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Gol de Letra: A Jovem Que Transformou Torcedores de Futebol Em Leitores

Carolina Marques tem 22 anos, estuda Letras em Ouro Preto e é atleticana de nascença. Publicou uma pergunta no X esperando meia dúzia de pessoas. Em 24 horas eram mais de 400, e hoje a Galeitura reúne mais de 90 mil seguidores

5 min

Gustavo Scarpa fez um post com um livro de Tolstói e, dias depois, o título esgotou na Amazon. Você já deve conhecer essa história. Mas talvez tão interessante quanto ela seja a história de Carolina Marques.

Nascida em Congonhas, no interior de Minas, Carol é atleticana desde que nasceu. Literalmente: nasceu em 25 de março, mesma data do aniversário do Atlético Mineiro. Acompanhava o movimento de perto, viu outros jogadores aparecendo com livros na mão e teve uma ideia bastante simples. Por que não criar um clube para que torcedores pudessem ler juntos os títulos indicados por Scarpa?

Publicou a ideia no X. Uma pessoa respondeu dizendo que participaria. Carolina criou o grupo.

No mesmo dia, havia mais de 300 pessoas. Em menos de 24 horas, as reportagens já registravam mais de 400. O crescimento continuou nos dias seguintes, e a organização precisou interromper temporariamente as novas entradas para descobrir como acomodar tanta gente. Hoje, o Instagram da Galeitura passa de 90 mil seguidores.

O primeiro livro escolhido foi justamente A Morte de Ivan Ilitch. A leitura foi organizada em três semanas, com espaços de conversa e uma discussão coletiva no final. A ideia é um livro por mês.

Carolina estava esperando meia dúzia de pessoas.

Ela tem 22 anos e estuda Letras na Universidade Federal de Ouro Preto. Até poucas semanas atrás, era uma estudante apaixonada por literatura que teve uma ideia e resolveu colocá-la no mundo.

Em Congonhas, foi uma criança tímida e pouco extrovertida, apaixonada por histórias. As dos gibis, as dos livros e as que inventava sozinha. “Sempre fui na minha, preferia a companhia dos livros.”

Só que os livros não chegaram até ela pelas estantes de casa. Sua família não tinha o hábito da leitura. Quem colocou o primeiro na mão dela foi a escola.

Mais precisamente, uma professora que incentivava a turma a ler e a escrever com projetos. Quando os alunos podiam levar livros para casa, Carolina aproveitava até o limite. “Eu amava, pegava o máximo de livros que conseguia.”

Durante a infância inteira, as bibliotecas das escolas públicas onde estudou foram praticamente seu único acesso à literatura. Na adolescência, começou a pedir livros de presente. Nem sempre dava. “Muitas vezes não conseguíamos comprar, mas sempre fizeram o possível e o impossível para que eu continuasse lendo.”

Por volta dos 13, 14 anos, Carolina se sentia muito sozinha na escola. Os livros passaram a ocupar um lugar que ia bem além do entretenimento. “Eu lia e era abraçada por aqueles personagens, me sentia menos solitária com eles.”

Anos depois, durante a pandemia, aconteceu de novo. Ela atravessou um período difícil e voltou a encontrar refúgio na literatura. Com uma diferença: dessa vez, os livros também a conectaram a outras pessoas. Foi através deles que conheceu amigas que mantém até hoje.

Carolina não estava propondo que as pessoas lessem mais. Estava propondo que lessem juntas. E foi procurar isso no único lugar do Brasil onde o pertencimento já vem pronto: a torcida.

Uma comunidade de torcedores que vira, também, uma comunidade de leitores.

Scarpa já vinha chamando atenção pelo interesse por literatura e intensificou os conteúdos sobre livros. Em duas semanas, quatro resenhas somaram mais de 800 mil visualizações no YouTube. Uma delas levou um Tolstói de 1886 ao topo dos mais vendidos da Amazon Brasil.

Então começaram a chegar as mensagens. Carolina conta que recebeu mensagens de gente que não lia havia anos. De gente que dizia odiar leitura. De gente que nunca tinha pegado um livro na vida e resolveu começar por causa da Galeitura.

E não foram dois ou três. Foram muitos.

“Isso enche o meu coração de orgulho. É exatamente isso o que buscamos com a Galeitura, fazer as pessoas lerem mais e se encantarem pela literatura.”

Desde criança, Carolina queria ser professora. Brincava de escolinha e fazia questão de ocupar esse papel. Em algum momento quis ser escritora, e no ensino médio uma professora de literatura deu forma ao que já existia ali dentro. A admiração era tamanha que Carolina entendeu o que queria: provocar nos outros aquilo que sentia. “Queria que outras pessoas sentissem a mesma coisa que eu sentia nas aulas dela.”

Carolina ainda não sabe onde esse caminho vai dar. Diz que o sonho é trabalhar com arte e, principalmente, com literatura. Admite que passou muito tempo sem saber o que queria da vida e que ainda está se encontrando. “Mas o caminho é esse.”

Há pouco mais de uma década, em Congonhas, uma professora colocou livros nas mãos de uma menina de nove anos. A menina levou para casa quantos conseguiu carregar.

Hoje é essa menina que está colocando o primeiro livro na mão de gente que nunca abriu nenhum.

*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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