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Philippe Starck Cria Seu Refúgio dos Sonhos em Portugal. E Agora Você Também Pode Morar Nele

Com investimento de cerca de € 100 milhões, ASerra terá hotel, 22 villas e uma espécie de aldeia contemporânea em Melides; projeto nasce da relação de mais de uma década do designer francês com a região

6 min

Philippe Starck já teve casas em lugares como Formentera, Veneza e Cap Ferret. Viajou o mundo, desenhou hotéis, restaurantes, móveis e objetos que entraram para a história do design. Mas foi em um pedaço do Alentejo português que o francês, hoje com 77 anos, experimentou uma sensação que, segundo ele, nunca havia sentido antes.

“Passei a vida inteira em todos os lugares. Mas esta foi a primeira vez em que realmente senti como se raízes estivessem saindo dos meus sapatos e entrando no solo. Estou em casa.”

Essa relação começou há cerca de 13 anos, quando Starck chegou a Portugal por sugestão de um amigo, ninguém menos do que Christian Louboutin. A intenção inicial era passar um período no país. Ficou. Primeiro encontrou uma casa e, depois, começou a percorrer de bicicleta e quadriciclo a região próxima ao mar à procura do que considerava “o melhor terreno”. Acabou encontrando-o na Serra de Grândola, perto de Melides.

Mais do que a paisagem, foram os portugueses que o convenceram. “Não é por causa do clima maravilhoso. Não é por causa da vista maravilhosa. É, em primeiro lugar, por causa das pessoas”, diz. Starck conta histórias de desconhecidos dispostos a acompanhá-lo até um posto de gasolina quando seu carro ficou sem combustível e de donos de restaurantes que, em vez de empurrar a garrafa mais cara, indicavam um vinho de € 25. “Os portugueses são uma das últimas populações no mundo que conservaram valores como respeito, amor, honestidade e gentileza. Quando você é atingido por isso, torna-se difícil viver em outro lugar.”

DivulgaçãoPhilippe Starck

Agora, essa relação pessoal está ganhando escala. Previsto para abrir no segundo trimestre de 2028, o ASerra é um projeto de hospitalidade e residências desenvolvido pela Larfa Properties, de Stéphane Delplancq, com conceito e design de Starck. Em uma propriedade de 85 hectares, reunirá um hotel de 25 suítes independentes, 22 villas privadas com serviços hoteleiros, restaurantes, spa, espaços dedicados à criação e uma espécie de aldeia contemporânea.

O investimento total deve chegar a cerca de € 100 milhões, segundo Delplancq. A Larfa pretende permanecer à frente da operação do hotel, estratégia que o empresário já adota em outros projetos de hospitalidade. “Não temos uma estratégia de investimento que nos obrigue a sair dos projetos. Gostamos de desenvolver projetos e, na maioria deles, mantemos os ativos”, afirma.

Quase invisível na paisagem

A ligação de Starck com o terreno determinou também uma das premissas arquitetônicas do ASerra: interferir o mínimo possível no que já estava ali.

“Primeiro, respeitar. Respeitar a natureza. Fazer algo praticamente invisível”, diz o designer. “Quando constroem por aqui, muitas vezes fazem cubos brancos. Grandes cubos brancos. Um grande cubo branco pode ser bonito, mas não na natureza.”

O projeto arquitetônico e a construção são conduzidos pelo escritório lisboeta Atelier AAVV, de Miguel Passos de Almeida, enquanto o paisagismo é assinado por Filipa Cardoso de Menezes, da FC Arquitectura Paisagista.

Nas construções, o concreto assume tons que procuram se misturar à terra. Starck conta que foram necessários dois anos para chegar à cor desejada e, grandes superfícies de vidro abrem os interiores para a paisagem. Terracota, madeiras avermelhadas, couro natural e cerâmicas aparecem entre os materiais dos interiores. “É se diluir. Você está integrado a tudo, à boa energia de Portugal, à boa energia do sul”, resume Starck.

Essa discrição tem relação também com uma descoberta pessoal. Acostumado a viver literalmente diante da água, o designer conta que inicialmente procurava reproduzir ali a mesma experiência. “Todas as nossas casas pelo mundo sempre foram junto ao mar, na praia ou em um porto. Sempre tivemos um barco a dois metros de distância.”

A geografia de Melides, porém, impôs outra lógica. Entre a propriedade e o Atlântico estão a praia e as grandes dunas protegidas. “Levei anos para entender que aqui eu nunca teria uma vista direta para o mar”, diz. E acabou transformando a aparente limitação em qualidade: “O melhor é estar no silêncio do campo, com o mar, e a 10 minutos dele.”

Um hotel que funciona como aldeia

O ASerra não foi pensado como um hotel convencional. No alto do terreno estarão as construções de caráter mais mineral; na parte baixa, uma aldeia de madeira reunirá áreas de convivência e atividades. Restaurante com produtos da horta, café, loja, estúdio de arte e piscina estarão distribuídos ao longo de uma rua central. O programa prevê ainda spa, espaço para yoga, oficinas de pintura, cerâmica, escultura, desenho e gastronomia, jardim infantil e quadras de tênis e petanca.

As 25 suítes independentes do hotel terão 70 m² de área interna e terraços de 90 m²; 12 contarão com piscina privativa. As 22 villas seguirão a mesma linguagem estética e seus moradores terão acesso aos serviços e à infraestrutura do hotel.

“Tudo faz parte de um único projeto”, explica Delplancq. “As villas, as suítes do hotel e o edifício principal terão a mesma linguagem. Você encontrará o mesmo tipo de mobiliário, os mesmos azulejos, o mesmo padrão construtivo e a mesma sensação nos ambientes externos.”

O empresário diz que os preços ainda não estão oficialmente fechados, mas trabalha com uma estimativa inicial a partir de € 6 milhões por villa. A comercialização deve começar antes da abertura do empreendimento.

Os proprietários poderão manter a residência exclusivamente para uso próprio ou integrá-la ao pool hoteleiro nos períodos em que estiver desocupada. Nesse caso, a administração ficará obrigatoriamente a cargo do ASerra, uma forma, segundo Delplancq, de preservar tanto o padrão do serviço quanto o valor das propriedades.

O modelo mira especialmente quem divide o ano entre diferentes endereços. “Alguém pode morar no Brasil, ter outra casa no sul da França e uma terceira aqui”, exemplifica. “Essas pessoas terão um imóvel com os serviços de luxo de um hotel cinco estrelas e, durante o restante do ano, ele poderá funcionar como investimento.”

Para Starck, no entanto, a palavra luxo parece importar menos do que aquilo que o lugar consegue preservar. Para alguém que define o luxo contemporâneo como excessivamente associado à demonstração de riqueza, a ideia aqui é outra. “Para mim, luxo é simplesmente qualidade atemporal. O mais alto nível de qualidade em tudo, feito com respeito pelo material e respeito por nós mesmos.”

No ASerra, talvez essa busca por permanência comece pelo que já existia antes de qualquer desenho: o terreno tomado por sobreiros e seus galhos tortuosos que fez um dos designers mais relevantes do mundo finalmente decidir criar raízes.

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