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Como o Algarve, em Portugal, Está Reconquistando o Mercado de Golfe de Luxo

Investimentos milionários, novos clubes privados e uma forte aposta no mercado imobiliário de alto padrão estão devolvendo à região portuguesa ao topo do turismo exclusivo na Europa

7 min

Por décadas, a região do Algarve, em Portugal, atraiu golfistas com uma proposta simples, porém irrecusável: campos de nível internacional, sol garantido e um dos melhores custos-benefícios da Europa. Os dias começavam com o jogo e terminavam entre porções de polvo grelhado e taças de vinho verde ao longo da costa atlântica – onde, como bem escreveu o poeta Luís de Camões, “a terra se acaba e o mar começa”.

No entanto, o preço acessível nem sempre foi o cartão de visitas da região. Nas décadas de 1990 e início dos anos 2000, o Algarve figurava entre os principais destinos de golfe da Europa. Mas anos de escassez de investimentos e a ascensão do turismo de massa o reposicionaram como um refúgio de golfe mais econômico.

Agora, impulsionado por um dos maiores investidores imobiliários privados da Europa, o Algarve completou o seu ciclo, escalando de volta até os primeiros lugares do ranking do golfe europeu.

O momento é certeiro. Uma pesquisa recente da Expatsi com mais de 116 mil americanos apontou Portugal como o país número um para onde eles mais gostariam de se mudar – indício de uma mudança mais ampla que pode redefinir esse reduto do golfe, transformando o Algarve de um destino de uma semana em um lugar onde muitos optam por comprar uma segunda residência ou até mesmo morar o ano todo.

A grande virada

A gestora de investimentos britânica Arrow Global administra um portfólio de € 2,6 bilhões em Portugal, com uma concentração na região do Algarve. A empresa investiu cerca de € 17 milhões para refazer do zero – e não simplesmente reformar – o antigo Victoria Course. O novo projeto assinado por Ernie Els inverteu o percurso dos últimos nove buracos e reconstruiu cada green e fairway totalmente do zero.

The Els Club VilamouraThe Els Club Vilamoura

O investimento teve sua primeira grande prova de fogo no último fim de semana, quando Portugal sediou seu primeiro evento do PGA Tour Champions no The Els Club Vilamoura. Em sua versão anterior como Victoria Golf Course, o local sediou o Portugal Masters de 2007 a 2022, ostentando uma galeria de campeões que inclui Shane Lowry, Thomas Pieters e Jordan Smith. No entanto, para a Arrow Global, o torneio representou mais do que uma mera passagem da turnê sênior pela Europa: foi a estreia pública da estratégia para reposicionar o Algarve.

Nuno Sepúlveda, co-CEO da Details – empresa que opera os ativos de golfe, hotelaria e lazer da Arrow Global Portugal em Vilamoura -, defende que as ambições de luxo do Algarve não são bem uma reinvenção, mas um resgate. Há três décadas, segundo ele, a região estava entre os destinos de golfe mais prestigiados da Europa, com Vilamoura e Quinta do Lago ditando referências que golfistas de todo o continente vinham estudar. Porém, a explosão dos voos fretados e das férias de pacote empurrou gradualmente o mercado para o volume. Enquanto a Espanha continuou investindo pesado em seus principais resorts e campos nas duas décadas seguintes, os operadores do Algarve preferiram “espremer o negócio até o osso”, priorizando retornos de curto prazo em detrimento do reinvestimento.

Por volta do final dos anos 2010, muitos dos principais campos da região já tinham cerca de 30 anos de uso, tornando cada vez mais difícil justificar novos aumentos de preços. Foi quando ocorreu o que Sepúlveda descreve como uma “tempestade perfeita”: a demanda pós-pandemia por lazer ao ar livre aliada ao aporte de capital privado, criando a oportunidade perfeita para reinvestir no produto e reposicionar o Algarve no nicho premium do mercado. “Não basta escrever um artigo bonito ou fazer um anúncio e dizer: ‘Agora somos premium’. É preciso cumprir o que se promete”, afirmou.

