E se o próximo Prêmio Jabuti fosse entregue no Maracanã?
Calma, parece loucura, mas eu explico.
Tudo começou no fim de agosto, quando o meia Gustavo Scarpa, do Atlético Mineiro, postou um vídeo com A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, e o livro chegou ao topo da Amazon. A atleticana Carolina Marques viu aquilo e propôs no X: que tal um clube do livro chamado Galeitura? Esperava meia dúzia de pessoas. Hoje são mais de 100 mil seguidores.
Uma semana depois, o Galeitura fez um post em collab com clubes do livro criados por torcidas rivais, na esteira dele. A mensagem era uma: leitura é de todo mundo. Sem rivalidade.
Carolina me contou, em entrevista, que desde a criação do Galeitura recebeu muitas mensagens. De gente que não lia havia anos, que dizia odiar leitura e que nunca tinha aberto um livro. Descobri também que ela nasceu no aniversário do Atlético. Como eu, chegou ao mundo com um clube. A minha história com o meu começou num vestiário, muito antes de eu nascer.
Em 15 de novembro de 1920, na Rua Paissandu, os jogadores do Flamengo cantaram pela primeira vez uma marchinha escrita por um atleta da casa. “Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar. Flamengo, Flamengo, campeão de terra e mar.” Treze dias depois, o time venceu o Andaraí e levou o título carioca; o remo já era campeão. O verso virou profecia, e a marchinha, hino oficial.
O autor jogava pelo Flamengo, apitava partidas e escrevia peças premiadas. Chamava-se Paulo de Magalhães. Era meu avô.

Quando nasci, meu avô paterno, Arthur Bezerra de Mello, pediu ao meu pai que eu me chamasse Maria Amália, como a mãe dele. Minha mãe queria também homenagear o pai dela, o teatrólogo do hino. Virei Paula Amália. Carrego no nome um homem que escrevia para o palco e para a arquibancada.
O Clube de Regatas do Flamengo completa 131 anos em novembro, e o hino que certamente será mais cantado é o dos anos 40: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. Mas, com todo respeito a Lamartine Babo, o raiz é o do meu avô.

Na minha família, livro e bola nunca disputaram espaço. Minha primeira bola veio aos quatro anos, em Nova York, presente de Pelé. Meu primeiro livro, The Giving Tree, veio em inglês, a língua em que fui alfabetizada. Casei com um flamenguista, advogado desportivo que já defendeu Flamengo e Atlético, entre outros rivais históricos. Nossa filha, Eduarda, saiu da maternidade com meias do Flamengo e, ainda na minha barriga, ouvia minha voz lendo para ela.
Em 2014, ainda grávida da Duda, reparei que todos na sala de espera do ultrassom rolavam o celular, eu inclusive, ao lado de revistas intocadas. Eu cresci vendo meus pais lerem, virando páginas de jornal, romance, biografia de capa dura, roteiro de filme. Nossa filha ia nos ver fazendo o quê?
Numa época em que influenciadora ainda não era profissão, a Vogue americana começava a se render ao poder das mídias sociais: a bíblia da moda acabara de postar uma capa com as “Insta Girls”, as it girls do momento. Meninas do mundo inteiro as imitavam. E se essas it girls lessem? E se, além do #lookdodia, existisse o #bookdodia? E se as it girls fossem também lit girls?

Levei a ideia para a Daniela, minha ex-editora-chefe na Vogue, então à frente da Globo Condé Nast. Ela quis lançar na hora, pela Glamour. O slogan da revista era “Mulher Bacana lê Glamour”. Bastou cortar uma palavra. Em 2017 nasceu o Mulher Bacana Lê, ativo até hoje.
Quase dez anos depois, o livro virou objeto de desejo. Valentino desfilou sua ultima coleção em Paris numa biblioteca. A Saint Laurent abriu livraria em Paris; Miu Miu, Vogue americana, Reese Witherspoon, Dua Lipa e Kaia Gerber têm clubes do livro. Só que o desejo voltou e o acesso, não. Uma em cada três crianças da rede pública não se alfabetiza na idade certa. Três em cada dez adultos são analfabetos funcionais.
Mas oito em cada dez brasileiros torcem por um time.
Time, no Brasil, é identidade.
Mandela dizia que o esporte tem o poder de mudar o mundo. Malala disse na ONU que uma criança, um professor, um livro e uma caneta também têm. Com o Galeitura, as duas frases se encontram no mesmo campo.
Anteontem, Gustavo Scarpa subiu ao palco da Sala São Paulo para entregar o Prêmio Jabuti a Pedro Pacífico, o Bookster, vencedor da categoria inédita Incentivo à Leitura: Cultura Digital, criada para premiar quem usa as redes sociais para formar novos leitores e decidida pelo voto do público. O jogador que levou a torcida aos livros entregou o prêmio a quem transformou as redes em porta de entrada para a leitura. Os dois jogam no mesmo time.
Meu avô escreveu, num vestiário, que a glória do Flamengo era lutar. Mais de um século depois, uma jovem atleticana que sonha em ser professora lembrou o país de outra glória possível. Essa, todas as torcidas podem cantar juntas. Nesse jogo, a vitória é do Brasil.
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