpar. Quando a gente saía do restaurante e falava ‘vamos fazer o jantar?’, era deprimente. É uma dor nossa como consumidores”, diz Alan.

O que o setor de carnes fez ao transformar os açougues de bairro em boutiques com wagyu e outros cortes premium, aliados ao ambiente e serviço de alto nível, é o que a dupla quer agora fazer com o mar: uma peixaria baseada em curadoria, rastreabilidade e atendimento. A missão é “preencher essa lacuna no mercado”, já que São Paulo é “carente de peixe de qualidade, opções práticas, rápidas e frescas”.

Para abastecer a vitrine, eles não dependem do atacado tradicional. “Nós vamos direto às embarcações”, conta Tommy. “Temos os mesmos fornecedores que os omakases mais famosos da cidade”. Os produtos chegam do Brasil inteiro, de atum bluefin do Rio Grande do Norte (cuja produção é majoritariamente destinada à exportação) a peixes menos convencionais do litoral paulista.

Divulgação“Muita gente não sabe comprar peixe. Queremos ensinar o consumidor”

As opções são de peixaria, mas o serviço e a hospitalidade é de restaurante. Quem quiser comprar polvo, já o encontrará cozido e porcionado, sem a menor preocupação de acertar o ponto. Dá para comprar o refratário individual, com dois tentáculos e alguns legumes cozidos, prontos para serem aquecidos para um jantar rápido (mas caprichado) no meio da semana, ou encomendar cinco quilos para um evento de família.

Do mesmo jeito, na hora de levar um peixe qualquer, a primeira reação da equipe é perguntar o que será feito com ele. A partir da receita, os sócios entram em cena com a vivência de chefs, muitas vezes sugerindo uma espécie mais adequada e explicando o porquê da troca. “Muita gente não sabe comprar peixe. Parte da criação da marca e da nossa comunicação é de educar o consumidor. É trazer ele aqui, conversar e entender o que ele vai cozinhar”.

Esse modelo de negócios provou seu valor em velocidade recorde. No mês de abertura, o Marabôca recebeu 1.500 clientes. Em julho, o fluxo chegou a 2.700 pessoas, crescimento de 79%. No mesmo período, o faturamento avançou 80%, e a operação já se aproximou de R$ 1 milhão em receita em menos de um trimestre.

O ticket médio dobrou o esperado e chegou a R$ 300 – a surpresa veio da fonte: 80% do faturamento vem do consumo no local, enquanto 20% corresponde às vendas da peixaria. “Não esperávamos que a parte dos pratos fosse vingar tanto. Mas não queremos nos posicionar como restaurante, nós fizemos uma peixaria”, afirma Alan.

DivulgaçãoApesar de ser peixaria, mais de 80% da receita do Marabôca vem dos pratos para consumo no local, como ceviche ou o roll de siri

Com oito funcionários e pouco tempo de abertura, a operação já serve de teste para um plano de expansão. A ideia, segundo a dupla de amigos, é manter as próximas lojas pequenas para preservar o padrão de serviço. “O modelo é manter pequeno para atender muito bem o público”, diz Tommy.

Moema, Vila Nova Conceição e Higienópolis (onde pensam em uma peixaria kosher) estão entre os bairros considerados para novas unidades. A expansão também passa pela criação de um centro de distribuição, que poderia abastecer as lojas e, no futuro, viabilizar uma operação própria de delivery – com kits de churrasco do mar a pronta-entrega, sonham os chefs. Em paralelo, os sócios estudam criar, em Vitória, no Espírito Santo, uma empresa de beneficiamento de pescado que possa garantir maior controle sobre o fornecimento.

A estratégia mira uma verticalização gradual do negócio: da origem do pescado à venda e ao consumo. “Em breve, queremos que seja tudo nosso”, afirma a dupla. Esse mar, certamente, está para peixe.

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