O jogo de longo prazo

Contudo, restaurar a reputação do Algarve exige pensar muito além do golfe. Sepúlveda enxerga o esporte como o catalisador de um ecossistema de luxo mais amplo, que abrange hotelaria, mercado imobiliário e estilo de vida permanente. Apenas cerca de 20% dos proprietários de imóveis em resorts de golfe realmente jogam, destacou ele, enquanto a maioria é atraída pela segurança, pelas comodidades e pelo senso de comunidade ao redor dos campos.

The Els Club VilamouraThe Els Club Vilamoura

“Se você cria um grande destino com excelentes comodidades e um ecossistema envolvente, as pessoas se apaixonam pelo lugar e acabam comprando uma casa”, disse. O golfe é um dos três pilares consolidados de Vilamoura – ao lado da marina e das praias -, somado a um centro hípico de € 25 milhões para 1.000 cavalos e um novo centro esportivo projetado para expandir o apelo do destino para muito além dos campos.

Esse reposicionamento premium já é evidente no The Els Club, onde a entrada exige uma taxa de adesão de € 100 mil e os novos títulos são liberados em lotes trimestrais limitados.

Sepúlveda insiste que o Algarve não pode sustentar esses preços apenas com marketing. “Não dá para fazer isso só pelo preço ou por uma boa publicidade – é preciso entregar um produto de excelência”, afirmou, apontando para os investimentos em campos de golfe, hotéis e infraestrutura. “Portugal não tem alternativa. Somos um país pequeno. Temos que ser premium. Não temos 500 campos de golfe, temos cerca de 70. Precisamos nos posicionar no topo do mercado.”

Els acredita que os guindastes que hoje tomam o horizonte de Vilamoura são um sinal claro de um novo ciclo de valorização. Olhando para trás, ele conta que ainda se arrepende de não ter comprado uma casa de veraneio na vizinha Quinta do Lago quando ele e sua esposa se apaixonaram pelo Algarves. “Vinte e cinco anos depois, eu gostaria muito de ter comprado, porque hoje o preço é completamente outro. Acho que o mesmo vai acontecer por aqui.”

Getty ImagesErnie Els, da África do Sul, caminha após realizar sua tacada inicial no buraco 1 durante a primeira rodada do Portugal Invitational 2026 no The Els Club Vilamoura.

O tricampeão de torneios Major, Padraig Harrington, passa férias no Algarve com a família há anos e acredita que Portugal ressurgiu como um dos principais destinos europeus para golfistas do norte da Europa que buscam adquirir uma segunda residência.

“É para cá que minha família vem passar as férias no verão. Já faz bastante tempo que frequentamos a região. Costumamos alugar quando vimos para cá, mas com certeza é um lugar onde, quando eu me aposentar – o que alguns diriam que nunca vai acontecer -, eu definitivamente vou comprar um imóvel.”

Harrington atribui esse renascimento à combinação portuguesa de golfe de altíssima qualidade, planejamento cuidadoso e desenvolvimento disciplinado. Ao contrário de muitos destinos onde os campos de golfe viraram mero detalhe, ele defende que Portugal fez o oposto. “Eles construíram os campos de golfe nas melhores áreas. Os campos têm um padrão muito mais elevado do que se encontra normalmente por aí, porque não foram pensados como um plano secundário – eles costumam ser a prioridade”, destacou.

Resta saber se o Algarve conseguirá se reestruturar com sucesso, deixando de ser um dos destinos de golfe com melhor custo-benefício da Europa para se tornar um dos principais mercados de lifestyle de luxo do continente. Se depender da Details, essa transformação já está na reta final do jogo. O sucesso dessa estratégia dependerá, em última análise, de os golfistas e potenciais compradores de imóveis abraçarem essa visão com o mesmo entusiasmo demonstrado pelos investidores.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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