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Por Dentro do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza

Com curadoria de Diane Lima, Pavilhão do Brasil reúne Adriana Varejão e Rosana Paulino em um dos encontros de destaque da 61ª edição da mostra italiana

4 min

Nos Giardini, onde dezenas de países disputam a atenção de quem atravessa a Bienal de Veneza, o Brasil começa a contar sua história antes mesmo da entrada. A arquitetura modernista do Pavilhão do Brasil, recém-recuperada, participa ativamente de Comigo ninguém pode, exposição que reúne Adriana Varejão e Rosana Paulino sob curadoria de Diane Lima. As obras escapam das posições convencionais, ocupam paredes e teto, avançam sobre o edifício e obrigam o olhar a se deslocar.

O encontro é inédito. Nascidas com três anos de diferença, Varejão, em 1964, no Rio de Janeiro, e Paulino, em 1967, em São Paulo, as duas construíram algumas das trajetórias mais importantes da arte contemporânea brasileira, mas nunca haviam trabalhado juntas. Em Veneza, obras históricas convivem com trabalhos concebidos especialmente para o pavilhão.

Comigo-ninguém-pode é o nome popular da Dieffenbachia, planta bastante conhecida no Brasil e tradicionalmente colocada perto das entradas das casas. Bonita, resistente e tóxica, ganhou no imaginário popular uma dimensão de proteção. Diane Lima parte justamente dessa ambiguidade entre proteção e veneno para aproximar duas artistas que há décadas investigam, por caminhos diferentes, as marcas deixadas pela colonização na formação do país.

Igor Furtado / Fundação Bienal de São PauloRosana Paulino, Diane Lima e Adriana Varejão, integrantes do projeto curatorial Comigo Ninguém Pode para o Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia

A expografia, assinada por Daniela Thomas em diálogo com as artistas e a curadoria, transforma o edifício em parte do trabalho. Em determinados momentos, inclusive, a autoria deixa de ser imediatamente evidente. É preciso chegar perto, olhar novamente, procurar onde termina uma obra e começa a outra.

Essa relação ganha outra dimensão pela localização. O Pavilhão do Brasil está nos Giardini della Biennale, o parque que concentra parte das representações nacionais históricas e onde estão alguns dos edifícios mais emblemáticos do evento.

Paredes do pavilhão, aliás, confundem-se com as obras. Em Still Life amid Ruin, criada por Varejão para Veneza, relevos e murais parecem romper a superfície arquitetônica. É um recurso reconhecível para quem acompanha sua produção: paredes deixam de funcionar como limites sólidos e revelam interiores que lembram carne, feridas ou matéria orgânica. A beleza da superfície convive com a violência daquilo que parece existir atrás dela.

Paulino trabalha essa mesma história por outra perspectiva. Em Aracnes (1999-2026), fotografias de mulheres negras aparecem sobre uma parede de concreto. Em trabalhos como Ninfa tecendo o casulo, a artista recupera a figura feminina como aquela capaz de produzir, a partir do próprio corpo, a matéria necessária para a continuidade. São imagens ligadas à transformação, à sutura e à permanência diante da violência histórica.

Obra de Adriana Varejão na entrada do pavilhão do Brasil na Bienal de Arte de Veneza

O diálogo entre as duas fica especialmente evidente quando seus trabalhos passam a compartilhar o mesmo campo visual. Atlântico Vermelho (2026), de Paulino, encontra correspondências nos relevos de Varejão. Vistos no mesmo espaço, os trabalhos deixam de funcionar apenas como peças independentes e começam a responder uns aos outros.

“Meu trabalho e o de Rosana Paulino se cruzam na potência das feridas coloniais”, disse Varejão ao ser anunciada para o projeto. Paulino, por sua vez, definiu o encontro como uma oportunidade de investigar essas feridas a partir de “perspectivas femininas distintas”.

Ao percorrer o pavilhão, superfícies parecem se romper, obras atravessam os limites esperados e corpos e elementos da natureza aparecem e desaparecem. Os visitantes que por ali passavam ajustavam os óculos para observar os detalhes do trabalho de Varejão. A exposição pede aproximação, algo especialmente relevante em uma Bienal na qual centenas de obras disputam o olhar entre os Giardini, o Arsenale e diferentes pontos de Veneza.

Talvez seja justamente na saída que o título fique mais claro. A comigo-ninguém-pode é uma planta mantida junto à porta para proteger uma casa, embora carregue em si mesma o veneno. No Pavilhão do Brasil, essa contradição deixa de ser apenas botânica e se transforma em uma maneira de olhar para um país marcado simultaneamente por beleza e histórico de violência, feridas e reconstruções, sobrevivência e transformação.

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